sábado, 30 de junho de 2012

Intervalos



Mais um daqueles dias em que eu acordo como se estivesse me salvando de um afogamento. Susto! Olhos arregalados! Respiração ofegante! Um mergulho profundo em algum universo qualquer, bem diferente da crueza dessa realidade chata. Tudo aqui é tão palpável, tão certo e irritantemente real. Talvez seja essa a minha alergia, a minha aversão: a realidade. Nada pode ser mais tenebroso do que as amarras que me prendem aqui, nesse chão sofrido, cuspido, tão árido quanto o meu quarto solitário. Minha vida. É uma ansiedade por mais, um mais que nunca chega... Até que eu resolvo deitar minha cabeça no travesseiro, e embarco no cruzeiro dos meus sonhos. O mar é meu, desenhado pela minha imaginação, certamente formando figuras que eu nem sei se existem. Isso não importa. Elas estão ali, no meu devaneio. Feliz eu sou ao encontrar comigo mesmo, com eles, com elas, com “istos e “aquilos”, tudo o que eu preciso pra não pirar nessa maldita realidade. Durante o dia, eu consigo parar uns minutos e viajar em mim, mas nada se compara às melhores voltas do relógio do meu tempo. Muitos dizem que vivem enquanto estão de pé, com luz nos olhos e rotina na agenda. Eu não. Pra mim, o intervalo entre acordar e dormir não vale mais do que aquele entre dormir e acordar.

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segunda-feira, 25 de junho de 2012

1+1




Uma conta curta, pura, a mais simples matemática: 1+1. Quanto é? Será mesmo tão simples assim responder a esta equação doce aos nossos olhos? Qualquer um diria 2, é óbvio, as operações chegam a este denominador. Uma soma besta. Não a um apaixonado. Ah, um apaixonado viaja nas ilusões de algarismos, filosofa sobre os sentidos inexistentes do prosaico e se arrisca, em nome da beleza do amor! Um apaixonado contestaria a lógica dos números, sucumbindo à lógica piegas da paixão: 1+1=1.

É aí que mora o perigo. Talvez o que eu diga aqui lhe provoque reflexões sobre sua vida, sobre seus sentimentos e, na pior das hipóteses, lhe deixe solteiro, meu caro leitor. Mas é inevitável parar e pensar até que ponto esta máxima do relacionamento é digna de créditos. O que é um relacionamento? Uma união de corpos e corações, que batem juntos por um mesmo sentimento sublime, ou a união de duas pessoas, onde cada uma traz seus sonhos e ideais para dentro do mesmo quarto?

Ninguém pode ser o outro, é físico, impossível. Quando você diz que, somado ao outro, você vira um, é o mesmo que dizer que você virou meio, e meia pessoa é igual a zero. Identidades, personalidades, tudo isso vem no pacote, junto com o sexo bom e os suspiros da paixão, o brilho no olhar e blá blá blá. Se restringir a sacrifícios pelo casal é normal, até necessário às vezes, agora abrir mão da individualidade é sacramentar o fim. Quem consegue respirar com um travesseiro sobre seu rosto? Se 1+1 fosse 1, a outra pessoa se transformaria, fatalmente, no travesseiro. E o pior: não seria assassinato; seria suicídio.

Nesta equação, uma constante deve ser levada em consideração com muita, mas muita atenção: espaço. Cada um tem o seu, nenhum casamento de 50 anos desfaz essa regra biológica do ser humano. Os objetivos nunca são os mesmos para os dois: sempre é o meu objetivo, agora com ela dentro, e vice versa. Não é egoísmo, é necessidade. Aquilo de “quero estar sempre ao seu lado” é verdadeiro, mas irritantemente metafórico. Hoje eu quero dormir até tarde, não acordar cedo pra te ver. Desleixo? Incompreensão? Falta de amor? Não, é apenas sono.

O amor pode ser uma loucura, e que seja, mas nunca um relacionamento pode fugir da razão. Assim vira bagunça. O que deveria ser um só vira milhares, de dúvidas e incertezas, de medos e fracassos, e a insegurança vence. Estar junto e se entregar sempre, isso vale. É apenas uma questão de reserva, de guardar o que é essencialmente individual, e isso não é problema para nenhum casal. Estar dentro de alguém, isso também vale... Nos cartões de 12 de junho.

Parece seco, frio, racional demais. Eu chamaria de praticidade. Conto de fadas são belos, mas não reais. Tabuadas sim, essas são mais simples do que imaginamos. A matemática comprova, o amor contesta, mas a verdade é uma só: 1+1=2. No fim de todas as contas, a operação vale mais que o resultado. 


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terça-feira, 19 de junho de 2012

Sem olhar a quem


Cinco da tarde. Quinta-feira. Avenida Castelo Branco. Trânsito lento, complicado, um emaranhado de carros, ônibus e impaciência. Todas as criações resolveram se encontrar na mesma faixa de terra. Inclusive o sol morno, que cozinha o belenense, todo fim de tarde. De repente, lá longe, ouve-se uma sirene. Ela fica mais forte, eloqüente. Ali dentro, alguém precisando de tempo e de espaço, que dependem um do outro.

