sábado, 16 de março de 2013

Via de regra


O amor e o ódio, o queijo e a goiabada, a lama e o caos. Todo mundo e seus padrões, quanta burocracia! É como se as coisas, pré-dispostas no espaço e no tempo, não dessem trela pro acaso. É aquele menino que combina muito com aquela menina, e só som aquela menina. É a manga que não casa com leite, ou o brigadeiro que dá espinhas.

Sempre vestidos de obrigações, esses paradigmas escondem cada ordem, uma verdadeira tirania tácita, que se alimenta da complacência inocente, quase besta, que quem não se opõe e, quase sempre, faz das tripas coração para se adequar. O medo é das críticas, da maldita exclusão. Ninguém quer ficar só no canto, sofrendo com olhares de negação da maioria, só por não gostar de futebol. Nem todo paraense gosta de açaí, nem todo católico é praticante, nem todo homem é machista.

Clichês, frases feitas, feitas para encaixar milimetricamente em todas as situações. Ah, o amor é lindo, só o amor constrói, blá, blá, blá... Sem Queen no talo, nenhuma vitória é vitória plena. Sem lágrimas, nenhuma tristeza é legítima. Regidos por uma orquestra, não podemos desafinar. Ou devemos. Alguns padrões são bastante ambíguos: ou você gosta muito daquela bandinha teen, ou você deve criticá-la até a morte. Sem meio-termo.

Estar em cima do muro não quer dizer que não há opinião. Não sempre. Mas de nada interessa a opinião de uns, se essa não seguir a rua da opinião de todos? Aliás, as ruas são uma grande vitrine de erros e acertos, nos sentidos mais perecíveis das palavras. Experimenta sair de casa mal vestido! As cores berrantes que hoje brigam, e amanhã podem estampar capas da Vogue. Xadrez e listras ainda brigam. A trégua? Ninguém sabe.

Aliás, ninguém sabe até onde vai a certeza do dia. Mulher dona de casa já é coisa do passado, e mesmo assim ainda é presente como a tal tradição manda. Quem é o vilão da novela das nove? Quem disse que já se pode falar “merda” em horário nobre? Não faz diferença. A massa só precisa acompanhar.

Esse negócio de acompanhar, assinar, seguir, perseguir... A internet, em si, já virou um padrão, um modelo. Ou você se prende às mídias sociais, compartilhando frases do Caio Fernando Abreu – que poucos sabem, mas já morreu faz tempo – ou vai escrever um blog falando das besteiras que os outros postam.  

Daqui a pouco, vêm aí novos modelos de beleza, de amizade, de certo e errado. Tudo deixa de ser rápido demais, o ontem volta, o amanhã é incerto. Enquanto isso, a gente segue por aqui, nesse teatro, fingindo crítica, mas ainda escrevendo no computador da moda, ouvindo a mais pedida e comendo um Big Mac. Ou um sanduba natural. Sabe como é, cuidar da saúde tá na moda.


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quarta-feira, 6 de março de 2013

Você sabe que eu gosto de você


Já faz um bom tempo em que olhar pra você é um sofrimento. Na verdade, eu acho que nunca foi fácil te encarar, cruzar meu olhar com as duas pedras de esmeralda sob este óculos que sempre me intrigou. Deve ser bem caro, vejo pela marca. Sempre admirei seu rosto, fino, ornado com esse vidro que reflete uma sedução disfarçada, sempre camuflada por um quê de candura. Sempre admirei você, essa é a verdade. E você sabe muito bem disso.

Lembro da primeira vez que te vi, no Maternal. Corri pra carteira ao lado da sua, pra tentar fazer você me ver, e a gente conversar, e dividir lápis de cor. O dia passou e não trocamos uma palavra. Só você, que me deu um sorriso bem tímido, e nada mais. Quatro anos de idade, e meu coração nem era mais meu. Desde então, o que eu sinto não é segredo.

Você sabe que eu gosto de você, desde aquele dia de chuva no parquinho, quando eu te dei meu casaco pra você não gripar. Isso me valeu uma pneumonia e uma visita sua no hospital. Você sabe que eu gosto de você, desde quando eu cortei o cabelo bem curtinho, só porque ouvi você dizer que gosta de homens sem muita cabeleira. Faço isso até hoje. Você sabe que eu gosto de você, desde quando eu te vi com aquela minissaia vermelha, e caí da cadeira ao tentar te espiar. Valeu a pena.

As minhas namoradas? Todas sabiam, certeza. Os seus namorados? Espero que nunca descubram, mesmo que seja impossível esconder o olhar fundo e o sorriso gratuito que construo ao ouvir seu nome, ou sentir seu cheiro na sala. É, eu sinto seu perfume doce, entre o suave demais e o enjoativo demais. Eu vejo seu rosto por aí, seu corpo nas revistas de modelos. E você nem é tão bonita assim. Talvez seja por isso que eu me apeguei tanto.

Agora você vem, na cara de pau, me dizer que está namorando de novo. Desgraçada! Você faz questão de mostrar, de me mostrar. Vaidosa! Egoísta! Gostosa! Infeliz! Gostosa! Essas sardas te deixam ainda mais linda. E mesmo que ser patricinha exibida não te caiba, é clara a provocação. Você sabe que eu não consigo demonstrar alegria, mas precisa que eu diga “que bom pra vocês”, como se fosse verdade.

É mentira! Quando eu sorrio, quero é chorar de raiva por não ter teu perfume na minha cama tão fria e grande. Se meus olhos te fitam, na verdade eu não quero nem te ver passar. Mas vejo. Mas quero. Eu minto. Minto pra mim, sem pudor, sem vergonha de me trair a cada vez que digo não mais pensar em você. Eu sempre penso. Eu cresci pensando em você, com meu casaco na chuva, ou com aquela minissaia vermelha.

Você sabe que eu gosto de você, e eu gosto tanto, a ponto de reservar meia hora do meu dia escrevendo esse texto, que você nunca vai ler. Na linguagem de muitos, isso é amor. Sei lá, tanto faz. O que importa é que eu não quero descobrir. Você é meu abismo, onde eu quero me jogar, mas tenho medo de não viver o resto, o depois. Não sou frustrado, sou apenas um resignado, feliz com a ideia de gostar de você, mesmo aqui, só pra mim, só por nós. 


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