quarta-feira, 17 de julho de 2013

Depois da ponte

Pegar a estrada, algumas vezes, pode significar bem mais do que uma simples viagem. Foi o que aconteceu comigo, dia desses. O roteiro dessa história poderia ser completamente diferente, visto que ele começou às quatro da madrugada, quando eu tive que acordar. “Tive que”, pois ninguém normal deve ser obrigado a estar de pé numa hora dessas. Fiz todo o ritual matinal, pus a mochila nas costas, entrei no carro e fui. E aí começou uma das sessões de nostalgia mais intensas da minha vida.

Pegando a Almirante, com o azul do céu ficando cada vez mais claro, a cada piscada, eu voltei alguns anos no tempo, para um tempo em que meus avós tinham mais disposição de me tirar de casa, rumo à praia. Sim, ir á praia. Estava indo a Mosqueiro. O Entroncamento sendo Entroncamento, a BR de nuvens brancas e céu limpo, os caminhões de carga, o vento na cara, secando a boca. Tudo com um gosto de passado, de infância.

Fronteiras sendo ultrapassadas. A barreira da PRF, imponente, que me fazia abaixar com medo de estar errado e estragar a viagem. A PA cheia de verde e velocidade. A ponte. A ponte, de onde eu vi o mundo barrento tantas vezes, com barquinhos navegando soltos, tão pequenos... O imenso banco de areia, onde eu já quis fincar uma mesa cheia de camarões e guaraná, e onde eu ainda quero jogar bola com meus amigos. A ponte que, sempre que aparecia, fazia nascer em mim um sorriso em forma de frase: estamos chegando!

Chegamos!

Chapéu Virado, Caramanchão, Farol... Palavras do meu dicionário mais tenro, mais juvenil. A gente vive com tanto pé no chão, no asfalto, que depois de algum tempo, até ver a areia faz tremer. As mesmas barracas, os bicicletas, o sol de logo cedo, com a mesma cor, o vento frio, e a tranquilidade que nem o paraíso deve ter. Bucólica, não à toa. O gosto da tapioca na 16 voltou, e como é diferente das que eu faço em casa. Tem gosto de férias de julho, de semanas sem aula, de coxa bronzeada pela metade por causa da bermuda, de costas vermelhas, e cheiro de protetor solar. Que delícia! Que saudade!

Lembra o que eu disse sobre a areia? Nenhuma no mundo é igual ao tapete bege do Farol. Areia fofa, que dói nos pés e fortalece a panturrilha. Areia que fica presa sob as unhas, do menino que fazia castelinhos, caía, rolava e chegava em casa fazendo um rastro de sujeira e diversão. Cada volta para casa era uma despedida, e sempre com hora marcada para o reencontro.


Já fui tantas vezes a Mosqueiro, que nem conto mais. A última vez fazia tempo, e foi inesquecível. Das anteriores, a mesma sensação. Fosse pra passar um mês inteiro, fosse para apenas curtir um sábado, nunca foi ruim estar lá. Tão perto e tão longe. As duas horas de viagem sempre serão menores do que os vários anos de lembranças escritas na Vila, no Murubira, no Paraíso. Paraíso que já teve dias melhores. Não se justifica sempre com bucolismo o descaso em algumas vias, nem o vazio de algumas praias. Não sou muito antigo, mas consegui pegar o bondinho e viver os últimos grandes anos da ilha. Que eles voltem logo. Que eu volte logo, para ver as melhores recordações da minha vida ali, depois daquela ponte.


IMAGEM: Carlos Macapuna


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Quem sabe

Talvez eu comece a gostar daquela banda que toca toda hora no rádio do carro. Talvez eu consiga tocar aquela guitarra que ganhei de aniversário, e que eu ainda não pendurei na parede. Talvez eu perca meus medos de altura, do escuro, do desconhecido. Talvez eu queira me aventurar em saltos de pára-quedas. Talvez eu aprenda a mexer naquele programa, ou aquele macete facinho do jogo que todos os meus amigos de infância zeraram mais de cinco vezes.

Posso ser o novo gênio da minha área, o criador, o inventor, o premiado. Posso não ser mais do que um dono-de-casa que faz o almoço de domingo pra família. Posso ter muitos bens, espalhados por aí, declarados ou não. Posso manter minha dignidade, até precisar de uma grana extra. Posso ser fiel às minhas convicções, às pessoas, a mim mesmo. Posso vencer. Posso perder. Posso ser o eliminado da semana, o funcionário do mês, o pai do ano.  

Quero mesmo ser pai. Quero ensinar o moleque a andar de bicicleta e jogar futebol. Quero ver o sorriso amoroso da minha filha, linda, ao dizer “papai” pela primeira vez. Quero ter essa sensação de posse, de família. Quero chegar cansado do trabalho e ter minha esposa pra deitar comigo na cama e dizer que o dia dela foi bom, e com quem eu possa dividir minhas angústias e alegrias, as contas do mês e a transa gostosa da noite. Quero me dividir.

Vai que eu me torno um fracassado, liso, sem grana nem pra sair da casa dos pais... Vai que eu consigo ganhar na loteria... Vai que o mundo sorri para mim, com sarcasmo, me apontando o caminho, só esperando pra eu me ferrar... Vai que meu trabalho é reconhecido... Vai que meu salário dobra... Vai que eu consigo um emprego... Vai que eu pulo de um prédio... Vai que eu escrevo um livro, aquele que eu quero há tanto tempo escrever...

Tomara que haja tempo para meus planos. Tomara que chova. Tomara que dê certo, e que eu possa aproveitar isso. Tomara que haja caminhos por onde eu possa seguir. Tomara que as possibilidades sejam muitas. Tomara que seja tranquilo. Tomara que tenha emoção. Tomara que seja na veia. Tomara que seja na alma. Tomara que seja sim.


Quem sabe eu aprenda a dançar. Quem sabe eu aprenda a cantar. Quem sabe eu aprenda a ler mãos, a lutar, a não desistir. Quem sabe eu aprendo a aprender. Quem sabe?


IMAGEM: Google Images