terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Toda forma de amor

Que 2014 vai ser ano de Copa do Mundo, todos sabemos. Que 2014 vai ser ano de horário eleitoral obrigatório na TV, também. Que 2014 vai ter 365 dias, idem. Além disso, impossível prever o que vem a partir do primeiro dia, amanhã. Amanhã. E onde a brincadeira é adivinhar, me restrinjo a simplesmente desejar. O quê? Amor. Sim, amor, o maior dos clichês. Que 2014 seja um ano de reafirmação do nosso compromisso com o amor. De qualquer jeito.

Amor em forma de atenção, a quem quer que queira contar suas histórias.

Amor em forma de companhia, porque ninguém faz nada sozinho, já disseram muitos...

Amor em forma de dedicação, a todas as ideias, aos planos e aos projetos. Podem não ser muitos, mas que sejam bons.

Amor em forma de amizade, parceria, mão na roda, ombro amigo, “me empresta uma grana?”, “te levo pra casa”...

Amor em forma de torcida. Alviverde, alvirrubra, bicolor, tricolor, rubro-negra, verde e amarela.

Amor em forma de Camões, Fernando Pessoa, Luan Santana, Beyoncé, Caetano, Ivete, Machado, Caio Fernando, Felipe Cordeiro, Reginaldo Rossi, Julio Iglesias.

Amor em forma de família! Dar valor a ser filho, neto, pai, mãe, irmão, primo, tio, cachorro, gato, papagaio. Dar valor à nossa casa, ao nosso conforto.

Amor em forma de conhecimento. Que sejam muitos os porres de aprendizado, com direito a ressacas.

Amor em forma de diversão, por que não? Sim, porque sim! E nem precisa ser em uma grande festa. O sorriso pode brotar do nada em qualquer esquina ou canção.

Amor em forma de sexo! Com segurança, quantidade e, especialmente, com qualidade.

Amor também em forma de raiva! Gritar, brigar, discutir, ficar com raivinha, com ou sem motivos, faz parte. Nada de rugas, apenas limpeza periódica de estresses cotidianos.

Amor em forma de presentes, materiais ou não. Presentes, perto ou longe. Presentes, caros ou de graça.

Amor em forma de respeito, aquele que só merece receber quem souber dar.

Por fim, que cada um de nós considere (ou aprenda a considerar) justa toda forma de amor. Se formos por esse caminho, tá tudo certo. Vai dar tudo certo!




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Tempo



Acorda. Acorda cedo, bem cedo. Toma café apressado, quando toma. Parada. Ônibus. Lotado. Sobe, senta se tiver sorte, espera. Espera. Espera. Contempla a cidade da janelinha. Vê o mesmo de todo dia. Vê o sol. Sente o calor. Espera mais um pouco. Chega. Atrasado, mas chega. Como sempre, chega. Entra. Senta. Ouve. Fala. Lê. Compra textos. Decora textos. Finge que lê textos. Entende textos. Desiste dos textos. Olha em volta. Ri. Chora. Quer ir embora. Quer dizer coisas. Quer abraços. Quer distância. Não quer. Observa. Analisa. Tira conclusões. Acerta. Erra. Quer mais distância. Olha mais um pouco. Quer trabalho. Quer estágio. Estagia. Trabalha. Se arrepende. Não quer largar. Administra o tempo. Não consegue. Não tem jeito. Recebe ementas. Vê o futuro. Vê os trabalhos do futuro. Diz que vai dar tudo certo. Diz que vai ser o melhor de todos. Diz que vai pro Lattes. Diz que Expocom. Escolhe os parceiros. Entra em grupos. Conversa. Não quer desgaste. Acredita que não vai ser nada pessoal. Acredita nas amizades. Acredita que vai ser diferente. Mente pra si. Não vai ser diferente. Sofre. Discute. Xinga em pensamento. Critica. Se surpreende. Se decepciona. Se alegra. Confraterniza. Engole sapo. Suporta irresponsabilidade, descompromisso. Desleixa, de vez em quando. Se mata. Divide. Acumula. Espera que termine logo. Vê que deu certo.  Vê que acabou. Não, não acabou. Pisca. Recomeça. Rematricula. Reencontra. Compra outros textos. Se comporta do mesmo jeito. Mudam os mestres. Permanecem as companhias. Acredita que vai passar. Vai passar. Segue. Paralisa. Reúne. Encaminha. Enrola. Segue. Corre atrás do prejuízo. Pensa em TCC. Pensa mais no artigo da semana que vem. Esquece do TCC. Espera mais um pouco. Espera os conceitos. Espera o sono. Espera o ônibus. Espera na fila. Espera o fim. O fim chega. Chega! Comemora. Vai pra casa. Aproveita. Dorme. Dorme mesmo... Daqui a pouco, é hora de acordar mais uma vez.

Foto: Gustavo Ferreira


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Luz acesa

O último “bom dia”, a última sensação de chegada, o último apagar das luzes. Parece de repente, mas já se passou tanto tempo... O fim sempre vem com o pé na porta e nos faz pensar que toda uma vida foi uma semana. Foi bem mais, foi bem melhor. Quantas semanas couberam nesses dias todos de pressão, de divisão, de abdicação? Quantas horas couberam nesses dias de aprendizado, de vitórias, até mesmo nos fracassos?

Em quantas linhas caberia a experiência? Nós passamos por tantas nessa vida, algumas boas, outras não tanto. Nenhuma ruim, pois os sábios conseguem tirar das piores frutas os melhores sucos. Às vezes é difícil, mas sempre dá. Basta saber a hora certa de cada coisa. Prever? Quase impossível! A hora sempre vem. Se demorar, é só fazer a sua.

Essa é a minha hora. Às vezes, para saber o que há lá fora, é preciso sair. Levantar da cadeira e abrir a porta é ter dignidade de se permitir. Ora, somos tão jovens, como diz o poeta! E juventude, assim como o tempo, são muito relativos. Pode durar milênios ou acabar amanhã. Enquanto isso, os dias continuam sendo feitos de vinte e quatro breves horas. Queremos tanto e temos tão pouco. Chega a hora de escolher como fazer esse pouco virar tudo agora. Bem-vindo ao mundo dos adultos!

