segunda-feira, 22 de abril de 2013

Bloco do eu sozinho


Que admirável esse mundo novo, cheio de possibilidades, que o passado nunca ousou prever, em seus dias mais criativos. Estamos todos conectados, como nunca estivemos. Gerenciamos empresas pelo notebook, compramos pelo tablet, fechamos contratos pelo celular. A notícia chega mais rápido, a arte se espalha como água em um labirinto de areia, e nós ali, navegadores em mares cada vez menos desconhecidos. O mundo cabe em um cartão de memória.

Alguém na Malásia pode saber mais da sua vida do que a sua mãe, do que você mesmo. Suas dúvidas, suas angústias, seus medos, viajam por uma via de fibra óptica, sem que ninguém veja ou perceba. O divã pode estar bem longe do paciente, ou pode nem existir. Pode ser uma cama king size, um banquinho, uma webcam.   As lágrimas são aspas, os sorrisos são parênteses, os sentimentos se reduziram a “emoticons”. O que antes apenas pontuava frases, hoje marca emoções.

Nesse mercado de sensações, o protesto ganha força, as manifestações culturais se inflam, os shows ganham plateia. Um desejo aqui, uma vontade parecida ali, e a onda se forma, caudalosa, pronta para engolir quem se jogar, e até quem não está a fim de se molhar. É fácil fazer barulho nas mídias sociais, basta que algumas andorinhas queiram fazer verão, que muitos verão o quanto um mouse tem poder, o quanto um upload pode mudar seu destino. Instinto coletivo.

A era do compartilhamento é clara, é a nossa. Mas com quem estamos compartilhando nossas vidas? Das mil pessoas que nos seguem no Twitter, dos dois mil amigos no Facebook, quantos nós realmente conhecemos? “Conhecer pessoas” ganhou outra definição. Olhar nos olhos perdeu importância, deu lugar à playlist em comum, às fotos postadas, às comunidades que o outro segue. O que define a personalidade de alguém não está no rosto, e sim na foto. Não está na grafia, e sim no chat. Não é mais a piada espontânea, é o “meme” compartilhado.

Engolimos tantas possibilidades de comunicação e aproximação virtual, que há o risco de esquecermos do presencial, do cheiro, do tato. Mesmo sem se conhecer, estamos no mesmo grupo, no mesmo time, conversamos sobre coisas parecidas. Que conversa é essa? Nem a videoconferência mais perfeita é capaz de reproduzir a espontaneidade da presença, do estar lá. Do estar junto.

O século 21 é o paraíso da tecnologia, mas parece que regrediu nas relações pessoais. Mas aquelas, de brincar junto na praça, de jogar bola na rua, de beijar na boca. Talvez o excesso de conexão esteja desconectando os humanos da realidade, da humanidade. Tiro pela culatra. Unir pessoas é unir mãos, pés, braços. Abraços. Abraços de verdade. Sem eles, estaremos prestes a viver uma sensação irreversível de vivermos em um lugar onde só o que teremos para compartilhar será a solidão.


IMAGENS: http://2.bp.blogspot.com/-AQM_dvLympk/TphmozU-MFI/AAAAAAAAAKg/ousyjaF43Cw/s1600/2-notes.jpg

Nenhum comentário: