quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Morena

Ah, Morena, eu tentei te avisar. Eu juro que, todas as vezes em que nossas últimas brigas começaram, eu tentei te dizer o quanto elas seriam equivocadas, prevendo o fim de cada uma, prevendo o fim de tudo isso. Sempre assim, o mesmo motivo, que nem eu nem nós poderíamos explicar. Ele está aí, na sua cabeça, sempre esteve. Como um prego, martelado por alguém que deveria estar ao meu lado. Não podemos mais.

Não sei mesmo se isso foi armado por alguma amiga sua, que nunca gostou de mim. Talvez a Lurdinha, mas eu não vou acusar ninguém. A culpa não foi dela. Talvez você sempre desejasse enxergar o que enxergava em mim, mesmo eu nunca abrindo espaço para fantasias, muito menos desse tipo. Caímos em uma armadilha do acaso, e dela nunca mais sairemos inteiros.

Por quê? Morena, por quê? Quais eram os sinais da minha infidelidade, sinais que só os seus olhos insistiam em ver em mim? Quais gestos te incomodavam? Quem era o bode expiatório?  Nunca consegui entender você. Era medo do meu passado? Insegurança com o futuro? Podia ser tudo isso, mas você fazia questão de mascarar esses anseios em ciúmes, suspeitas infundadas em, não sei, proteção exacerbada, talvez? Posse? Mas eu já era seu. Não precisava me prender para isso.

Nossas brigas, todas pelo mesmo motivo, me cortavam nos últimos meses de nosso romance. Não era assim no começo, amor. Nunca foi, mas a rua era seu pior inimigo. A rua, o tempo, seus fantasmas de uma relação mal sucedida. Eu estava ali para você, para ajudar você, ouvir você e dar a segurança de um homem apaixonado. Era assim no começo, você lembra. Mas não podia ser apenas seu, precisava viver os lados de fora do nosso apartamento. Pessoas comuns fazem isso.

Talvez esse tenha sido o erro: eu achar que era comum. Nunca abandonei você, Morena. Nunca. Eu ligava regularmente, mandava flores, era todo seu na cama, te fazia dormir, me fazia sonhar. Hoje eu choro, e você ainda não enxerga o motivo. Hoje eu choro, pois perdi a mulher da minha vida. Perdi para ela mesma. Você me perdeu, Morena.

Por muito tempo eu engoli, aceitei, tentei te entender, mas não achava motivos. Nem você. Eu nunca menti. Se hoje vou embora, pode ter certeza de que eu fiz o que pude para ficar. Fiquei, ouvi, suportei. Ainda te amo, Morena, mas não consigo suportar a dor da desconfiança, que aos poucos você foi depositando em mim. Se, um dia, a gente voltar a ser dois, torço para ser diferente. Senão, busque a felicidade no seu novo amor, e não o veja com olhos julgadores. Olhe para ele com olhos de verdade.



de Elvis Presley
por Elvis Presley


IMAGEM: http://affordablehousinginstitute.org/blogs/us/wp-content/uploads/suspicious_toes-300x224.jpg

2 comentários:

Antonio Anderson disse...

Tô vendo que não sou o único de coração partido por aqui...

Ânimo, cara. É preciso sonhar com dias melhores, mesmo tendo os pés no chão!

Gustavo Ferreira disse...

Mas meu coração tá inteiraço, amigão! É só ficção, texto inspirado na canção do Elvis. =D

Abraço.