terça-feira, 31 de julho de 2012

Canção de plástico

Tudo aqui é assim, nesta cidade com cheiro de plástico, gosto de plástico, pessoas de plástico. Irreal, talvez por isso mais assustador. Mais um dia com um sol, que mais parece uma lâmpada muito forte, iluminando um cenário planejado por grandes artistas modernos. As árvores estão ali, como que soldadas, em um chão plano, enfeitado com paralelepípedos de ilusão.

Uma selva de borracha, papel e sangue falso. Que sangue? O óleo de máquinas pensantes e programadas escorre pelos olhos, enganando lágrimas e fingindo mal. Homens abandonados à sorte de sobreviver de passado. Um dia, tudo isso foi diferente. Ninguém aproveitou. Nos sobraram casas sustentadas em mentira e areia.

Clausura. Prisão. Dói saber que o aperto de mãos não será firme, que o abraço será gelado, e que o coração não passa de um balão de ar. Pessoas que não existem, futuro que não surge, inércia. Estamos acorrentados pela falta de bom senso, a grandes pedaços de matéria petroquímica, sem escolhas. Somos androides, bonecos, brinquedos de nós mesmos. Pena que nunca aprendemos a brincar.

Preços, preços, taxas, preços, dinheiro, poder. Saber quem é? Não. Basta parecer que é. Vista-se com seu manto de coragem, encha o rosto de maquiagem e sinceridade. Vá às ruas! Seja! Essa é a regra, nesta terra. Amor é utopia, sentimento é exagero. Artificialidade instantânea, tempo que voa. Mentes paradas. Não há sonhos, apenas restos.

Quero fugir! As cores desta cidade encantam, são fortes, brilham com a voltagem de uma mente vazia. Quero fugir! Nenhum sorriso me atrai, nenhuma palavra consegue me dar realidade. Sou um projeto, querendo ser verdade. Aqui não é o meu lugar. É como semear vida em um chão infértil, de plástico. Meu coração não é de plástico, como as árvores falsas daquela canção.



de Radiohead
por Radiohead




Imagem: http://talecoisa.blog.terra.com.br/files/2010/08/arvores-de-plastico1.png

2 comentários:

Thaís disse...

Esse é o nosso mundo.

Amanda Campelo disse...

Li o comentário da Thais e comecei a cantar "o que é demais nunca é o bastante" (8) xD
Ótimo texto, Gus ^^