Se não criar asas, a ambulância não passa. Mas, de repente, a buzina do motorista do ônibus ao lado começa a ecoar mais forte ainda, e ele manobra sua máquina para o lado. Os companheiros de asfalto entendem a mensagem e, em segundos, abrem o mar negro da avenida e deixam a ambulância singrar o caminho rumo a uma possível salvação. Ali, na coreografia de veículos, como que ensaiada, uma vida pode ter ganhado uma segunda chance.

Não quero apenas contar mais um pequeno excerto do meu cotidiano, e sim enxergar o que aqueles motoristas fizeram. Algo tão simples, que faz pensar se ainda temos cura. Nós, sociedade fria, do “eu, eu mesmo e mais ninguém”, uma raça egoísta, auto-suficiente. Pior! Uma raça burra, porque não há homem nesse mundo que consiga viver sem uma mão estendida.

Mas até que ponto estender as mãos é apenas bondade? Tudo o que fazemos tem um interesse como gasolina da máquina. A questão é saber quais são eles, e se esse combustível não é adulterado, com ganância, falsidade, desejo de vingança, etc, etc, etc...

É tão fácil encontrarmos por aí pessoas movidas a dinheiro, poder, jóias, agrados, que não fazem além daquilo pelo qual elas recebem. Estanques, não se movem para ajudar alguém, se não há cifrões brilhando sobre suas cabeças. Querem mais, querem mais, e até conseguem. Porém, suas vidas devem parar por aí. Vai saber! Quantos desses abririam espaço para aquela ambulância passar, se atrás não vinha um carro forte, pagando um cachê pelo serviço prestado?

Era apenas solidariedade. Apenas isso. Dar sem receber, ajudar, abrir caminho, sem precisar ver os olhos de quem passou por ele. Apenas isso. Filantropia? Conversa fiada? Raridade? Pode ser, pode não. Mas quantas vidas poderiam ter uma segunda chance, ou terceira, ou quarta, se mais motoristas como aqueles da Castelo resolvessem se mexer? Deve ser esse o escape do deserto gelado da humanidade. Se existir. 


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terça-feira, 12 de junho de 2012

Nhó




As metades da laranja, os dois lados da moeda, o iaiá e o ioiô, como são lindos! O amor é lindo. Ah, este sentimento que faz os corações baterem acelerados a cada olhar, as pernas tremerem a cada encontro, e floresce nos corações apaixonados, como belas margaridas fluorescentes. É luz, é som. Melodia divina, celestial, perfeita como as mais belas curvas das nuvens no céu.

O amor rejuvenesce. Imune ao tempo, resiste ao vento, às estações e ressurge, sempre mais forte, a cada novo dia. Dias que passam depressa, quando se está ao lado de quem a gente ama. Veloz, não pouco intenso. Um segundo juntos vira um dia, e é por isso que um minuto longe se transforma em eternidade.

Quem vive sem? O calor do dia chuvoso, a brisa no verão, a água no deserto. Oásis de paixão, sopro de vida em toda rotina. Quando eles estão juntos, é como se as cores do mundo se concentrassem sobre eles, o ponto luminoso em meio a um resto que não importa. Nada mais faz diferença, além daquele cercado íntimo, dos dois e de ninguém mais.

Dois que se bastam, dois que não olham para outros lados, dois que se enxergam no futuro. Eternos namorados, independente do estado civil. Cumplicidade, verdade, nada de segredos. Não há o que esconder, na transparência de uma relação tão bonita e sem limites. Dois em um.

Que lindo o encontro dos corpos! A consumação de um romance em carne e suor, beijos quentes, abraços com tesão. Os deuses abençoam esse momento sublime, cheio de amor e intensidade, como se não houvesse amanhã. Vermelho! Vontade de não pensar em mais nada, além deles mesmos, quando as paredes os isolam do mal e da tristeza. Alegria, alegria!

Sabe aquele sorriso sem motivo, que nasce no rosto sem hora marcada? E aquela vertigem do “falso” abraço amigo, quando se quer mais? Meus amigos, essa é a magia, esse é o segredo da vida. O universo se explica em cada beijo apaixonado, em cada declaração, em cada olhar imerso em emoção, em cada momento da vida. O amor é lindo. O amor é besta! 


sexta-feira, 8 de junho de 2012

E nós fazemos humor



Uns gostam muito, vivem a vida mais abertos a qualquer absurdo, contanto que tire suas gargalhadas do dia. Outros, mais certinhos, criticam a qualidade e preferem morrer frios a enrugar a pele do rosto. Dicotomia. Isso é o humor, a cerveja gelada da sociedade brasileira, cansada de tanto labutar e que precisa espairecer no fim da tarde.

