domingo, 12 de agosto de 2012

Herói de carne e osso



Quando nós somos crianças, fantasiamos o mundo. As cores eram mais fortes e entorpecentes, como nenhuma droga contemporânea é. Os prédios eram mais altos, o céu estava mais longe, e sempre havia alguém que nos botava perto dele, com a facilidade e a leveza de um voo. A cada vez que nossos pais nos jogavam pro alto, era uma nuvem que nós sentíamos mais de perto.

Aquele que nos ensinava e nos inspirava, a sermos heróis de alguém, com força o bastante para elevar aos céus uma pessoa ou um sonho. O nosso sonho de sermos os mais fortes, os mais valentes, como eles eram. Ilusão? Deixa estar. O mundo de uma criança é um eterno filme de ação, onde alguém deve salvar a cidade e a sua vida de ameaças cruéis. O protagonista é sempre ele. O pássaro, o avião, o super-homem das nossas pequenas histórias.

Ensina a andar de bicicleta, e assim, vamos mais longe, mesmo com os joelhos ralados. Nos mostra como é sagrado chutar uma bola. Assim seguimos, querendo ser que nem eles, gigantes. Crescemos, porém, descobrimos, feliz e infelizmente, que todo esse tamanho diminuiu, foi ficando no caminho e se tornou realidade. Que aço, que nada! Nossos heróis são feitos de carne e osso.

Sim, eles se machucam. Sentem dor de cabeça, dor de dente, dor de barriga. Reclamam da grana apertada no fim do mês, suam pra conseguir a dignidade de uma vida confortável, lutam pelo direito de sonhar. Há dias em que ele não quer jogar bola com você, por cansaço. Eles se cansam. Sentir o peso de um mundo, chamado “família”, é puxado, é demais.

Sim, eles também machucam. Como pode o meu pai me dizer não? Pode, e às vezes deve. Ele grita, ele se aborrece, e até nos amedronta. Castigo. Perdão. Um herói que faz mal, sem querer magoar. Ninguém disse que ensinar seria fácil. Não é. A nossa vida, em formação constante e eterna, depende disso, por mais que nos assuste. Tem seus vícios, nos faz chorar, erra, tropeça, mas quem não erra? Ele é nosso espelho, completamente.

Mesmo assim, e talvez por isso, vendo a vida com clareza e sem tantos floreios juvenis, nós, filhos, consigamos enxergar o quanto aqueles heróis de anos atrás são gigantes. A cada dia, a cada suspiro cansado de fim de expediente, ele chega e, ali, nos abraça. Mesmo quando nem nos toca, ele está ali, perguntando como foi o nosso dia. Ele se importa. Mais com a gente do que com ele mesmo.

Um herói que se divide em dois ou mais, e consegue forças e disposição para nos sorrir e dizer “eu te amo”, mesmo se as contas não baterem, ou se o Mengão foi mal na rodada. Um herói que traz o céu pra nós, onde quer que ele esteja. É isso que um lutador faz, quando não luta apenas por ele. Pode ser feito de carne, osso ou aço. Pode ser alto, baixo, gordo ou magro. Se fica bem de capa ou não, pouco importa. Aqui, na cabeça de um filho, ele sempre será mais que um pai. Ele sempre será o meu herói. 



IMAGEM: http://www.cosacnaify.com.br/noticias/imagens/papai-ilustra3.jpg


Um comentário:

Antonio Anderson disse...

Ficou ótimo o novo layout do seu blog, garoto!

Adorei a antológica reflexão da presença paterna, lembrei tanto do meu, apesar dele nem ter sido a visão clichê de pai, mas sem dúvida foi muito importante em minha vida!

Grande abraço e feliz dia dos pais!