domingo, 30 de dezembro de 2012

1ª pessoa



Sempre emprestei esse espaço a personagens, de vários estilos, com histórias diferentes. Fiz deste lugar um palco para a criação de traidores e traídos, vencedores e perdedores, fomentadores de esperança, crentes no amor, ou mesmo um qualquer do dia-a-dia. Hoje é diferente, é hora de eu ser eu mesmo, o escritor, que hoje se despe do eu lírico e usa as suas próprias palavras pra contar o que foi o ano que passou.

Passou rápido, acelerado, acelerou uma vida que se resumia a sonhos, projetos, futuro. O presente surgiu como oportunidades, presentes do destino e recompensas da obstinação. De 1º de janeiro até aqui, o currículo cresceu, a experiência aumentou, a vida mudou. Meu tempo passou a ser redividido, reorganizado, às vezes mal, admito. O certo era a convicção de que meu amanhã já era hoje.

Uma vaga, um teste, uma assessoria de comunicação institucional. Ali, a primeira entrevista. Ali, a primeira grande vitória como acadêmico. Ali, Ascom, a primeira grande escola. Prazos, demandas, responsabilidades, chefia. Vieram as entrevistas, as pautas, os contatos, as fontes, as matérias publicadas. O que, há pouco tempo, ainda era um objetivo breve, já era real, era rotina. Minha vida já estava cheia delas.

Estágio, aulas e um certo evento. Reuniões longas, desgastantes, criativas. Um mundo de estudantes desbravando, tropeçando e seguindo. Oito meses de muito trabalho, pouco namoro, nenhum retorno financeiro, pelo imenso prazer de chegar ao dia 5 de maio e dizer: “foi!”. Sair da plateia para o backstage não foi fácil, mas se tornou muito recompensador. Uma vitrine, um serviço, o retorno do público, o encantamento mútuo. Dessa cumbuca, saíram amigos, histórias, aprendizados. Nessa cumbuca, foi inesquecível fazer Muvuca.

Reviravoltas. Em pouco tempo, uma surpresa que muda o meu futuro a cada dia, desde então. A redação almejada, a oportunidade ainda distante, o estágio tão esperado, tudo antes do previsto, provando que as previsões nascem para não dar certo. Ainda bem! O caminho teve que ser desviado, ou finalmente eu tinha entrado na estrada certa. Entrei, cheguei, senti e sinto, até hoje, todas as tardes, que o sonho pode estar a poucos quarteirões, e que essa distância não é tão grande.

2012, o proclamado ano do fim, pra mim ainda reservava mais este começo, com as bênçãos de Nossa Senhora de Nazaré. O Círio nunca mais será o mesmo pra mim, que vi a santa de perto, e o céu mais perto ainda. As cenas que eu criava quando moleque estavam ali, com cores mais vívidas, tons quentes, como o sol de 14 de outubro, que queimou minha camisa de “imprensa” e encheu meu pequeno coração estagiário de orgulho, orgulho de fazer parte, de construir um pouco daquilo, que chamam “telejornalismo”.

Alegria demais, que não coube em mim, em Belém. As melhores lembranças deste ano que passou, certamente, passaram pelo Ceará. Verdes mares, onde construí histórias, conheci pessoas, encontrei o paraíso a cada acordar, em cada pôr do sol. Trouxe, na mala, bastante saudade, e mais do que isso. A bagagem veio carregada de novos conhecimentos, sobre teorias e pessoas, sobre o tempo e sobre amores. Cresci, cresci forte. Fortaleza.

Um ano é tempo bastante pra errar muito, e bastante pra tentar consertar. Na balança, venceram os acertos, as conquistas. Conquistas profissionais e pessoais, acima de tudo. Ao lado, amigos de verdade, pacientes, parceiros. No coração, um amor que acompanha, que enche de orgulho e que vai comigo muito longe, graças a Deus. Ele quer. Comigo, uma grande família, unida e ouriçada, mas sempre comigo.

2012 foi, no fim das contas, uma grande aula, teórica e prática, onde predominou o verbo “aprender”, e venceu a vontade de crescer. Se o mundo vai ser melhor daqui pra frente, que seja. O meu vai, e só depende de mim. Mais viagens, mais sucesso, mais amor, tudo sim, tudo mais, inclusive tempo. Esse, que passou voando. Muitos nem acreditavam em 2013. Eu não deixo de acreditar nem sequer no próximo minuto. A vida ensina, em 20 anos ou até menos, que nada não existe. O que existe são pessoas que não tentam.



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2012 indo embora, cheio de grandes lembranças e um futuro promissor pela frente. Que 2013 seja um ano de sorte, sucesso e paz, para todos vocês, leitores, seguidores e amigos do Etc. A gente se encontra no ano que vem, pra que possamos escrever novas histórias. 

