domingo, 10 de agosto de 2014

O mais legal dos caras


Ele não é o mais legal dos caras. Tem dias que ele não abre mão de suas convicções, nem pra emprestar a chave do carro. Por causa dele a gente perde noites e noites de festas com os amigos e fica todo emburrado no quarto, contando as horas pro castigo acabar. Porque sim, pra ele não há idade pra ser castigado, não!

Ele é pior do que os inquisidores da Idade Média. Pergunta, pergunta, pergunta, quer saber de tudo o que a gente fez, faz e até o que vai fazer. “Quem é aquele cara, menina?”. “Quantos anos ele tem?”. “É de família?”. Tenho uma amiga que deu a ele o carinhoso apelido de “Inimigo de Santo Antônio”, de tão tinhoso que é. Até parece chefe de RH, interrogando os novos agregados, que às vezes deixam de ser agregados por causa dele. Cara chato!

Imaginem só quando chegam as contas do mês... Aí ele vira um carrasco. Não pode usar isso, tem que economizar naquilo, e aí acaba a farra do banho quente, da TV ligada até tarde pra acalentar meu sono, do secador da minha irmã. E é a mesma coisa com a água, com o gás, com o cartão de crédito. “Vocês gastam demais!”, “Eu me mato de trabalhar pra sustentar esses luxos de vocês”, “Acho bom vocês começarem a ajudar”...

Ele que não ajuda, com esse semblante fechado, sempre sugerindo raiva – ou o próximo castigo. Ele implica com tudo o que fazemos, vestimos, pensamos, não pensamos. Ele vem com uma cabeça de trinta anos atrás, achando que o mundo ainda funciona como nos anos 80. Será que ele não vê que a gente cresce?

Não.

Se ele achasse que nos crescemos um dia, não ficaria tão feliz ao nos ver comemorando com ele, como crianças, um golaço do time que ele nos ensinou a gostar. Não se sentiria tão assustado ao ver que tem outro rapaz querendo construir uma nova família com a princesinha dele. Não abriria um sorriso de orelha a orelha ao ver todos juntos à mesa, elogiando a carne assada do almoço de domingo. Não olharia as fotos envelhecidas da estante da sala com saudades de um tempo que passou tão rápido. Não sentiria orgulho de nos ver curtindo um sabadão no parque andando de bicicleta, como ele nos ensinou um dia.

Na verdade, que bom que ele ainda é assim, turrão, careta, exigente, que não empresta sempre o carro quando sabe que vamos aprontar, mas às vezes faz vista grossa e nos deixa curtir a vida. Sorte de quem tem esse homem que, mesmo depois de tantas gerações e da crueldade do tempo que não para, ainda nos olhe como garotos, aqueles garotos que ele embalou na rede pra dormir, que levou ao hospital nas madrugadas difíceis, que deu os primeiros passes para os nossos gols, que abençoou nossas mãos no altar.


Quer saber? Não sei o seu, mas o meu pai é sim o mais legal dos caras.