terça-feira, 19 de junho de 2012

Sem olhar a quem


Cinco da tarde. Quinta-feira. Avenida Castelo Branco. Trânsito lento, complicado, um emaranhado de carros, ônibus e impaciência. Todas as criações resolveram se encontrar na mesma faixa de terra. Inclusive o sol morno, que cozinha o belenense, todo fim de tarde. De repente, lá longe, ouve-se uma sirene. Ela fica mais forte, eloqüente. Ali dentro, alguém precisando de tempo e de espaço, que dependem um do outro.

Se não criar asas, a ambulância não passa. Mas, de repente, a buzina do motorista do ônibus ao lado começa a ecoar mais forte ainda, e ele manobra sua máquina para o lado. Os companheiros de asfalto entendem a mensagem e, em segundos, abrem o mar negro da avenida e deixam a ambulância singrar o caminho rumo a uma possível salvação. Ali, na coreografia de veículos, como que ensaiada, uma vida pode ter ganhado uma segunda chance.

Não quero apenas contar mais um pequeno excerto do meu cotidiano, e sim enxergar o que aqueles motoristas fizeram. Algo tão simples, que faz pensar se ainda temos cura. Nós, sociedade fria, do “eu, eu mesmo e mais ninguém”, uma raça egoísta, auto-suficiente. Pior! Uma raça burra, porque não há homem nesse mundo que consiga viver sem uma mão estendida.

Mas até que ponto estender as mãos é apenas bondade? Tudo o que fazemos tem um interesse como gasolina da máquina. A questão é saber quais são eles, e se esse combustível não é adulterado, com ganância, falsidade, desejo de vingança, etc, etc, etc...

É tão fácil encontrarmos por aí pessoas movidas a dinheiro, poder, jóias, agrados, que não fazem além daquilo pelo qual elas recebem. Estanques, não se movem para ajudar alguém, se não há cifrões brilhando sobre suas cabeças. Querem mais, querem mais, e até conseguem. Porém, suas vidas devem parar por aí. Vai saber! Quantos desses abririam espaço para aquela ambulância passar, se atrás não vinha um carro forte, pagando um cachê pelo serviço prestado?

Era apenas solidariedade. Apenas isso. Dar sem receber, ajudar, abrir caminho, sem precisar ver os olhos de quem passou por ele. Apenas isso. Filantropia? Conversa fiada? Raridade? Pode ser, pode não. Mas quantas vidas poderiam ter uma segunda chance, ou terceira, ou quarta, se mais motoristas como aqueles da Castelo resolvessem se mexer? Deve ser esse o escape do deserto gelado da humanidade. Se existir. 


IMAGEM: http://4.bp.blogspot.com/-C7AMpVfj74w/TVlCtBr8dBI/AAAAAAAAAaA/Z31fk0pToa0/s1600/161524congestionamentoraimundo_pacco.jpg

Um comentário:

Renan Mendes disse...

Que sejamos exceções.