segunda-feira, 16 de julho de 2012

Um joão




Mãe, me desculpa se eu não lavei a louça. Se eu não escovei os dentes, se eu molhei todo o chão do banheiro, se eu larguei minha cueca suja no box. É que eu sou homem, mãe! Eu não nasci pra esse negócio de responsabilidade. Ah, desculpa se eu não comi tudo no jantar. Quiabo é ruim demais. Prefiro batata-frita. E com muito refrigerante. Ih, caramba, esqueci de comprar o refrigerante no supermercado. Me perdoa!

Professor, me desculpa, mas eu esqueci do artigo. Era pra hoje? Não, acho que não, professor. O senhor nem explicou o trabalho direito, né, pessoal? Ninguém anotou nada. Tá, mas agora só na semana que vem. Temos que ter tempo pra terminar tudo com calma, professor. Sim, nós já tivemos quatro meses pra fazer esse artigo, mas uma apresentação mal feita pode destruir tudo, me perdoa!

Oi, amor! É, me desculpa por chegar a essa hora, mas teve festinha surpresa na casa do Cadu. É, o Cadu foi eleito o Funcionário do Mês lá na firma, e a gente preparou um churrasco na casa do Dantas. Amor, me perdoa. Eu não sabia, foi tudo na hora. A gente fez uma coleta pra comprar a carne e a cerveja... Bebi, bebi, amor, mas foi pouquinho. Juro, amor! Tá, me perdoa, eu prometi parar. Amor, eu já pedi desculpas. Amor, vem cá... Amor!

Regiane? Olha, eu não posso falar alto, minha mulher tá na cozinha e... Para de gritar, Regiane! Eu sei que disse que te ligaria, me desculpa, mas o dia foi cheio demais. Trabalhei até tarde, e depois ainda tive que  levar minha mulher pra jantar. Um saco. Me desculpa, viu, gostosa? Amanhã a gente pode se encontrar, naquele mesmo quarto, que tal? Pra gente fazer as pazes... Regiane? Regiane? Para de gritar, Regiane!

Mãe? Mãe, eu não posso atender agora, to no serviço. Eu sei, eu esqueci de novo de levar o Marquinhos pra lhe visitar, me desculpa, tá? Eu passo aí nesse fim de semana, com a família toda. Tudo bem, eu prometo que não vou rir da cara da vovó, nem bater no moleque na sua frente. Mãe, eu to trabalhando, a senhora tá me atrapalhando agora... Não, não, mãe, eu não gritei com a senhora. Para, mãe, não precisa chorar... Mãe, me perdoa. Eu te amo! Me perdoa. Até lavei aquela louça, que eu odeio. 

IMAGEM: http://colheradacultural.tempsite.ws/images/20090918003654.000/640x480.jpeg

4 comentários:

Newton Corrêa disse...

Fatos do cotidiano kkkkk

Thaís disse...

Que perfeito!

Antonio Anderson disse...

Cara, ao passo que consegues ter uma subjetividade fora de sério, também consegues aprofundar o assunto de uma maneira objetiva e reflexiva.
Meus parabéns!
Já estou seguindo o seu blog. Até breve!!!

Amanda Campelo disse...

Texto gostoso de ler pelo fato de ter lembrado dos uns e outros João que conheço.