FOTO: Gustavo Ferreira

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Noite feliz


Hoje, 24 de dezembro, é o dia que muitos esperam para dar e receber presentes, reunir a família, assistir a um filme infantil na TV, ligar para os amigos e até para os inimigos. É a tal da noite feliz, das canções de natal e dos comerciais de bancos. Como se as outras trezentas e tantas noites do ano não fossem capazes de ser especiais. Afinal de contas, o que é uma noite feliz?

É chegar de um dia cansativo de trabalho, com todos os problemas de um mundo que pesa nas suas costas, e encontrar uma família te esperando, com a janta na mesa e o simples fato de eles estarem ali, mais uma vez. É terminar o serviço com um leve sorriso de satisfação. Ultimamente, feliz é a noite em que se chega em casa.

Um encontro com os amigos, numa mesa de bar, às vezes vale mais do que qualquer ceia. Os sorrisos são mais espontâneos do que em muitas fotos com Papai Noel. As verdades da amizade são os registros mais fiéis de uma confraternização sem barra forçada. Os desejos vêm do coração. As bebidas até parecem mais gostosas.

Noite feliz pode ser um beijo da namorada, ao acordar, depois da transa. Pode ser a bronca do pai, quando batemos o carro. Pode ser um reencontro casual com alguém que fez parte da sua vida, depois de muitos anos de distância, com ou sem justificativa do destino. Feliz é o momento do perdão, ou mesmo da certeza de que não tem volta. Feliz é a hora da chegada ou da partida.

Felicidade, conceito relativo. Para alguns, se mede pelo preço do presente. Para outros, pela sinceridade do abraço. Sinônimo de satisfação ou de status, de natal ou carnaval. O que temos contra a felicidade, se dependemos de um ano inteiro de espera para que ela chegue, como um presente, uma fuga de quem não suporta o que lhe cerca e o que vê no espelho? Felicidade é presente de todo dia, é estado de espírito. Alguns entendem muito bem. Outros sentam e esperam o dia 24 de dezembro.

Pode ser de manhã, um fim de tarde, uma madrugada qualquer, em dezembro, março ou junho. Tendo ou não uma explicação, o sorriso pode nascer do nada, e as lágrimas alegres podem brotar do vento, do acaso. Depois de amanhã, a noite também pode ser iluminada com o brilho da sua árvore de natal e dos ornamentos da fachada. Mesmo sem lâmpadas, sem pompa e sem os salamaleques de uma festa social, a vida pode sim ser uma eterna noite feliz.


IMAGEM: http://www.jovensconectados.org.br/images/stories/natal_anjos.jpg

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Acerto


Bem que me avisaram pra acordar um pouco mais cedo hoje. Bem que me avisaram pra não beber tanto daquilo de nome estranho, que botaram no meu copo. Tenho culpa se o gosto era bom? Agora, o mundo vai acabar, e eu aqui, sem ter sequer tirado a calça rasgada do pijama. Bom, vamos aos trâmites. Hora de lavar a cara, esquecer de fazer a barba e correr. Dizem que hoje é o fim do mundo, e eu preciso chegar a tempo no tribunal.

É, inventaram um tal de “juízo final”, onde o povo é obrigado a prestar contas de tudo o que fez de bom, de ruim e de legal desde sua primeira lembrança. O brasileiro é obrigado a isso, bem como a votar e a sorrir pra turista, sambando como der. Pra variar, cheguei atrasado, e encontrei um monte de conhecidos na fila. Até tentei furar, mas eu achei melhor evitar novidades no interrogatório. Dizem que lá no céu tem amendoim à vontade.

Como eu vivi tanto! Foi o que eu pensei, quando encontrei cada figura do meu passado ali, esperando a hora de confessar tudo e sair com seu bilhete único rumo ao terminal. Seu Nestor, aquele porteiro desgraçado! Espero que ele tenha dito o quanto me roubou quando eu era criança, no dominó. Pobre moleque! Gente fina era a esposa dele, Dona Gina. Não merecia as piadinhas que eu fazia com seu nome, ela cozinhava tão bem.

Olha a Carla. Cresceu, hein! Bem maior do que no tempo em que a gente brincava de médico na cama dos pais dela. Será que ela ainda lembra que foi meu o primeiro beijo da vida dela? Será que foi mesmo? Enfim, não importa. O meu primeiro foi com ela, e meu orgulho nunca vai deixar ela saber. Meu orgulho e o tempo, na verdade. Aquela ali é a Dani. Espero que ela conte ao juiz que me traiu com o bombadão da turma. Pistoleira! Só porque o carro dele era conversível... Só porque ele tinha um carro. Mas tudo bem, a fila andou.

Andou mesmo. Minha vez de encarar minha própria ficha corrida. Confesso que nunca fui lá muito certinho, mas tirei o primário só com notas azuis. E boas. Até uma certa idade, a verdade é que eu era um chato. Nunca colei chiclete no cabelo da menina mais patricinha da sala, nem mijei na caneca da “tia”. Tudo mudou depois que eu vi o Carlinhos batendo num CDF da turma, só por ser maior – mais gordo e mais ruivo – e me ameaçar ser o próximo.

