sábado, 19 de janeiro de 2013

Liguei o rádio



Terça-feira, o dia mais insignificante da semana. Não é estressante quanto a segunda, e ainda está distante demais da sexta. Não tem futebol na TV, nem uma balada legal. A terça-feira tem o pior defeito que um dia pode ter: é comum. Por isso, acordar é tão desmotivador. É como se aquele dia não valesse, não contasse na sua vida, mas você fosse obrigado a passar por ele. Toda semana. Lá fui eu, despertar do meu injusto sono dos justos. Levantei, escovei os dentes, fui à cozinha, e encontrei um rádio. Resolvi ligar. Por quê?

Não sei a estação, nem gosto muito desse veículo. Pra mim, o que não começa com “www” não interessa muito. O fato é que eu liguei aquele rádio, e estava tocando, para o meu azar, aquela música. Que clichê dizer isso, mas era a nossa música. Brega, mas nossa. Um momento marcante nas nossas vidas nunca tem uma canção realmente boa de BG.

Eu ouvi a nossa música, e lembrei, claro, de você. Mas de você naquela tarde, na casa da Rita. Era essa música que tocava quando eu te vi entrando naquela sala, coradinha de sol, com a marca do biquíni verde que te cobria o que tinhas de mais interessante. Sorte do sol.

Naquele dia, à noite, a gente ficou pela primeira vez. Essa música não tocou, ou tocou e eu nem percebi. Seus lábios eram bem mais interessantes. Então, eu comecei a passear no nosso passado, enquanto o café esfriava. Depois daquele beijo, a gente ainda se viu mais umas sete ou oito vezes, até admitirmos que era a hora de assumir que estávamos juntos. Éramos um casal.

Essa bendita música... Lembrei de quando nós assumimos o namoro. Alguns torceram o bico, mas a gente até achava legal. Nunca havia namorado, e já estreava nessa vida com uma mulher deliciosamente linda feito você. Meus 17 anos não poderiam ser mais animados. Que se dane o vestibular! Eu queria era viver você, aquelas noites em que a gente se pegava escondido embaixo da escada do colégio, aqueles dias em que você ainda me mandava cartas. Seu jeito clássico de ser.

Droga, lembrei das cartas! E daquela carta... Aquela, a última. Aquela, que me enganou direitinho. Você. Nem foram seis meses, estava tudo tão bem, como se algum desses deuses que vocês veneram estivesse armando contra mim. Só não precisava ser no meu aniversário, cassete! Meus amigos, colegas, inimigos, professores do primário, até mesmo meus pais, todos na minha festa.

Todos, menos você. Te ligava, e nada. Implorava sua presença, em pensamento, mas nada. Nem brigamos. Brigaríamos depois, depois que eu li as palavras de despedida que você me escreveu, e deixou no vão da porta. Seu maldito jeito clássico de ser.

Clássico? Que clássico? Descobrir pelo Facebook, dois meses depois, que você já tinha outro não me soou vintage, retrô. Como aquela música... Desliguei o maldito do rádio. Percebi três coisas. Primeiro, eu nunca mais quero saber de você passeando pelos aparelhos de som da minha vida. A segunda era que eu estava atrasado pra prova. E a terceira, mais importante, era de que eu deixei queimar as torradas.  


IMAGEM: http://files.urucaramazonas.webnode.com.pt/200000296-3805438ff5/radio.jpg

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