sábado, 15 de setembro de 2012

Nuvem de chuva




Hoje o dia estava calmo, o céu estava azul, o sol brilhava todo cheio de si. Era como se a rotina, depois de muitos meses de recuperação, enclausurado naquele quarto gélido, voltasse a ser agradavelmente chata. Era a minha rotina. Meus pés estavam no chão, fincando meu corpo à realidade, como há muito desejei.

Ainda estava em recuperação, mas arrisquei. Saí correndo pelos corredores, desci e ganhei as ruas sem proteção, nem guarda-sol nem medo de insolação. Respirei o meu ar cheio de cidade, de carbono e barulho. Era tudo tranquilo, no meu ritmo mais esperado. Estava vivo. O baque foi forte, capotei em decepção, demorei a me recuperar. Para respirar, precisava de tubos de esperança alheia, soro de conselhos. Coma.

E hoje, logo hoje, quando achei que estava pleno, recuperado desse trauma que destroçou meu corpo e meu coração, lá vem ela. É, ela mesma, aquela infeliz que me fez feliz, me desgraçou e agora, como se tivesse o direito de viver no mesmo lugar que eu, aparece em minha frente. O sol não se fechou, mas minha cabeça se cobriu por uma nuvem, de chuva forte, e toda a minha fé se tornou água escorrida.

A mesma água, que embaçou minha visão, encharcou o para-brisas e me fez bater. Como ela se atreve a voltar? Como ela se atreve a fazer chover sobre mim novamente, como naquela noite doente? Estava recuperado, e agora volto a ter febre. Ela só passou, nem me olhou, mas infelizmente foi vista por mim. Infelizmente, foi amada por mim.

Não dá. Preciso voltar ao soro de conselhos, dos enfermeiros que chamo de amigos, de todo o aparato médico, do qual dependi nos últimos meses de solidão e negritude. Estava seco, agora me deparo com uma figura deplorável, no espelho da minha vida. Essa nuvem não podia passar agora. Não agora, enquanto ainda não estava convencido da minha cura. Nem me dei conta disso. Agora, sinto frio. Após a chuva, só resta o frio.

 IMAGEM: http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/2010/09/desenho-nuvem-chuva.jpg

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