Muitos não sabem beber, preferem negar antes de sentir o cheiro. É um risco: garantir a integridade mental pela privação da alegria instantânea. O humor é instantâneo, paliativo, um paracetamol da vida. Dor de cabeça? Toma uma pílula e passa por hoje. Nada que te obrigue a repensar no sentido da existência humana ou na cotação do real, o humor não precisa ser ideológico. Basta fazer rir e pronto.

Basta? Fazer rir pode ser o início, o fim ou o meio. Coisa séria. Talvez seja a caricatura a forma mais legítima e libertadora de exorcizar toda e qualquer pedra no sapato, qualquer irritação, qualquer dor de dente. Sacanear um presidente, mas não por sacanear apenas. Isso é vazio, isso é o paliativo. Brincar com a verdade pode ser mais sutil do que um monte de palavras cuspidas na televisão. Raiva não atinge, agora tenta ser sarcástico...

Assim como muitos não sabem beber, muitos bebem até demais. Exagero, barra forçada, que limites? Pra ser engraçado, não precisa ser babaca. Inteligência, estratégia, tempo, vergonha na cara e bastante autoconfiança, tudo isso é requisito de todo bom humorista. Podemos rir de qualquer tropeção na rua, isso é fácil. Agora conseguir conquistar milhões de seguidores com bordões criativos e diálogos bem construídos, ah, isso não se acha na farmácia.

Dia desses, dois mestres nos deixaram uma grande lição: Millôr e Chico nos ensinaram que banalidades não precisam ser tratadas como tal, para serem engraçadas. A vida em si já é uma tragicomédia, mas poucos conseguem traduzi-la ao extremo do bom gosto. Qualquer um pode deixar sua plateia de espelhos feliz, aplaudindo seu talento. Basta saber fazer.

Censura? Nunca. Quem pode parar quem? Deixa ser assim, deixa ser. Profissionalismo não presume qualidade, e vice versa. Humor amador não existe. Cara de pau, destreza, coragem, todos têm guardadas. Liberdade de expressão. Liberdade de pensamento. Liberdade de escolha. Não gostou desse texto? Passa pra outro. Não foi com a cara desse rapaz? Fecha os olhos. Os incomodados que se mudem, já que agradar a todos deve ser um saco. Que tal brincar de ser feliz?

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domingo, 3 de junho de 2012

Vinte


Três. Reis magos, patetas, Libertadores, tigres tristes. Um nome, três sílabas.

Junho. Pula fogueira, Iaiá! Santo Antônio, casamenteiro, namoradeiro. Dia dos casais, mês geminiano, início de tudo.

Branco. Cor das páginas seguintes. Pele. Bullying. Apelido. Marca.

Choro. Ao nascer, ao crescer, ao vencer. Uma queda, joelho ralado. Uma ascensão, cabeça raspada.

Leitura. Palavras ordenadas, que bagunçam a cabeça e se delineiam em textos. Horizonte, quem sabe?

Teimosia. Sabe quando a criança insiste nas notícias, enquanto o mundo inteiro procura animação?

Sonho. Eis um pequeno convicto. No começo, encantamento, fascínio. Depois, mais conhecimento, realidade. Mais fascinante ainda.

Jornalismo. Tatuagem, a cores, RGB. Não cabe em um monitor apenas, precisa ser do mundo. A serviço do mundo. Carreira, desejo, caminho, futuro.

Comida. Como sentir prazer sem sexo? Eis a resposta. Uma boa lasanha pode desbancar um orgasmo. Não, não pode... Mas ajuda a enganar.

Estudos. Dedicação, desde o tempo das notas azuis. Sem dinheiro, qual é o outro caminho? Com vontade, qual seria a outra consequência?

Universidade. Duas, uma. Lugar onde os meninos crescem, os alunos viram estudantes, os trabalhos de sala viram superproduções. Produção!

Blog. Hobby ou obra da vida? “Diarinho de menina” ou portifólio? Pequeno espaço ou grande vitrine? Definições a gosto.

Comunicação. Vida. Simples assim: imaginem alguém sem coração, um time sem torcida, sua mãe sem beijinho na testa, antes de dormir. Isso é o mundo dos que nada ouvem, nada veem, nada falam e o que é pior: nada pensam.

Família. Substantivo autoexplicativo.

Amizade. Segunda família. A casa na árvore, o videogame do vizinho, aquela escada da igreja, no primeiro beijo. Aquele abraço.

Amor. É prosa. Sexo, poesia. Se há maior demonstração de cuidado, e ela tem um nome... Amor de verdade não se nomeia, além da convenção mundial das quatro letras.

Trabalho. Não precisa ser castigo, além da epistemologia. Pode ser bom, quando o ambiente é cheio de sorrisos em forma de gente.

Diversão. Sorrisos em forma de gente, de músicas, de corpos, de letras. Solução pra mim!

Gratidão. O que separa o joio do trigo. O que fica, o que resta, por baixo de tantas roupas e poses. Muito obrigado!

Futuro. Aquilo que eu tô começando a escrever agora...


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