sábado, 27 de outubro de 2012

Poderia dar certo...




Lá vem você de novo, enchendo meu saco, já tão cheio e maltratado pelos trotes da vida. Não tenho mais paciência pro mundo, muito menos pra você. Mas não me leva a mal, pequena. É pessoal, mas nem tão grave assim. Infortúnios, a gente encara mais de cem todo dia, mas sempre vale negociar. Com você não, e nem assim eu consigo me estressar. Tudo bem até aqui, mas eu gostaria de te dizer algumas coisas, ao invés de implorar aos berros nervosos que você saia da minha vida. Eu já sei que não adianta. Só me ouve, por favor, e depois você vai decidir se ainda vale a pena mendigar atenção nessa fonte, já seca faz tempo.

Você é linda, e sabe seduzir como ninguém. Esse teu jeitinho ninfeta, inocente com veneno escorrendo nos lábios, soube me laçar feito um touro brabo, sedento por carne nova. Você é linda, não mais do que isso. Pra mim, sexo é fundamental, mas não vale nada, se eu não puder desfrutar do teu corpo nu, coberto apenas com uma das minhas camisetas de banda, indo ao banheiro pra escovar os dentes.

Poderia dar certo, mas você é bem chatinha, sem ousadia, uma burra que não sabe usar as armas que tem pra fazer qualquer homem viciar em você. Tanto potencial pra nada. É simples demais, tímida demais, de menos demais. Nem teus olhos verde-água são capazes de te prender na vida de ninguém. Depois da transa, se vestiu com suas roupas e seu pudor, aquele que eu pensei ser parte da sua personagem, e apenas isso.

Poderia dar certo, mas seu papo é estranho. Eu, que nunca li demais, me perco nos teus discursos babacas emocionados sobre arte moderna, ou sobre o último filme do Woody Allen. Sou crianção, dos que assistem animações da Pixar só curtindo um baldão de pipoca com guaraná, e não comentando, a cada cinco minutos, quem foi Steve Jobs. Sinceramente, não acho que você vá ficar sozinha nesse universo, muito pelo contrário. Agora, com certeza, sua companhia não sou eu.

Poderia dar certo, se eu tivesse visto em você o que eu vi naquela loiraça, na noite seguinte, na mesma festa onde nos conhecemos. Entenda, eu não a conheci demais. A diferença entre vocês duas é que ela entendeu isso. Com você, aquelas duas semanas foram arrastadas. Não vem dizer que não percebeu, porque eu fiz o meu melhor pra que você notasse que aquela piadinha do padre não foi engraçada. Quer dizer, talvez você não tenha percebido mesmo.

Poderia dar certo, mas você é insistente, cega, se priva da verdade, pelo comodismo de se sentir querida. Meu amor, acorda um pouco, você é tão estudada, inteligente. Não deixa outros homens, nem qualquer outra pessoa, duvidar da tua lucidez. Relacionamento é reciprocidade, e se o primeiro momento não é recíproco, nem o segundo, não dá. Se nem o terceiro for, corra!

Ah, eu sei que poderia dar certo. Mas, simplesmente, a gente não combina. Eu poderia tentar, mas não quero. Você poderia entender, mas não quis. Acontece, não é maldade minha, nem somente ingenuidade sua. Simplesmente não rolou a química, aquela gíria adolescente, que faz sentido em qualquer idade. Não se culpe, pois eu não vou. Me odeie, me ignore até, mas me deixe seguir sozinho, até quando eu decidir que é a hora de abrir meu banheiro pra outra pessoa, que saia de lá com uma das minhas camisetas de banda.

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sábado, 20 de outubro de 2012

Eu acho


Tem gente por aí que gosta de dar opinião sobre tudo. É sobre a crise na Europa, é sobre a Seleção na Olimpíada, é sobre eleições. Até mesmo sobre a vida alheia. É um “eu acho” daqui, um “pode ser que” ali, um “com certeza é isso” acolá, e nessa brincadeira, muitos acabam confundindo o seu direito de pensar do direito de se proteger do outro. De tanto opinar, tem gente que se acha parte da vida do seu bode expiatório.

Na verdade, todos já fomos, somos e seremos comentaristas do espetáculo da realidade, um dia. Ao nascer, mesmo sem saber seu próprio nome, e às vezes sem ter nome, o indivíduo assina dois contratos: um lhe permite fechar suas janelas para que ninguém olhe o que acontece na sua cozinha, e outro que lhe obriga, sem forças, a abri-las. Qual vence no final?

Contradição, sim. Estamos expostos ao julgamento de todos, inclusive aos de nós mesmos, pelo simples fato de termos nascido. É o sistema, que não permite o absurdo da privacidade. É por isso que nos achamos seguros em dizer que fulano não ficou bem com aquele tênis verde-limão, ou que a Rita está indo longe demais na novela das nove. Só tem um detalhe: “exposição” não quer dizer “espaço”.

Qual é o direito que alguém, que às vezes nem conheço, acha que tem em me criticar? Ou em me elogiar? A mão-dupla da opinião pública é cruel. Quando elogia, tudo são flores, mesmo se vierem do monstro horrendo dos seus sonhos de criança. Quando xinga... Esse tal de ser humano, bicho vendido, facilmente dobrável aos aplausos da plateia. Só aos aplausos.

Comentaristas de coisa alguma nós encontramos em toda esquina, vestidos de uma propriedade imprópria e de um conhecimento tão ralo. Mas a empáfia não os deixa perceber que, na verdade, o máximo que conseguirão, além de falsos parceiros de opinião, são risadas de quem realmente sabe do que você não entende. Ter impressões de algo todos temos, o que não serve de aval para achar que são capazes de mudar alguma coisa.