Vou, mas vou com uma mala transbordando de belas lembranças e laços de amizade. Vou, mas vou com a certeza de que fiz bonito, de que marquei a terra com talento. Feliz do homem que parte do campo deixando flores regadas e sementes de ouro. Delas nascerão, ou quem sabe renascerão, novas velhas sensações.

Então, ficam os dias e segue o carinho por esse tempo em que coube tanta coisa. Dizem que, ao sair, o último apaga a luz. Nesse caso, impossível. Sigo meu caminho deixando aquela luz bem acesa, para iluminar quem vem atrás na fila. Que brilhem! Que brilhemos!  



IMAGEM: http://universofeminino.blog.br/wp-content/uploads/2013/10/Porta-aberta.jpg

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Nós


Tem dias que a vida não ajuda. O acaso se torna aquele imprevisto desagradável, o destino vira a poça de lama que você não vê e onde você acaba afundando o pé calçado com o tênis novo, e o tempo, ah o tempo, esse resolve voar... Nesses dias, tudo vira um fone de ouvido dentro da mochila. Embaraça, enrola, vira um grande nó. Desde que haja a chance, haverá o erro, a falha, a derrota, o “não deu certo”.

É quando nada dá certo que, geralmente, as pessoas decidem buscar ajuda em deuses, entidades, religião. Os santos esperam sempre disponíveis para nós, mas como eles trabalham quando você está tendo trabalho em consertar as coisas, evitar ou até mesmo tentar se salvar do fracasso.

Aqui em Belém, as coisas não são bem assim.

Nesta terra, qualquer coisa parece se resolver com um bate-papo pai d’égua com a mãe lá de cima, aquela que todos respeitam, mesmo chamando pelo apelido, um diminutivo inversamente proporcional ao seu valor, que aumenta a cada dia. Agora então, que estamos em outubro, nosso dezembro vestido de fé e maniva, ela é o nosso refúgio, a nossa última chance – tom de súplica. Para nós, paraenses do segundo domingo, quando a vida resolve dar um nó, a gente faz o quê? Dá outro nó.

Este segundo a gente faz bem forte, na fita que empunhamos, colorida, ou nos pés da santinha, ou mesmo nas grades da Praça Santuário. A gente faz com toda força, querendo que ele se desate o mais rápido possível. Acreditamos que assim a gente se liberta da implicância do destino, que teima em nos deixar mufinos, mufinos.


Toda vez que nós fazemos esses nós, por mais confuso que a lingüística nos faça parecer, a intenção é sempre que eles sumam. Irônico? Estranho? Não em Belém do Pará, cuja padroeira não se cansa de marcar presença nem aos domingos, só para que a fita das nossas vidas flua lisa como o vento nas samaumeiras do CAN, como o som dos sinos da Basílica. Afinal de contas, por aqui, a força da Nazinha desata qualquer problema. De fitas, cordas e de nós ela entende muito bem. Amém!

Foto: Gustavo Ferreira



domingo, 11 de agosto de 2013

Quando chegar a minha vez...

Esse negócio de dia dos pais deixa a gente um tanto quanto pensadores. Lá vamos nós, filhos, comprar o presente sem saber direito o que dar, com medo de irritar o cara – sim, porque as mães sabem fingir bem quando ganham mais um porta-retratos florido. Na fila do caixa, que geralmente dura a eternidade de um jogo ruim de futebol, nós pensamos em mais coisas além de em quantas prestações parcelar a camisa.

E no meio dos devaneios, o dom da vidência. “Quando chegar a minha vez, eu vou querer o melhor dos presentes, pra compensar o tempo que passei em filas como essas de hoje!”.  Justo. Aliás, mais do que isso, é justo que eu queira ganhar muitos presentes, de aniversário, de natal, até mesmo de Páscoa. Vou trabalhar tanto, esse vai ser o mínimo.

Só que pensando mais um pouco, eu entendo porque eu penso assim. Afinal, somos o espelho de quem nos cria.  Fico imaginando que eu vou querer, depois de tanta labuta, o reconhecimento dos meus filhos, de quem eu sei que vou cobrar as melhores notas, os melhores valores, os melhores abraços. E, na boa, nem precisa ser um presente caro, sofisticado.

Bons presentes são momentos, ensinamentos. Quem me levou à escola pela primeira vez? Foi ele. Quem me levou ao estádio, e me deu a primeira camisa do meu time do coração? Foi ele. Quem me deu a primeira bicicleta? Foi ele. Quem me levou à primeira festa? Não, não foi ele, mas a surra que levei depois do primeiro porre sim.


São esses presentes, são essas lembranças, que eu quero ganhar daqui a alguns anos, quando for a minha vez. E não vai demorar. Eu quero chegar nos segundos sábados de agosto todo ano com as compras do almoço feitas, botar a cerveja pra gelar e dormir ensaiando a cara de surpresa do dia seguinte com os moleques me entregando as camisas e os pares de meia.  A surpresa pode até ser um pouco forçada, mas a alegria é genuína, com certeza. No final das contas, nenhum presente sai tão caro. 



quarta-feira, 17 de julho de 2013

Depois da ponte

Pegar a estrada, algumas vezes, pode significar bem mais do que uma simples viagem. Foi o que aconteceu comigo, dia desses. O roteiro dessa história poderia ser completamente diferente, visto que ele começou às quatro da madrugada, quando eu tive que acordar. “Tive que”, pois ninguém normal deve ser obrigado a estar de pé numa hora dessas. Fiz todo o ritual matinal, pus a mochila nas costas, entrei no carro e fui. E aí começou uma das sessões de nostalgia mais intensas da minha vida.

Pegando a Almirante, com o azul do céu ficando cada vez mais claro, a cada piscada, eu voltei alguns anos no tempo, para um tempo em que meus avós tinham mais disposição de me tirar de casa, rumo à praia. Sim, ir á praia. Estava indo a Mosqueiro. O Entroncamento sendo Entroncamento, a BR de nuvens brancas e céu limpo, os caminhões de carga, o vento na cara, secando a boca. Tudo com um gosto de passado, de infância.

