domingo, 11 de novembro de 2012

Do escritor



Vou me limitar a não lhe dar mais detalhes da minha vida. Sou cronista, e isso é o que importa neste momento. Sou cronista, gosto de escrever, analisar, opinar até, sobre temas do cotidiano, com apreço às atualidades, os chamados factuais. Minha carreira é relativamente longa, e eu gosto muito do que faço. Meus amigos também, a ponto de me sugerirem escrever um livro.

Da primeira vez em que ouvi esse pedido, refleti, mas não direi o que defini, apenas deixarei o leitor livre para adivinhações.

Há alguns anos, quando era jovem, disposto, cheio de empolgação e carente de bom senso, tentei por vezes iniciar uma história que rendesse quatrocentas páginas. Nunca passava da primeira, pois o fôlego se esvaía a altura do parágrafo doze. Às vezes, treze. Triste analogia da minha vida. Descobri que todo escritor, mesmo tentando se esconder atrás de suas palavras, acaba revelando de si mais do que imagina.

Como eu posso escrever um livro, se minha mente se limita a páginas? A minha vida não passa de tiros curtos, um seriado. Ligue a TV hoje, para me acompanhar, e não importa se acompanhou o episódio anterior. Eu não sigo uma linha, minha trajetória é ramificada, de um jeito que nem eu consigo esclarecer. Colcha de retalhos, que não me protege do frio da solidão perene, que nenhuma companhia temporária consegue aquecer o bastante.

Meus amigos vão ficando pelo caminho, transformam-se em marcas de um passado inesquecível. E eu acabo os esquecendo. Já sei que o difícil não é a conquista, e sim o cultivo, mas não acho forças para aprender. Amores? Meus melhores textos, com certeza. Tanto os de devoção, quanto os de desilusão, que dizem, rendem as frases mais eloquentes. Amores! Passados! Sempre assim, recortes. Grandes romances? Sou passageiro. Se eu ainda guardo em mim alguma em especial? Interessa, se não me interessa querer mais do que já tive?

Pingo minha presença ali, aqui, acolá, e assim vou deixando meu rastro leve, que o vento apaga com um sopro forte. Minha marca é meu nome que assina as crônicas, que ninguém mais lê. Nem eu mais as suporto, nem a ideia de que sou um alguém que nunca vai poder escrever sobre permanência. Não sei se me orgulho disso, ou repudio completamente. Por enquanto, eu prefiro ser um escritor de pequenos versos inteiros, a reproduzir a minha incompletude em centenas de páginas vazias.

Mesmo assim, meus amigos ainda insistem que eu escreva um livro. Quais amigos? Os de hoje, pois os de ontem eu não sei por onde andam.



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