domingo, 7 de abril de 2013

Testemunha


Eu vejo o amanhecer em Belém, o entardecer em Moscou, o anoitecer em Pretória. Eu vejo o caos do trânsito, o estrago das chuvas, uma praça revitalizada, a polícia nas ruas (ou não). Estou lá, quando nasce o mais novo herdeiro, quando morre o grande ídolo, quando gente vira deus, e vice versa.

Quando um morador reclama da falta d’água no seu bairro, eu estou ao lado. Se um morador quer agradecer à prefeitura pelo conserto do sistema de esgoto, também. Posso estar na reunião do G-8 e, num clique, cheguei ao protesto de operários na fábrica. Eu vejo greves, motins, rebeliões.

Também vejo caminhadas pacíficas, maratonas, procissões. Meus olhos se enchem de lágrimas, pela fé ou pela revolta. Os mesmos olhos registram o lançamento de uma sonda lunar e um parto de quadrigêmeos, cirurgia de risco, vitória da ciência. Eu acompanho a evolução da vida, e alguns momentos de regressão do homem.

Árvores derrubadas, CPIs instauradas. Vejo o circo pegar fogo, prédios e aviões também. Sou eu quem estou ali, enquanto vidas se perdem numa fatalidade. Também sou eu que estou ali, quando um assassino finalmente é preso e condenado. Quando não é, eu sei. A Justiça é cega. Eu não.

Quantas vezes eu presenciei a fumaça sistina! Quantos papas, quantos presidentes, quantos prêmios! Viajei atrás de monges, pastores e pilotos de Fórmula 1. Corri para ver o primeiro show da banda na cidade. Investiguei paradeiros, para não perder a briga de vizinhos ao vivo, a denúncia de abuso sexual, o gol anulado.

Eu, aqui e acolá, em recordes olímpicos e entrevistas coletivas. Eu, aqui e acolá, no anúncio da nova taxa de juros, do novo salário mínimo, do pacote de austeridade. Convocação da Seleção, os aprovados no vestibular, até mesmo algumas festinhas da firma. Em todas, eu estou. Eu também sou visto, bem ou mal. Às vezes, sou até mais visto do que a explosão ou o reencontro de mãe e filho após vinte anos.

Todo dia, eu vejo algo novo, algo a mais. Toda hora, estou por perto, registrando, entendendo, dividindo. Sou papel, sou VT, sou áudio e sou blog. Sou os olhos atentos do desatento, as palavras, o fato. Em qualquer lugar, se você me procurar, lá estou. Eu, eterna testemunha da história.




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