segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Normalidade


Ela achava sua vida incrível, pessoal, muito sua. Ele achava tudo normal. Um par, dois amigos, namorados, quanto mais se amavam, menos tinham se amado. Era o segundo posterior que sempre valia mais que o anterior. Um ciclo, bola de neve, de algo tão bom, de fazer os olhos dos outros brilharem. De inveja, inclusive. Mas isso não vem ao caso.

Ela queria mais, sentia fome de algo mais, não cabia naquele quadrado arredondado chamado coração. Queria mais cabeça. Era mais razão, transpiração, contato, diversão. Caio era um rapaz sem arestas, cumpria seu papel com dignidade, sabia fazer Mariana feliz. Cozinhava bem, escrevia belas cartas, sabia tocar violão e era bom de cama. Mas ela queria mais, e isso não estava sob o controle de Caio. Ele continuava achando tudo normal.

E nessa brincadeira do tempo e da febre, Mariana conheceu outros rapazes, mas nunca pôde prever que aconteceria: ela acabou se apaixonando por um deles. O que era apenas sexo casual se tornou o maior dos pesadelos de sua vida. Ela se sentia confusa, com medo, acuada. Como dividir suas atenções com dois homens tão diferentes? E como se afastar do amante, se ele era tão bom? Como encerrar um namoro de um ano por algo que nem ela sabia ao certo definir. Caio nem imaginava, e seguia sendo Caio. Ele ainda achava tudo normal.

Peso. Só aumentava o peso da tristeza nas costas de Mariana. Tanta vontade resultou na falta de plenitude. Não era completamente entregue à nova paixão, nem era inteiramente namorada. Dividida, mas não em duas. Eram cacos. O abatimento já era notório, e Caio não achava mais tudo tão normal. Ela buscava forças, coragem, para enfrentar o que era mais forte do que seus pudores: seus desejos. Caio não a merecia mais, era um sujeito limpo, ao contrário de Mariana. Então, ela fez sua escolha.

Mesmo assim, demorou para que chegasse o dia para Mariana. Ela estava pronta, decidida a ser honesta com um homem que lhe dedicava tamanho amor e cuidado. Até choveu, pra ficar mais traumático e clichê. Então, chegando ao apartamento dos dois, pensando que sairia aliviada, mesmo destruída, encontrou um grande vazio. Não, não tentei ser eloquente ou poético. O lugar estava mesmo vazio. Sem os quadros, sem televisão, sem roupas e joias. Nada. Nada além de um bilhete:

“Sabe, Mariana, eu não queria que fosse assim. Éramos tão amigos, e faltou o principal de uma amizade: franqueza. Faz uns meses que eu percebi que você estava diferente, e resolvi tentar achar o motivo, pra te ajudar. Acabei descobrindo tudo. Uma pena. Não vale a pena contar o quanto sofri, mas eu preciso te dizer que tive sorte de conhecer alguém melhor que você. Fomos embora, e duvido que você consiga nos achar. Na verdade, duvido que você queira isso, até porque sua vida deve estar perfeita. E você achando tudo normal”.


IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/_vbb8UHOcmW4/TDdrWF4nOhI/AAAAAAAADn4/y2ZyOgU1nao/s1600/otto_grun_sala3.jpg

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