Os jurados me olhavam meio de lado, enquanto eu continuava a contar minha história. Falei do dia em que ajudei uma senhora cega a atravessar a rua, e quando eu não contei pra minha mãe que foi meu irmão quem quebrou a cristaleira. Era a hora de me encaminhar pro céu. Já eram quase cinco da tarde, ainda faltava bastante gente pra ser julgada ali. Então, o cansado juiz me declarou apto à salvação. Estava limpo. Hora de carregar a mochila, os seguranças terceirizados já me encaminham para a fila da documentação.

Chegando lá, a atendente, fina feito um rinoceronte que não recebia há dois meses e ainda tinha que pagar o colégio dos três filhos, viu minha identidade, meu RG, minha carteira de vacinação, estava tudo certo. Mas cadê as benditas fotos 3x4? Quinze pras seis, final de expediente, e eu não tenho as fotos na carteira. “Na hora do desespero, seja criativo”, já dizia papai. “Moça, acontece que eu fui assaltado, me levaram tudo nessa confusão de apocalipse, sabe? Mas eu prometo que consigo tudo o que falta em 72 horas, no máximo, e mando por e-mail. Posso passar?”. Passei. A Dani também. Pra quem ela prometeu dar, pra conseguir estar aqui?

Finalmente, hora de embarcar. Nave bonita, espaçosa, tem até ar condicionado. Espero ficar ao lado de alguma garota bem cheirosa, e não algum macho fedorento daqueles que subiam no mesmo ônibus que eu, quando voltava do colégio. Serviço de bordo? Mas que beleza! Ainda bem que os Maias acertaram. Só assim pra eu ganhar comida de graça... Pera, o que esses seguranças estão fazendo? Porque estão vindo em minha direção? Sair da nave? Por quê? Será que eles descobriram que eu roubei uma sacola de compras daquela velhinha cega que eu ajudei a atravessar? 


IMAGEM: http://www.aascj.org.br/home/wp-content/uploads/2012/08/juizo-final.jpg

sábado, 8 de dezembro de 2012

O bom




Hoje, numa daquelas rodas de amigos à beira da piscina, eu me dei conta de uma coisa que, honestamente, destruiu meu fim de semana. Estávamos todos ali, conversando, dizendo palavrões e bobagens, até que o assunto chegou nas loucuras que cada um cometeu na vida. Tentei me esconder, me enterrar, sumir dali, mas fiquei. Então, quando alguém me incluiu na conversa, eu tive que me defender com uma verdade amarga: “Não, eu sempre fui tranquilo”.

Nessa hora, e só nessa hora, eu consegui perceber o quanto a minha vida era tranquila demais, chata demais. Eu descobri quem eu sou, finalmente, e não foi legal. Descobri que toda a minha vida não passou de uma vida comum, burocrática, cheia de limites, regrinhas de conduta e medos. Ah, os medos!

Nem eu tinha noção de quantos eram. Não sei nadar, nem voar, muito menos andar por aí numa noite qualquer. Não tenho medo do novo, e sim medo do exótico, que pra mim é aquilo que eu não provaria sóbrio. Quantos porres eu posso contar que vivi? Aquela taça de champanhe não conta, aquilo não foi um porre, foi quase um coma. Nunca me embebedei de álcool, nem de experiências.

Nunca roubei bombons de loja nenhuma, nem meti meus dedos no bolo. Que tipo de pessoa eu sou? Quais são as minhas memórias? Será que alguém compraria a minha biografia? Será que eu mesmo compraria? De que vale ter sucesso na carreira se, ao olhar pra trás, eu vejo tudo em linha, separado em pastas e subdividido em tópicos? Esse é meu arquivo, um quase vazio, com os restos inacreditavelmente organizados.

Aqueles meus amigos já viveram cada coisa. Não, não sinto inveja, nem quero ser outra pessoa. Só me admiro com a minha inércia social. Sou mais um, não tenho destaque, nem expressão. Aquele que sobra na escolha dos times, aquele que tira 10 em matemática, mas não sai à noite com a turma. Sou bom, sou sim. Mas bom é média, é normalidade. Todo mundo é bom, até que situações provem o contrário. Cadê as minhas?

O que eu provei até hoje? Quem eu provei? Sou um quase-virgem de 23, que só transou com uma mulher na vida, porque ela é minha namorada. Sou um monogâmico falido em diversão, que não sabe acender fogo nenhum sozinho. Não fiquei com vinte na noite passada, nem ao menos saí de casa na noite passada.

Minha vontade não é a de mudar meu jeito. Parece contraditório, mas eu gosto de mim, eu me admiro e me respeito, eu sei o meu valor. Só queria que, de vez em quando, eu pudesse me mexer, tomar todas, curtir a vida adoidado. Não sei o que é isso. Ainda tenho tempo, vai que, na próxima reunião com os amigos, eu não precise me esconder, nem deles e nem de mim mesmo.

IMAGEM: http://dicas.guiamais.com.br/wp-content/uploads/2012/02/Organizando2.jpg