Fronteiras sendo ultrapassadas. A barreira da PRF, imponente, que me fazia abaixar com medo de estar errado e estragar a viagem. A PA cheia de verde e velocidade. A ponte. A ponte, de onde eu vi o mundo barrento tantas vezes, com barquinhos navegando soltos, tão pequenos... O imenso banco de areia, onde eu já quis fincar uma mesa cheia de camarões e guaraná, e onde eu ainda quero jogar bola com meus amigos. A ponte que, sempre que aparecia, fazia nascer em mim um sorriso em forma de frase: estamos chegando!

Chegamos!

Chapéu Virado, Caramanchão, Farol... Palavras do meu dicionário mais tenro, mais juvenil. A gente vive com tanto pé no chão, no asfalto, que depois de algum tempo, até ver a areia faz tremer. As mesmas barracas, os bicicletas, o sol de logo cedo, com a mesma cor, o vento frio, e a tranquilidade que nem o paraíso deve ter. Bucólica, não à toa. O gosto da tapioca na 16 voltou, e como é diferente das que eu faço em casa. Tem gosto de férias de julho, de semanas sem aula, de coxa bronzeada pela metade por causa da bermuda, de costas vermelhas, e cheiro de protetor solar. Que delícia! Que saudade!

Lembra o que eu disse sobre a areia? Nenhuma no mundo é igual ao tapete bege do Farol. Areia fofa, que dói nos pés e fortalece a panturrilha. Areia que fica presa sob as unhas, do menino que fazia castelinhos, caía, rolava e chegava em casa fazendo um rastro de sujeira e diversão. Cada volta para casa era uma despedida, e sempre com hora marcada para o reencontro.


Já fui tantas vezes a Mosqueiro, que nem conto mais. A última vez fazia tempo, e foi inesquecível. Das anteriores, a mesma sensação. Fosse pra passar um mês inteiro, fosse para apenas curtir um sábado, nunca foi ruim estar lá. Tão perto e tão longe. As duas horas de viagem sempre serão menores do que os vários anos de lembranças escritas na Vila, no Murubira, no Paraíso. Paraíso que já teve dias melhores. Não se justifica sempre com bucolismo o descaso em algumas vias, nem o vazio de algumas praias. Não sou muito antigo, mas consegui pegar o bondinho e viver os últimos grandes anos da ilha. Que eles voltem logo. Que eu volte logo, para ver as melhores recordações da minha vida ali, depois daquela ponte.


IMAGEM: Carlos Macapuna


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Quem sabe

Talvez eu comece a gostar daquela banda que toca toda hora no rádio do carro. Talvez eu consiga tocar aquela guitarra que ganhei de aniversário, e que eu ainda não pendurei na parede. Talvez eu perca meus medos de altura, do escuro, do desconhecido. Talvez eu queira me aventurar em saltos de pára-quedas. Talvez eu aprenda a mexer naquele programa, ou aquele macete facinho do jogo que todos os meus amigos de infância zeraram mais de cinco vezes.

Posso ser o novo gênio da minha área, o criador, o inventor, o premiado. Posso não ser mais do que um dono-de-casa que faz o almoço de domingo pra família. Posso ter muitos bens, espalhados por aí, declarados ou não. Posso manter minha dignidade, até precisar de uma grana extra. Posso ser fiel às minhas convicções, às pessoas, a mim mesmo. Posso vencer. Posso perder. Posso ser o eliminado da semana, o funcionário do mês, o pai do ano.  

Quero mesmo ser pai. Quero ensinar o moleque a andar de bicicleta e jogar futebol. Quero ver o sorriso amoroso da minha filha, linda, ao dizer “papai” pela primeira vez. Quero ter essa sensação de posse, de família. Quero chegar cansado do trabalho e ter minha esposa pra deitar comigo na cama e dizer que o dia dela foi bom, e com quem eu possa dividir minhas angústias e alegrias, as contas do mês e a transa gostosa da noite. Quero me dividir.

Vai que eu me torno um fracassado, liso, sem grana nem pra sair da casa dos pais... Vai que eu consigo ganhar na loteria... Vai que o mundo sorri para mim, com sarcasmo, me apontando o caminho, só esperando pra eu me ferrar... Vai que meu trabalho é reconhecido... Vai que meu salário dobra... Vai que eu consigo um emprego... Vai que eu pulo de um prédio... Vai que eu escrevo um livro, aquele que eu quero há tanto tempo escrever...

Tomara que haja tempo para meus planos. Tomara que chova. Tomara que dê certo, e que eu possa aproveitar isso. Tomara que haja caminhos por onde eu possa seguir. Tomara que as possibilidades sejam muitas. Tomara que seja tranquilo. Tomara que tenha emoção. Tomara que seja na veia. Tomara que seja na alma. Tomara que seja sim.


Quem sabe eu aprenda a dançar. Quem sabe eu aprenda a cantar. Quem sabe eu aprenda a ler mãos, a lutar, a não desistir. Quem sabe eu aprendo a aprender. Quem sabe?


IMAGEM: Google Images

domingo, 12 de maio de 2013

É você


Se fosse um som, seria o som dos seus passos em minha direção, em qualquer ocasião. Se fosse uma imagem, seria o seu sorriso, cansado, meio amarelado, vítima do tempo, mas sempre verdadeiro. Se fosse um gesto, seria o seu abraço, aquele, que me envolve desde que eu era apenas projeto, apenas semente. O abraço que segura, que gruda, que nunca é forte demais.

Se fosse uma música, seria a canção de ninar que você cantava para mim, nas noites frias, onde eu, pequeno ainda, não conseguia fazer muito mais do que sorrir e agradecer. Se fosse um animal, seria uma leoa, que não hesita um minuto em defender sua prole. Uma verdadeira heroína, que abre mão do que tem para que eu possa ter.

