quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Fora da lista



Segunda. 6:00, acordar. 7:00, aula. 12:00, almoço. 12h30, cochilo. 13:00, trabalho de Geografia. 15:00, estudar para a prova de Química. 17:00, lanche. 17:45, assistir TV. 18:15, banho. 18:45, jantar. 19:15, trabalho de Geografia. 20:30, estudar.

Henrique sempre foi um cara muito metódico. Desde cedo, com medo de se tornar um desorganizado, como era o seu irmão mais velho, ele passou a se preocupar com o que tinha que fazer durante o dia. Tinha a hora de estudar, a hora de ler, até a hora de dormir era marcada. Só se livrava dessa organização nas férias. Sem trabalhos, sem provas, sem professoras chatas, Henrique era feliz todo meio e final de ano.

O problema, para ele, era que as férias duravam tão pouco... Daí, o tempo foi passando, sempre sob o controle de Henrique. O rapaz acabou adquirindo uma péssima mania: checklists. Questão de dependência, caso de internação, alguns diziam. Henrique passava a contar até mesmo com os imprevistos, sempre tinha um “plano B”, caso a tarefa marcada não vingasse. Só não tinha um “plano B” para os amigos, que o convidavam para sair, mas nunca dava.

Henrique nem tinha tanto tempo pra se chatear, afinal, ainda havia muito o que fazer. Tudo extremamente organizado, calculado e irritantemente seguido. É muito bom seguir um rumo na vida, nem todo pragmatismo é vil. A dose errada pode ser. No caso de Henrique, era.

Mas a vida seguia a mesma, até que, de repente, toda e qualquer previsão perdia o sentido. Tudo porque Henrique acabou derrubando a xícara de café na camisa, na pressa de chegar ao escritório. Lá se foram 15 minutos perdidos, trocando de roupa. Como se não bastasse, o trânsito estava especialmente complicado, por conta de uma obra realizada em uma tubulação de água – no meio da pista, às sete da manhã de uma terça-feira.

A testa franzida de Henrique com o atraso não precisam de mais descrições.

Ainda um pouco longe, ele começava a repensar em tudo o que tinha de fazer naquele dia. Então, uma fumaça escura começava a despontar no pára-brisas do carro de Henrique. Curioso, cada vez que chegava mais perto, queria saber o que era aquilo, que vinha perto de onde ele trabalhava. Perguntou a um ciclista que vinha de lá o que estava acontecendo. Depois da resposta, Henrique só conseguiu largar o carro e correr. Era o prédio onde trabalhava, onde deveria estar meia hora antes. Em chamas!

Pro texto não ficar tão pesado, ninguém se feriu com gravidade. Perda total mesmo foi o que aconteceu com os computadores e as agendas sobre a mesa de Henrique.

Em algumas horas, o cara que sempre foi refém das suas obrigações e de uma rotina que o afogava, simplesmente não tinha nada pra fazer nas horas seguintes. Nenhuma ligação a fazer, nenhuma reunião marcada, nenhuma lista. Nada. Então, meio desolado, como se tivessem tirado o seu GPS, Henrique sentou numa calçada e começou a pensar.

Claro que ele agradeceu aos deuses por aquele café derrubado em sua camisa verde-piscina, pelas obras na rua, que nunca foram tão oportunas, afinal de contas, sem isso ele teria virado churrasco. Mas ao mesmo tempo, ele se perguntou: “Se não fosse tudo aquilo, e eu tivesse me dado mal nesse fogaréu todo, o que teria virado churrasco?”.

32 anos de idade, sem filhos, sem namorada, com os pais morando em outra cidade, Henrique estava só. Era só. Amigos? Poucos, de fato. Ao contrário, muitas foram as chances de construir novas relações. Mas sempre as obrigações na frente, sempre o que estava marcado, sempre o planejamento. E foi justamente o imprevisto, aquele que Henrique tentava programar, que o salvou. Duas vezes. Livrou Henrique da morte e, de quebra, o fez começar a viver.


Meses depois, Henrique conseguiu outro emprego, também de dois expedientes, e descobriu que é possível levar uma vida divertida trabalhando 8 horas por dia. Até conseguiu uma namorada! Antiga colega de trabalho, que ele nunca tinha notado muito bem. E nada como uma mulher pra fazer um homem mudar seus planos do dia. Quando completaram seis meses, ele ganhou um livro dela. Sabe qual era? “Cinco minutos”, de José de Alencar. Não porque ela tinha uma doença grave e foi curada pelo amor do amado amante, e sim para que ele nunca se esqueça de que, às vezes, não seguir o planejado é o melhor dos planos.



IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/-Z5JzykcCyVg/Tze0OuGofqI/AAAAAAAABno/TDUldHbwJ0I/s1600/planejar.jpg