terça-feira, 3 de junho de 2014

Presente

Nesses dias de reconferência, de balanço das peripécias de uma vida que ganhou mais um ano, a gente se pergunta: qual será o melhor dos presentes. Será que ele vem embrulhado em papel de seda vistoso, como em algum filme de Natal? Ou em algum papel de pão, sem laço nem abraço?

Presente bom mesmo nem precisa ter roupa. Se tiver, pode ser um lindo vestido, aquele com cores de infância, corte de festa e renda branca. Às vezes, ele vem com um doce cheiro de grama verde, pingos de lama e pés descalços, com toda a delicadeza de uma memória viva de infância. Presente que pode crescer, esperar ou, quem sabe, nem mais voltar.

Pode ser também uma bela macarronada à bolonhesa, um cachorro-quente, um disco de Caetano ou uma noite em Fortaleza. Talvez tudo junto, como quem diz: “é só disso que eu preciso por hoje”. Pode ser disso que eu precise pra sempre.

Mas vai que o melhor presente não tem cara, tem pixels, gigabytes e megapixels. 42, 50, 60 polegadas de pura emoção. 300 canais para escolher e te escolher. Felicidade que se compra, satisfação garantida. No volume máximo, ou leve feito um sussurro, que arrepia. O que arrepia você?

Presente feito de imagens, mensagens, lembranças. É no passado que ele pode estar, quando o tempo faz guardar os momentos que precisam ficar. Às vezes, o melhor dos presentes já chegou, e mesmo que a gente ache que dá pra esquecer, um bom instante não sai da memória.

Ou, então, o presente é o futuro. Ter o que prospectar, ver onde pode  - e onde não pode – chegar, saber com que penas caminhar e, mais do que isso, ter certeza de que haverá um corpo para te fazer sombra, e para ser protegido. Talvez seja fácil demais pensar no dia seguinte, mas é isso que fazem os incansáveis sonhadores, que alimentam de amanhã o hoje.


Penso nisso tudo enquanto ganho abraços, carinhos, beijinhos sem ter fim. Enquanto os bons me olham com alegria, apenas por me olhar. Enquanto o que realmente importa importa mais, e o que não é necessário fica cada vez mais sem necessidade. Vejo o bolo, a vela queimando, a luz baixa, o relógio girar... Quer saber? Obrigado por hoje. No fim das contas, o maior dos presentes deve ser estar presente. 


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