Se fosse uma carta, seria aquela que eu lhe escrevi na quarta série, com bonequinhos felizes e uma frase: “Minha estrela é você”. Se fosse um astro, seria a minha estrela, até hoje e para sempre. Se fosse um livro, seria o que eu ainda vou escrever sobre você. Se fosse um motivo, seria a sua insistência para eu fazer vestibular para o curso que sempre quis. Deu certo. Se fosse um dia, seria o dia da minha aprovação. Se fosse uma noite, seria qualquer uma daquelas que eu passei em claro, estudando, e você ali, dizendo para eu ir logo dormir. 

Se fosse uma viagem, sem dúvida, seria a primeira, para aquela praia. Lembra do medo que eu tinha de entrar na água? Lembra também que, depois que eu entrei no mar, não queria mais sair? Como eu chorava! Se fosse um adjetivo, seria “paciente”.

E se fosse uma palavra? Seria “problema”. Como definir, em apenas um verbete, o sentimento de uma vida inteira? É gratidão, generosidade, abdicação, força, coragem, beleza, amor... Tudo junto, em um dicionário que só um filho entende. Se fosse a sorte do dia, mãe, seria essa: ser seu filho.




segunda-feira, 22 de abril de 2013

Bloco do eu sozinho


Que admirável esse mundo novo, cheio de possibilidades, que o passado nunca ousou prever, em seus dias mais criativos. Estamos todos conectados, como nunca estivemos. Gerenciamos empresas pelo notebook, compramos pelo tablet, fechamos contratos pelo celular. A notícia chega mais rápido, a arte se espalha como água em um labirinto de areia, e nós ali, navegadores em mares cada vez menos desconhecidos. O mundo cabe em um cartão de memória.

Alguém na Malásia pode saber mais da sua vida do que a sua mãe, do que você mesmo. Suas dúvidas, suas angústias, seus medos, viajam por uma via de fibra óptica, sem que ninguém veja ou perceba. O divã pode estar bem longe do paciente, ou pode nem existir. Pode ser uma cama king size, um banquinho, uma webcam.   As lágrimas são aspas, os sorrisos são parênteses, os sentimentos se reduziram a “emoticons”. O que antes apenas pontuava frases, hoje marca emoções.

Nesse mercado de sensações, o protesto ganha força, as manifestações culturais se inflam, os shows ganham plateia. Um desejo aqui, uma vontade parecida ali, e a onda se forma, caudalosa, pronta para engolir quem se jogar, e até quem não está a fim de se molhar. É fácil fazer barulho nas mídias sociais, basta que algumas andorinhas queiram fazer verão, que muitos verão o quanto um mouse tem poder, o quanto um upload pode mudar seu destino. Instinto coletivo.

A era do compartilhamento é clara, é a nossa. Mas com quem estamos compartilhando nossas vidas? Das mil pessoas que nos seguem no Twitter, dos dois mil amigos no Facebook, quantos nós realmente conhecemos? “Conhecer pessoas” ganhou outra definição. Olhar nos olhos perdeu importância, deu lugar à playlist em comum, às fotos postadas, às comunidades que o outro segue. O que define a personalidade de alguém não está no rosto, e sim na foto. Não está na grafia, e sim no chat. Não é mais a piada espontânea, é o “meme” compartilhado.

Engolimos tantas possibilidades de comunicação e aproximação virtual, que há o risco de esquecermos do presencial, do cheiro, do tato. Mesmo sem se conhecer, estamos no mesmo grupo, no mesmo time, conversamos sobre coisas parecidas. Que conversa é essa? Nem a videoconferência mais perfeita é capaz de reproduzir a espontaneidade da presença, do estar lá. Do estar junto.

O século 21 é o paraíso da tecnologia, mas parece que regrediu nas relações pessoais. Mas aquelas, de brincar junto na praça, de jogar bola na rua, de beijar na boca. Talvez o excesso de conexão esteja desconectando os humanos da realidade, da humanidade. Tiro pela culatra. Unir pessoas é unir mãos, pés, braços. Abraços. Abraços de verdade. Sem eles, estaremos prestes a viver uma sensação irreversível de vivermos em um lugar onde só o que teremos para compartilhar será a solidão.


IMAGENS: http://2.bp.blogspot.com/-AQM_dvLympk/TphmozU-MFI/AAAAAAAAAKg/ousyjaF43Cw/s1600/2-notes.jpg

domingo, 7 de abril de 2013

Testemunha


Eu vejo o amanhecer em Belém, o entardecer em Moscou, o anoitecer em Pretória. Eu vejo o caos do trânsito, o estrago das chuvas, uma praça revitalizada, a polícia nas ruas (ou não). Estou lá, quando nasce o mais novo herdeiro, quando morre o grande ídolo, quando gente vira deus, e vice versa.

Quando um morador reclama da falta d’água no seu bairro, eu estou ao lado. Se um morador quer agradecer à prefeitura pelo conserto do sistema de esgoto, também. Posso estar na reunião do G-8 e, num clique, cheguei ao protesto de operários na fábrica. Eu vejo greves, motins, rebeliões.

Também vejo caminhadas pacíficas, maratonas, procissões. Meus olhos se enchem de lágrimas, pela fé ou pela revolta. Os mesmos olhos registram o lançamento de uma sonda lunar e um parto de quadrigêmeos, cirurgia de risco, vitória da ciência. Eu acompanho a evolução da vida, e alguns momentos de regressão do homem.

Árvores derrubadas, CPIs instauradas. Vejo o circo pegar fogo, prédios e aviões também. Sou eu quem estou ali, enquanto vidas se perdem numa fatalidade. Também sou eu que estou ali, quando um assassino finalmente é preso e condenado. Quando não é, eu sei. A Justiça é cega. Eu não.

Quantas vezes eu presenciei a fumaça sistina! Quantos papas, quantos presidentes, quantos prêmios! Viajei atrás de monges, pastores e pilotos de Fórmula 1. Corri para ver o primeiro show da banda na cidade. Investiguei paradeiros, para não perder a briga de vizinhos ao vivo, a denúncia de abuso sexual, o gol anulado.

Eu, aqui e acolá, em recordes olímpicos e entrevistas coletivas. Eu, aqui e acolá, no anúncio da nova taxa de juros, do novo salário mínimo, do pacote de austeridade. Convocação da Seleção, os aprovados no vestibular, até mesmo algumas festinhas da firma. Em todas, eu estou. Eu também sou visto, bem ou mal. Às vezes, sou até mais visto do que a explosão ou o reencontro de mãe e filho após vinte anos.

