sábado, 22 de setembro de 2012

Cinco tequilas



É sábado, o dia oficial do “foda-se o mundo, que eu quero me divertir”. A noite em que cada um vai atrás de ar, depois de uma semana recheada de chefes escrotos, professores que pensam que você é robô, namoradas choronas e família que te cobra o mundo. É a noite onde cada gota de álcool é benta, perdoada pelo Papa e por qualquer outra santidade, a não ser as mais puritanas. Quem é puro em um sábado à noite?

A corrida pela mesa, aquela em que caibam todos os seus amigos e suas respectivas vontades de viver intensamente aquela noite. A corrida pelo garçom, que pira tentando matar a sede e a fome de tantos outros jovens como nós, desejando como nós, se divertindo como nós. O lugar tá cheio, a música é boa, e as companhias fazem valer cada minuto. Mas a noite ainda não começou. Não enquanto o teor alcoólico for zero.

Peço o cardápio, mas nem ligo pros pratos. Os copos me apetecem mais. Eis que vejo ela, minha linda, meu amor. Levanto e vou ao balcão, e obviamente não vou só. A galera da gelada fica na mesa, e eu guio uns cinco ou seis até a primeira tequila da noite. Apenas a primeira. Arriba, abajo, al centro e adentro! Não gosto de limão, mas nem ligo. Se o mundo começa a rodar? Ainda não. Na próxima, com certeza.

O sal nem faz diferença, é mais cabalístico, mítico, ritual. Com a segunda em mãos, ainda consigo enxergar meus amigos. O riso vem fácil, e a voz começa a ficar mais alta. Não só a voz. É como se ali, aos poucos, a gente começasse a se libertar do sufoco de toda segunda, terça, quarta... É como se ali, quase na terceira, a raiva que guardamos daquele patrão filho da mãe fosse canalizado em interjeições de alegria, gritadas cada vez mais fortes, mais eloquentes. UHU!

Voltar à mesa? Difícil. A galera continua lá, rindo, e interagindo com a gente, mesmo um pouco longe. Estamos bem longe na verdade. A mão cheira à limonada, e a garrafa já está quase no fim. Que se dane! Hoje é sábado, dia oficial do “foda-se alguma coisa”, esqueci. Se esqueci, to bem demais. Era isso o que eu queria. A cabeça gira, mas as lembranças da semana desgraçada que tive já foram. Desce a quarta. Desce, ou sobe, sei lá, não importa. Bora beber mais essa!

Incrível como eu sou expansivo. Olha eu, fazendo amizades na beira do bar, com quem nunca vi. Mas de ti eu lembro, és a menina comportadinha da turma, que mal fala e agora tá quase tirando a blusa. Que delícia, hein! Queria que todas aquelas gostosas do estágio fossem assim, mas sem tequila. São umas entojadas, insuportáveis, chatas pra cassete. Vem cá, Cris. Cris? Opa, foi mal. Vem, Dani! Mas não vale vomitar em mim, que o dia é meu de botar toda coisa ruim pra fora.

Ei, garçom, traz mais uma, porra! Tem gente aqui que não se garantiu e voltou pra mesa. Fracos! Fracos pra caralho! Tô nem aí, eu quero mais uma. Arriba! Abajo! Arrajo! [...] Caralho! Essa foi foda! Quase não volto, doido. Ei, EI, VEM AQUI, PORRA! Vem que ainda tem uma garrafa inteira pra gente, porra. Sacanagem de vocês. Hoje é sábado, merda.

Quer saber? Eu vou aí pra essa mesa, rir dessa vidinha patética de vocês. Se eu dormir, é porque vocês são muito chatos, cara. Me levem pra casa, mas só me acordem na terça. Odeio as segundas. 

IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/-BOGbFISJ5kM/Tp9-6QgwFUI/AAAAAAAAAM8/qwjHQNbKzLU/s1600/porre.jpg

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