Poucas opiniões realmente valem alguma coisa nesse lixão de bilhetinhos e pitacos. Aqueles que importam ficam, e isso só depende da sua filtragem. Nem precisa ser nenhuma personalidade midiática para ser vítima de tantos olhos e línguas nervosas, loucas para despejar achismos. Bom, pelo menos é o que eu acho.


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domingo, 14 de outubro de 2012

Feliz ano novo


Já posso ouvir os sinos batendo, as pessoas chegando do mundo afora, enchendo a minha sala, o clima mudando. Pisquei e o ano passou, voando, rápido como um filme acelerado, nem percebi. Hoje eu percebo o quanto eu vivi nesses últimos doze meses, e o tanto que andei. Andei até cansar, andei sem cansar. E hoje tá tudo diferente por aqui.

Na verdade, faz um tempo que o clima dessa terra vem mudando depressa. As pessoas lotam o comércio, os shopping centers, atrás de presentes e roupas novas, porque festas como essa não acontecem todo mês. É um mundo aqui dentro, que enfeita as casas, com cores e muitas luzes. Aliás, quanta luz! Andar por aqui é dar um respiro de alegria aos olhos, que se perdem em tanta profusão cromática. Cores, muitas, todas.

Nas praças, minilâmpadas já dão o tom. Na minha cozinha, mesa farta. É um daqueles dias em que o melhor lugar pra ficar é onde tem comida. Alimento para os olhos, para o corpo e para os ouvidos. Cânticos clássicos no rádio, e todos lembram de quando eram crianças e ouviam, cantarolando, os versos da canção. Exaltação.

Todos ali, em volta da sala, conversando sobre o tempo que passou ligeiro. Como ele cresceu! Tá namorando? Que saudade do meu sobrinho! Todos ali, esperando a hora chegar. Todos ali, numa contagem regressiva. Expectativa, ansiedade, gratidão. Já que o ano está pra acabar, é hora de parar um pouco, fechar os olhos, olhar pra trás e agradecer.

Pelas vitórias, pelas surpresas boas, por cada sim, até mesmo por cada não, muito obrigado. Pela chance de andar todos os dias, pela oportunidade de abraçar, de beijar quem eu amo, de fazer o que gosto, muito obrigado. Por um tempo de paz, por mais comida na mesa, por comida na mesa e dignidade na carteira. Por mais doze meses.

E esses fogos que já estouram no céu? E essa chuva de papel picado? São os sinos pequeninos de Belém batendo forte, bradando alto, chamando todos a comemorar. Desafetos que se abraçam, problemas que se resolvem. É hora de esperar o que virá, é hora de renovar a esperança, os pedidos, as desculpas, a gratidão. Amanhã é outro dia, outro tempo, outra história. Já é hora de esperar o próximo encontro.

Feliz ano novo.



FOTO: Gustavo Ferreira

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Outubros



O segundo domingo é dela, é domingo de Círio. O segundo domingo é domingo de encontros. Um encontro de um com outro, de grupos, de cores, de desejos e gratidões, tudo junto, misturado em ruas estreitas, onde cabem milhões. Nem a Física explica como dois milhões conseguem dividir o mesmo lugar no espaço. Nada é exato, enquanto é Círio. Apenas a certeza, quando a berlinda cruza nossos olhares, de que já é outubro.

É outubro quando as luzes se acendem, brilham multicoloridas, espalhadas por todo canto de Belém. Cores do açaí, do tucupi, do verde que a Amazônia ainda ostenta, um verde ainda forte, ainda nosso. Ainda. Um céu azul que espera, com nuvens brancas, levemente acinzentadas, o povo passar pra chuva cessar. Quando o arraial gira gira todas as cores, na roda gigante do tempo, que sempre volta ao décimo mês.

É outubro quando o cheiro da maniva cozida gruda nas paredes de toda casa, quando o pato é assado, quando a mesa se farta de alimento e de família. Todos ali, vendo a santinha passar da sacada, louvando e se unindo em oração, vivendo mais um almoço do Círio. Ou jantar, ou lanche, que seja. A maniçoba já está pronta.

É outubro quando não se fala em outra coisa por aí. Os cartazes estampam as portas, as janelas, convidam o mundo a entrar e passear conosco. Quando, em todas as rádios e TVs, a pauta do dia é Círio. Quando a ansiedade fica mais forte, pois o reencontro está cada vez mais próximo. É logo ali, é amanhã, é hoje!

É outubro também quando vemos, em cada oração, uma convocação. Em cada peregrinação, um chamado. Em cada missa, um sinal de que estamos com a casa arrumada, roupas novas e a mesma vontade de ver o mundo, por alguns minutos, embaçado por lágrimas que caem sem aviso, sem vergonha e sem limites. É outubro quando os cânticos ecoam, os hinos viram hits. É outubro quando prestamos conta do que vivemos, fizemos e deixamos de fazer. Quem disse que, em Belém, o ano termina em dezembro?

Aqui, é outubro em janeiro, março, junho, setembro. É outubro o ano todo. Acordar às 5, caminhar pelo dinheiro no fim do mês, empurrar a berlinda da família, enfrentar milhões no caminho, e mesmo assim, depois da procissão nossa de sempre, chegar em casa e sorrir, pedir e agradecer por ter vencido a corda do tempo. É outubro a cada vez que um pai abraça seus filhos, a cada sorriso sem motivos, a cada conquista. Nessa terra, meus amigos, é outubro todo dia.