Todo dia, eu vejo algo novo, algo a mais. Toda hora, estou por perto, registrando, entendendo, dividindo. Sou papel, sou VT, sou áudio e sou blog. Sou os olhos atentos do desatento, as palavras, o fato. Em qualquer lugar, se você me procurar, lá estou. Eu, eterna testemunha da história.




segunda-feira, 1 de abril de 2013

A Verdade - 3



Jornalista é o profissional mais bem pago do Brasil

Estudos recentemente divulgados pela School of Pesquisation and Analisation of Numbers and Professional Satisfaction of Massachussets – Ohio revelam que o jornalismo é a profissão mais bem paga no Brasil. O profissional da notícia recebe, em média, R$ 4 mil reais nos primeiros degraus da carreira, nos grandes centros do país, como Cuiabá e Porto Velho. Na lista, o segundo lugar ficou com os policiais militares do Rio de Janeiro, e o terceiro com os professores universitários.

Google Nose revoluciona a internet

Nesta segunda (01), foi lançada a mais nova plataforma do Google. Já pensou poder sentir o cheiro de uma lasanha enquanto lê a receita no site da Ana Maria Braga? Agora você pode, com o Google Nose [http://www.google.com/landing/nose/index.html]. Lá, o internauta pode conferir cheiros das ruas do mundo inteiro, com o Street Sense, além de poder baixar o aplicativo para Android, que permite identificar odores de qualquer ambiente.

Remo e Seleção Brasileira vão se enfrentar em amistoso, diz CBF

O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, confirmou na manhã de hoje um amistoso entre a Seleção Brasileira e o Clube do Remo. O jogo vai acontecer no próximo dia 31 de abril, no Mangueirão. A grande novidade está no preço dos ingressos: arquibancadas a R$ 5, cadeiras a R$ 20 e camarotes VIP a R$ 50. As vendas começam na próxima semana, nos estádios do Baenão, da Curuzú e do Souza.


sábado, 16 de março de 2013

Via de regra


O amor e o ódio, o queijo e a goiabada, a lama e o caos. Todo mundo e seus padrões, quanta burocracia! É como se as coisas, pré-dispostas no espaço e no tempo, não dessem trela pro acaso. É aquele menino que combina muito com aquela menina, e só som aquela menina. É a manga que não casa com leite, ou o brigadeiro que dá espinhas.

Sempre vestidos de obrigações, esses paradigmas escondem cada ordem, uma verdadeira tirania tácita, que se alimenta da complacência inocente, quase besta, que quem não se opõe e, quase sempre, faz das tripas coração para se adequar. O medo é das críticas, da maldita exclusão. Ninguém quer ficar só no canto, sofrendo com olhares de negação da maioria, só por não gostar de futebol. Nem todo paraense gosta de açaí, nem todo católico é praticante, nem todo homem é machista.

Clichês, frases feitas, feitas para encaixar milimetricamente em todas as situações. Ah, o amor é lindo, só o amor constrói, blá, blá, blá... Sem Queen no talo, nenhuma vitória é vitória plena. Sem lágrimas, nenhuma tristeza é legítima. Regidos por uma orquestra, não podemos desafinar. Ou devemos. Alguns padrões são bastante ambíguos: ou você gosta muito daquela bandinha teen, ou você deve criticá-la até a morte. Sem meio-termo.

Estar em cima do muro não quer dizer que não há opinião. Não sempre. Mas de nada interessa a opinião de uns, se essa não seguir a rua da opinião de todos? Aliás, as ruas são uma grande vitrine de erros e acertos, nos sentidos mais perecíveis das palavras. Experimenta sair de casa mal vestido! As cores berrantes que hoje brigam, e amanhã podem estampar capas da Vogue. Xadrez e listras ainda brigam. A trégua? Ninguém sabe.

Aliás, ninguém sabe até onde vai a certeza do dia. Mulher dona de casa já é coisa do passado, e mesmo assim ainda é presente como a tal tradição manda. Quem é o vilão da novela das nove? Quem disse que já se pode falar “merda” em horário nobre? Não faz diferença. A massa só precisa acompanhar.

Esse negócio de acompanhar, assinar, seguir, perseguir... A internet, em si, já virou um padrão, um modelo. Ou você se prende às mídias sociais, compartilhando frases do Caio Fernando Abreu – que poucos sabem, mas já morreu faz tempo – ou vai escrever um blog falando das besteiras que os outros postam.  

Daqui a pouco, vêm aí novos modelos de beleza, de amizade, de certo e errado. Tudo deixa de ser rápido demais, o ontem volta, o amanhã é incerto. Enquanto isso, a gente segue por aqui, nesse teatro, fingindo crítica, mas ainda escrevendo no computador da moda, ouvindo a mais pedida e comendo um Big Mac. Ou um sanduba natural. Sabe como é, cuidar da saúde tá na moda.


IMAGEM: http://4.bp.blogspot.com/-5mHoD2xOnu8/Tfe7H-HzXuI/AAAAAAAAAQE/RKJGLObWUNw/s1600/image%255B17%255D.jpg

quarta-feira, 6 de março de 2013

Você sabe que eu gosto de você


Já faz um bom tempo em que olhar pra você é um sofrimento. Na verdade, eu acho que nunca foi fácil te encarar, cruzar meu olhar com as duas pedras de esmeralda sob este óculos que sempre me intrigou. Deve ser bem caro, vejo pela marca. Sempre admirei seu rosto, fino, ornado com esse vidro que reflete uma sedução disfarçada, sempre camuflada por um quê de candura. Sempre admirei você, essa é a verdade. E você sabe muito bem disso.

Lembro da primeira vez que te vi, no Maternal. Corri pra carteira ao lado da sua, pra tentar fazer você me ver, e a gente conversar, e dividir lápis de cor. O dia passou e não trocamos uma palavra. Só você, que me deu um sorriso bem tímido, e nada mais. Quatro anos de idade, e meu coração nem era mais meu. Desde então, o que eu sinto não é segredo.

