quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Outras ressacas


Dizem que ressaca dói, deixa o cara baqueado, sem vontade de nada. Dizem que ressaca moral dói mais ainda, tira o ânimo e a coragem até de sair de casa. Agora dizem que a pior ressaca é aquela pós-separação. Ih, meus amigos, que já passaram por isso, viviam me assustando, como que prevendo. “Você vai cair de cama, chorando, enquanto ela vai se divertir. Se prepara pra ver as fotos no Facebook”, entre outras palavras de consolo de amigos de verdade.

Ainda não sei se isso é verdade, até acordei bem, depois de ontem. O jantar foi indigesto, o último. Mas uma coisa eles acertaram: voltei um analfabeto. Dois anos de namoro, mais uns meses de insistência, outros dois de pura burocracia, e eu me vejo um completo ignorante. Voltei desaprendido, até mesmo burro. Esse negócio de amor deixa a gente meio lesado, e pior, sequelado.

Claro que eu fiquei triste com o desatar de um laço tão duradouro, mesmo frouxo há algum tempo. Porém, o que me tirou o sono foi esse arquivo velho dos meus tempos de solteiro. Faz tempo, tanto tempo, que eu desaprendi tantas coisas comuns sobre a vida, sobre garotas e esse mundo tão banal. Sim, preciso de uma cartilha, atualizada, da solidão colorida. Nem sei quais são os bares legais pra curtir e azarar... Acho que “azarar” ficou ultrapassado.

É disso que eu falo. Eu nem consigo me portar perante as mulheres soltas, sou um perdido na pista, nem consigo ter a cara de pau de outrora, na hora de pegar um telefone. Enferrujei sem envelhecer. Tenho amigos, eles vão me guiar, por essa redescoberta das noites boêmias dessa cidade, que ganhou cor nos últimos minutos. É estranho, sou estranho, mas vou me adaptar. Eu acho.

Vai ser bom. Sair sem dar satisfações, comer o que quiser, largar a toalha molhada no sofá, o rodízio de perfumes na minha cama... Acho que agora começo a enxergar, de fato, o que voltei a ser. Liberdade? Talvez sim. Talvez. Noites sem conversas longas ao telefone, mensagens frias, sem “eu te amo” ou outras frases melosas, feriados sem companhia, filmes e pipoca.

Será que era tão ruim assim? Será que eu quero mesmo me desacostumar com os rituais de um quase-noivado, um passado recente, ainda quente? Não sei. Ganhei a chance de viver minhas amizades sem limites de tempo, lugar e teor alcoólico, e perdi a encrenca de dar explicações no domingo à noite. Tenho a meu favor a juventude, mas contra mim há a experiência. Estou livre da liberdade que me prendia. E agora?

[...]

Tanto faz. Acabei de receber uma mensagem, um convite, churrasco na casa do Marcão, com a galera toda. Hora de levantar, viver o fim de semana e sentir o gosto de outras ressacas. 


IMAGEM: http://www.chivalryclub.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/11/ressaca-1.jpg

Um comentário:

Thaís disse...

Quem nunca teve uma ressaca dessas que atire a primeira garrafa de Orloff.