quarta-feira, 6 de março de 2013

Você sabe que eu gosto de você


Já faz um bom tempo em que olhar pra você é um sofrimento. Na verdade, eu acho que nunca foi fácil te encarar, cruzar meu olhar com as duas pedras de esmeralda sob este óculos que sempre me intrigou. Deve ser bem caro, vejo pela marca. Sempre admirei seu rosto, fino, ornado com esse vidro que reflete uma sedução disfarçada, sempre camuflada por um quê de candura. Sempre admirei você, essa é a verdade. E você sabe muito bem disso.

Lembro da primeira vez que te vi, no Maternal. Corri pra carteira ao lado da sua, pra tentar fazer você me ver, e a gente conversar, e dividir lápis de cor. O dia passou e não trocamos uma palavra. Só você, que me deu um sorriso bem tímido, e nada mais. Quatro anos de idade, e meu coração nem era mais meu. Desde então, o que eu sinto não é segredo.

Você sabe que eu gosto de você, desde aquele dia de chuva no parquinho, quando eu te dei meu casaco pra você não gripar. Isso me valeu uma pneumonia e uma visita sua no hospital. Você sabe que eu gosto de você, desde quando eu cortei o cabelo bem curtinho, só porque ouvi você dizer que gosta de homens sem muita cabeleira. Faço isso até hoje. Você sabe que eu gosto de você, desde quando eu te vi com aquela minissaia vermelha, e caí da cadeira ao tentar te espiar. Valeu a pena.

As minhas namoradas? Todas sabiam, certeza. Os seus namorados? Espero que nunca descubram, mesmo que seja impossível esconder o olhar fundo e o sorriso gratuito que construo ao ouvir seu nome, ou sentir seu cheiro na sala. É, eu sinto seu perfume doce, entre o suave demais e o enjoativo demais. Eu vejo seu rosto por aí, seu corpo nas revistas de modelos. E você nem é tão bonita assim. Talvez seja por isso que eu me apeguei tanto.

Agora você vem, na cara de pau, me dizer que está namorando de novo. Desgraçada! Você faz questão de mostrar, de me mostrar. Vaidosa! Egoísta! Gostosa! Infeliz! Gostosa! Essas sardas te deixam ainda mais linda. E mesmo que ser patricinha exibida não te caiba, é clara a provocação. Você sabe que eu não consigo demonstrar alegria, mas precisa que eu diga “que bom pra vocês”, como se fosse verdade.

É mentira! Quando eu sorrio, quero é chorar de raiva por não ter teu perfume na minha cama tão fria e grande. Se meus olhos te fitam, na verdade eu não quero nem te ver passar. Mas vejo. Mas quero. Eu minto. Minto pra mim, sem pudor, sem vergonha de me trair a cada vez que digo não mais pensar em você. Eu sempre penso. Eu cresci pensando em você, com meu casaco na chuva, ou com aquela minissaia vermelha.

Você sabe que eu gosto de você, e eu gosto tanto, a ponto de reservar meia hora do meu dia escrevendo esse texto, que você nunca vai ler. Na linguagem de muitos, isso é amor. Sei lá, tanto faz. O que importa é que eu não quero descobrir. Você é meu abismo, onde eu quero me jogar, mas tenho medo de não viver o resto, o depois. Não sou frustrado, sou apenas um resignado, feliz com a ideia de gostar de você, mesmo aqui, só pra mim, só por nós. 


IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/-0KAdEJBokkg/TqCoqQbh3aI/AAAAAAAABEU/epYQmdvQ42c/s1600/tumblr_ljx5s30bIq1qce0mpo1_r1_500_large.jpg

Um comentário:

Antonio Anderson disse...

O problema é se identificar sempre com esse teus textos e chorar sempre no último parágrafo.
Aquele momento em que um texto silencia até o meu sorriso...

Ai ai, fico à espera do próximo!!!