Você sabe que eu gosto de você, desde aquele dia de chuva no parquinho, quando eu te dei meu casaco pra você não gripar. Isso me valeu uma pneumonia e uma visita sua no hospital. Você sabe que eu gosto de você, desde quando eu cortei o cabelo bem curtinho, só porque ouvi você dizer que gosta de homens sem muita cabeleira. Faço isso até hoje. Você sabe que eu gosto de você, desde quando eu te vi com aquela minissaia vermelha, e caí da cadeira ao tentar te espiar. Valeu a pena.

As minhas namoradas? Todas sabiam, certeza. Os seus namorados? Espero que nunca descubram, mesmo que seja impossível esconder o olhar fundo e o sorriso gratuito que construo ao ouvir seu nome, ou sentir seu cheiro na sala. É, eu sinto seu perfume doce, entre o suave demais e o enjoativo demais. Eu vejo seu rosto por aí, seu corpo nas revistas de modelos. E você nem é tão bonita assim. Talvez seja por isso que eu me apeguei tanto.

Agora você vem, na cara de pau, me dizer que está namorando de novo. Desgraçada! Você faz questão de mostrar, de me mostrar. Vaidosa! Egoísta! Gostosa! Infeliz! Gostosa! Essas sardas te deixam ainda mais linda. E mesmo que ser patricinha exibida não te caiba, é clara a provocação. Você sabe que eu não consigo demonstrar alegria, mas precisa que eu diga “que bom pra vocês”, como se fosse verdade.

É mentira! Quando eu sorrio, quero é chorar de raiva por não ter teu perfume na minha cama tão fria e grande. Se meus olhos te fitam, na verdade eu não quero nem te ver passar. Mas vejo. Mas quero. Eu minto. Minto pra mim, sem pudor, sem vergonha de me trair a cada vez que digo não mais pensar em você. Eu sempre penso. Eu cresci pensando em você, com meu casaco na chuva, ou com aquela minissaia vermelha.

Você sabe que eu gosto de você, e eu gosto tanto, a ponto de reservar meia hora do meu dia escrevendo esse texto, que você nunca vai ler. Na linguagem de muitos, isso é amor. Sei lá, tanto faz. O que importa é que eu não quero descobrir. Você é meu abismo, onde eu quero me jogar, mas tenho medo de não viver o resto, o depois. Não sou frustrado, sou apenas um resignado, feliz com a ideia de gostar de você, mesmo aqui, só pra mim, só por nós. 


IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/-0KAdEJBokkg/TqCoqQbh3aI/AAAAAAAABEU/epYQmdvQ42c/s1600/tumblr_ljx5s30bIq1qce0mpo1_r1_500_large.jpg

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Juntos

Seja como for, nós sempre pensamos, criamos, vivemos e estamos cada vez mais juntos. É nesse espírito que hoje, 23 de fevereiro, o Etc comemora 4 anos. Sem o apoio e o incentivo de vocês, leitores, o blog não teria mais de 300 posts, e não chegaria onde está. Se o Etc está entrando no seu quinto ano de vida hoje, é culpa de todos nós. Muito obrigado a todos que fizeram e fazem essa história comigo.

Em especial, muito obrigado a todos que participaram deste vídeo, e provaram o que todos nós já sabemos:   NINGUÉM FAZ NADA SOZINHO! Fiquem com "Juntos" e continuem ajudando a construir o futuro.

*Você pode assistir o video em HD no Youtube. Vai lá!


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Workaholic


Aquelas férias ainda estão atrasadas. Faz tempo que eu troco minhas folgas por dinheiro para voltar de táxi pra casa, depois do trabalho. Trabalho. Sim, me chamam de louco, de doente, ganancioso, até de coisas piores. Eu gostaria de ter um adjetivo pronto pra mim, nesses casos, mas não tenho. Só o que eu faço é me perguntar: por que diabos eu gosto tanto de trabalhar?

Me sobra pouco tempo depois do expediente, às vezes, admito. Tenho uma esposa linda, que eu amo demais, e que eu sei que tem uma paciência gigantesca comigo, maior até do que o decote daquele vestido verde. Também não sou mais aquele cara ávido por novas tecnologias, do tipo que troca de celular a cada temporada, já não ligo. Basta um celular que faça e receba chamadas. Eu mudei, acho que cresci.

Hoje eu só penso em me dedicar, fazer e fazer bem feito. Talvez não seja um defeito tão grande assim, ser alguém que apenas gosta de trabalhar. Caramba, há tanta gente mais preocupada em se vestir bem, ou falar as palavras certas nas situações certas, esperando um retorno vantajoso. Eu mesmo conheço e convivo com figuras que não se importam com o que fazem, e sim com seus nomes brilhando em painéis luminosos.

E o que eu vejo de pessoas assim, que se dão bem desse jeito, não é brincadeira. Quantas vezes alguns colegas riram de mim, batendo ponto meia hora mais cedo, enquanto eu preparava o café do serão. Quantas vezes eu recebi ligações de puxa-sacos de férias, enquanto eu ainda estava tentando fechar o relatório da semana. Meu salário não aumenta, mas sabe o que me conforta? O deles também não. A diferença entre nós é simples: personalidade.

Ao contrário, eu conheço muita gente que rala, e gosta muito do que faz. Sabe o que elas têm? Além do eterno resfriado, uma vontade de aprender e um sorrisão de alegria pelo trabalho bem feito, que nem mesmo as olheiras e o ar acabado conseguem esconder. Quem disse que a felicidade está nas pequenas coisas deve reconhecer que, também, ela vem depois da linha de chegada de uma grande maratona. Ser feliz cansa, mas ô cansaço bom!

Acho que é essa a resposta pra minha pergunta, algumas linhas atrás. Eu gosto tanto de trabalhar porque assim eu me realizo em dois sentidos: me sinto útil e ainda ganho pra isso. Pouco, é verdade, mas ganho.



sábado, 2 de fevereiro de 2013

Fiel




Vou contar pra vocês uma história que começou há mais tempo do que parece. Era junho de 92, e nascia mais um daqueles garotos que diz que não sabe jogar futebol, mas joga sempre que pode, e quando pode, escolhe uma camisa azul celeste e branca. Coisas que nada explica. Quando esse garoto nasceu, a cidade vivia uma alegria em duas cores. Um clube do Estado era campeão brasileiro, estava na 1ª divisão, era o maior da região, com uma torcida que nunca coube no incompleto Mangueirão.

Então, esse garoto já estava no caminho certo, vitorioso, em tempos de glória do futebol da Amazônia. Ele estava certo. Fez uma escolha que não fez, o destino se encarregou, e foi feliz. Esse garoto foi muito feliz, ao crescer no momento certo, para entender o quanto uma paixão pode ser grande. O menino foi vendo títulos, títulos, acessos, mais títulos. O menino viu seu time ser campeão, o supremo, campeão dos campeões. O menino, de repente, se viu ali, torcendo pelo seu time na maior competição do continente.

Libertador. Vencedor. Histórico. Com lá seus onze anos, aquele jovem já sabia que havia um grande clube na Argentina, temido por todos os outros, principalmente por brasileiros. Mas ele também sabia que esse time não era o único bicho-papão do pedaço. Quem papou foi o time daqui, o mais forte e mais famoso.

Mas esse Papão foi se combalindo com o passar dos anos. A fase não era boa, e foi ficando pior. O rapaz também viu seu time fraquejar, perder, cair. Anos de fel, para uma torcida que não parava de crescer. Cresceu na derrota, na crítica, na indignação com os gols perdidos e com as contratações erradas. Cresceu nas piores circunstâncias. Cresceu a torcida mais fiel do Estado do Pará.

Aquele garoto de vinte anos atrás, hoje é um homem, que ainda veste azul e branco, mas critica, sabe que a situação não é tão boa, quanto a massa bicolor merece. O tempo passa, e pode passar o quanto for. A camisa virou pele, o azul e branco virou sangue. Aquele garoto vai sempre topar qualquer parada, e pintar o sete em telas azuis por aí. Porque o time pode não ser o melhor, mas a sua paixão foi feita sem defeito. 

#Paysandu99

IMAGEM: Uchoa Silva


sábado, 26 de janeiro de 2013

Antônimos




Homem é livro de capa dura e páginas de papel de seda. Mulher é embrulho de cetim envolvendo um supino. Homem é show do Scorpions. Mulher é disco do Prince. Homem é corpo sarado. Mulher é peito e bunda. Homem e Mangueirão lotado. Mulher é final de novela das oito. E vice-versa. Homem olha uma flor. Mulher vê uma flor. Homem fede à rua. Mulher é tirinha de stand de perfumaria. Homem é internet veloz. Mulher é carta que demora semanas. Homem é apresentação holográfica. Mulher é cartaz com papel crepon. Homem é tato, mulher é paladar. Homem é fogo. Mulher é gasolina. Homem é cerveja barata. Mulher é o vinho argentino. Homem é o prato feito. Mulher é a especialidade do chef. Homem é Portugal. Mulher é Espanha. Homem é dia. Mulher é noite. Homem brinca de médico. Mulher brinca de casinha. Homem é cachorro. Mulher é gata. Homem é assalto à mão armada. Mulher é sequestro de megaempresário. Homem tem certeza de que tem certezas. Mulher tem certeza de que tem dúvidas. Homem pensa que sabe. Mulher sabe que pensa. Homem é a briga na mesa do bar. Mulher é o rancor eterno. Homem xinga outro homem. Mulher elogia outra mulher. Amizade entre homens é pra vida toda. Amizade entre mulheres... Homem é exame de rotina. Mulher é check-up completo. Homem é blog. Mulher é Tumblr. Homem é matéria. Mulher é reportagem. Homem é “até mais”. Mulher é “seja bem-vinda”.  Homem é sexo com amor. Mulher é amor com sexo.  Homem é instinto. Mulher é intuição. Homem é comédia. Mulher é aventura. Homem não sabe viver sem mulher. Mulher não sabe viver sem homem... Mas não admite isso nunca. 



IMAGEM: http://elamundo.files.wordpress.com/2012/01/bonecos-de-banheiro.jpg

sábado, 19 de janeiro de 2013

Liguei o rádio



Terça-feira, o dia mais insignificante da semana. Não é estressante quanto a segunda, e ainda está distante demais da sexta. Não tem futebol na TV, nem uma balada legal. A terça-feira tem o pior defeito que um dia pode ter: é comum. Por isso, acordar é tão desmotivador. É como se aquele dia não valesse, não contasse na sua vida, mas você fosse obrigado a passar por ele. Toda semana. Lá fui eu, despertar do meu injusto sono dos justos. Levantei, escovei os dentes, fui à cozinha, e encontrei um rádio. Resolvi ligar. Por quê?

Não sei a estação, nem gosto muito desse veículo. Pra mim, o que não começa com “www” não interessa muito. O fato é que eu liguei aquele rádio, e estava tocando, para o meu azar, aquela música. Que clichê dizer isso, mas era a nossa música. Brega, mas nossa. Um momento marcante nas nossas vidas nunca tem uma canção realmente boa de BG.

Eu ouvi a nossa música, e lembrei, claro, de você. Mas de você naquela tarde, na casa da Rita. Era essa música que tocava quando eu te vi entrando naquela sala, coradinha de sol, com a marca do biquíni verde que te cobria o que tinhas de mais interessante. Sorte do sol.

Naquele dia, à noite, a gente ficou pela primeira vez. Essa música não tocou, ou tocou e eu nem percebi. Seus lábios eram bem mais interessantes. Então, eu comecei a passear no nosso passado, enquanto o café esfriava. Depois daquele beijo, a gente ainda se viu mais umas sete ou oito vezes, até admitirmos que era a hora de assumir que estávamos juntos. Éramos um casal.

Essa bendita música... Lembrei de quando nós assumimos o namoro. Alguns torceram o bico, mas a gente até achava legal. Nunca havia namorado, e já estreava nessa vida com uma mulher deliciosamente linda feito você. Meus 17 anos não poderiam ser mais animados. Que se dane o vestibular! Eu queria era viver você, aquelas noites em que a gente se pegava escondido embaixo da escada do colégio, aqueles dias em que você ainda me mandava cartas. Seu jeito clássico de ser.

Droga, lembrei das cartas! E daquela carta... Aquela, a última. Aquela, que me enganou direitinho. Você. Nem foram seis meses, estava tudo tão bem, como se algum desses deuses que vocês veneram estivesse armando contra mim. Só não precisava ser no meu aniversário, cassete! Meus amigos, colegas, inimigos, professores do primário, até mesmo meus pais, todos na minha festa.

Todos, menos você. Te ligava, e nada. Implorava sua presença, em pensamento, mas nada. Nem brigamos. Brigaríamos depois, depois que eu li as palavras de despedida que você me escreveu, e deixou no vão da porta. Seu maldito jeito clássico de ser.

Clássico? Que clássico? Descobrir pelo Facebook, dois meses depois, que você já tinha outro não me soou vintage, retrô. Como aquela música... Desliguei o maldito do rádio. Percebi três coisas. Primeiro, eu nunca mais quero saber de você passeando pelos aparelhos de som da minha vida. A segunda era que eu estava atrasado pra prova. E a terceira, mais importante, era de que eu deixei queimar as torradas.  


IMAGEM: http://files.urucaramazonas.webnode.com.pt/200000296-3805438ff5/radio.jpg

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Daqui pra frente...


É, não acabou. Bem que alguns queriam... Não foi dessa vez. Agora chega de falar em fim, pensar em fim, desejar o fim. Será que dá? Sempre me pergunto por que tanto fascínio com isso, por que essa necessidade de acabar com tudo. O mundo de algumas pessoas realmente acabou em dezembro, então chega de fim. O início é sempre mais bonito, é sempre perfeito. Redescobrir a gente e os outros. Ter e dar uma nova chance. Acho que era disso que falava a profecia. Vamos ver se dessa vez a gente consegue.
Thaís Siqueira, 22

Era o fim! Mas, não foi. Ledo engano, oras. Não que a falácia fosse nova, apenas houve quem acreditasse uma vez mais. Mas, e aí? "E agora, José?", já indagava Drummond. Agora é hora de apanhar as esperanças jogadas ao chão e seguir em frente. Afinal, os dados ainda estão a rolar, o tempo não parou. Ainda há um mar de sonhos a serem realizados, não há tempo a perder. Este ano (que não foi o derradeiro - amém!) acabou, mas ainda há muito a ser feito. E se não der tempo, relaxe.
Robson Heleno, 22

Olha, eu realmente acredito que o mundo vá acabar, então se você está lendo isso é porque ainda não aconteceu. (Ainda!) Bom, mas se o mundo não acabou, tá mais do que na hora de nos decidirmos, né? Sabermos o que a gente quer e tentar tirar esse sentimento de culpa do coração. A escolha entre o certo e o fácil é a mais clássica. Uma hora temos que decidir por qual caminho seguir. Espero que o nosso 2013 seja de mais certezas do que dúvidas e que o caminho trilhado seja aquele que vá nos fazer felizes muito mais do que a longo prazo.
Felipe Jaílson, 20

O mundo não acabou no dia 21. Aí, você se pergunta: o que fazer? Eu respondo: VAI TRANSAR, MALDITO! PARA DE PENSAR NESSAS TEORIAS LOUCAS... Mas é sério. Vai viver mais! Para de tuitar do banheiro, enquanto tu defecas. Para de tirar foto de comida e ficar postando pelo Instagram. Vai rir, namorar, ser feliz... Ah, e eu sei que tu usaste a cantada “Amor, vamos fazer amor porque o mundo vai acabar amanhã e podemos não ter mais chance”.
Carlos Fernando Pinheiro, 19

Égua, tédoido? Já tava comendo todas as jujubas que eu encontrava pela frente.  Apesar disso, eu ouso dizer que foi bom, olha. Vi muita gente fazendo coisas que não teria coragem de fazer. Nunca a vontade de aproveitar a vida, essa danadinha, superou o medo de tudo o que a gente conhece ter um fim definitivo. Digo definitivo, por que nem você nem eu estaríamos aqui pra lembrar das coisas que vivemos. Queria que todo dia fosse um fim de mundo. Quem sabe assim a gente pare com essa besteira de pensar que se privar de aproveitar a vida e omitir sentimentos resolva alguma coisa. 
Gabriela Amorim, 20

Trata de ser feliz e pronto! Saiba que fins de mundo acontecem todos os dias. Ora pra uns, ora pra sonhos. Entenda isso e use a seu favor. Nesse velho mundo que nos fica sempre se pode fazer algo de novo. Não fique aí de papinho com a preguiça e com aquele eterno depois eu faço. Faça agora, faça algo de bom, se não pros outros, pelo menos pra si. Faça mais pelo o que se quer. A hora é essa.
Rômulo Baía, 25

O mundo não acabou. E agora? Passe a limpo antigos textos. Conjugue esquecidos verbos. Redescubra antigos amores. Mantenha suas angústias. Renove seus desesperos. Viabilize seus sonhos. Confesse seus pecados. Respire outras vidas. Pratique seus medos. Abrace outros dons. O mundo não acabou. E agora? Prepare-se para o próximo fim. Ele está próximo!
Petterson Farias, 25
  
Nada de promessas ou grandes planos. Por enquanto. Agora que ganhamos mais um ano – se é que o perdemos em algum momento, é hora de aproveitar a estreia de Jurassic Park 3D. Não, pera. Não é bem isso. Brincadeiras à parte, o que desejo a mim em 2013, desejo a todos: serenidade, tranquilidade, paciência e persistência. Mesmo que tudo pareça tão difícil e impossível, que tenhamos tempo e disposição para lembrar e entender que tudo vai valer a pena, que todo o esforço será recompensado. No final, estaremos todos rindo. Feliz ano novo!
Mariana Almeida, 23




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Mais uma vez, o primeiro post do ano é especial e feito por amigos. O Etc agradece a participação de cada um dos colaboradores, parceiros na ideia de dizer o que vai ser daqui pra frente, já que os Maias erraram. 2013 está só começando.