quarta-feira, 30 de maio de 2012

A um velho amigo




Olá, meu caro amigo!

Faz tanto tempo desde nossa última carta. Ou será que foi um encontro na pracinha? Confesso que senti receio ao lhe enviar esta cara, por medo de errar o endereço. Minha memória não me ajuda tanto assim. O fato é que precisava escrever estas palavras, pois sinto saudade. A propósito, deixe-me falar sobre ela, que tanto me incomoda.

Incomodar é pouco. Saudade dói. E dói tanto mais quanto a descoberta de fatos passados, tão belos, incríveis e reais. Redescobrindo, revirando este baú, eu caio no chão e busco soluções, explicações, ou apenas que o tempo volte atrás. O tempo, esse menino malvado, moleque levado, que brinca com a gente feliz, e quando a gente começa a se divertir, se esvai por entre nossos dedos, sujos de terra.

Eu era menino, você também, meu amigo. Chegamos a prometer nunca crescer, para não deixarmos de correr pela rua, jogar bola e caber no balanço da pracinha. Lembra da pracinha? Todos nós, brilhando como estrelas novas, olhando para o alto, após tanto suar, tentando ler as nuvens, sem ligar para o futuro. Ele chegou, e nem sequer pediu licença.

Cada um de nós seguiu a sua nuvem, afinal de contas, os desenhos eram diferentes. Nossos rostos foram cansando, nossa pele, enrugando, nossos assuntos sumindo. Tenho tanto medo de não conseguir mais olhar para você, como eu olhava há anos atrás. Apenas olhar, sem ver o brilho da infância, que um dia era comum entre nós.

Onde foi parar o viço da nossa juventude? Onde foi parar a força da nossa amizade? Será que foi mesmo o tempo que levou? Distância? O que aconteceu? Olha onde estamos! Sem saber ao certo o endereço um do outro, nem quantos filhos o outro tem. O que aconteceu com aquelas duas crianças inocentes, vívidas, que sonhavam tanto e, hoje, tropeçam em tanta realidade?

Eu me pergunto, sem respostas. Estou cada vez mais vazio. Vazio de juventude. Minha esposa e meus dois filhos são o amor da minha vida, não me arrependo de escolher quem escolhi, muito menos de ter feito essa escolha. Mas, confesso, sinto falta de lama nos pés, de travinhas, de chuva no rosto, grama, vento, vida.

Eu sinto falta do meu velho amigo. Quero que ele seja velho não em idade, mas em parceria. Ah, meu irmão, o tempo passou e pode nos massacrar, mas sempre estas palavras, esta folha de papel ou qualquer pensamento, algo vai sustentar essa amizade. Algo vai sustentar nossas vidas, que ficaram lá atrás, quando ainda éramos apenas sonho.

Mas agora me diz, meu grande amigo: como vai você?

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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ter e possuir


Noite dessas, eu estava pensando. Era uma besteira sem tamanho, sabe? Besteira mesmo, que só alguém bem inseguro poderia levar a sério, uma coisa tão pequena, inacreditável até. Pois é, eu estava pensando. Fui dormir pensando “vai passar, só preciso de uma boa noite de sono”, mas a noite de sono não veio. Aquilo martelou, ecoou e me incomodou tanto, mas tanto... Resolvi acordar e pagar pra ver. Me dei mal. Eu tinha razão.

Hoje eu vivi com uma das piores sensações, talvez a pior de todas que eu poderia sentir. O mundo pode não ter culpa, mas para mim, não há outro vilão: eu me senti só. Abandonado mesmo, uma criança jogada ao relento de uma noite fria, que só precisava de um cobertor e um afago na cabeça. Que afago? Os habituais, aqueles que, de tão comuns, eu chegava a ignorar quando me eram fartos. Hoje eu senti o peso do inevitável, o golpe da solidão. Hoje eu me senti só.

Descobri, então, que tenho em mim um outro sentimento, este mais invasivo, intruso, malvado e, (in)felizmente secreto. Me descobri um possessivo. Possuir os outros, meus amigos, meus queridos, a um certo ponto eu me doía aceitar, vejam só, que eles podiam – e deviam – ser felizes em suas vidas. Eles têm vida, e eu não quis enxergar. Acho que, de tanto querer bem, eu acabo os querendo demais.

É um desapego ligeiro, uma ausência explicada, que me faz refletir sobre mim e sobre o que não posso mudar. Nem devo. As pessoas têm suas identidades, e precisam ser mais elas. Caramba, por que diabos então eu sou assim? Egoísta? Não torço contra a felicidade dos meus amigos, que engataram um romance, conseguiram um emprego, tomaram outros rumos na vida. Apenas, se pudesse, faria com que os nossos momentos nunca se esgotassem.

Aquelas horas onde riamos como antes, nos abraçávamos como antes e víamos a vida diferentes. Éramos diferentes, e hoje estamos aqui. Repito: não quero o mal para vocês, nunca, eu amo cada um. Apenas queria que o tempo voltasse atrás. Só quero o impossível. A vida muda, as pessoas mudam, e eu ainda preciso me acostumar com o ter, ao invés do possuir. Fico feliz por vocês todos, e digo que vou melhorar. Vocês nunca saberão, por mais transparente que eu tente ser. Vocês só verão em mim o amigo de sempre, que sempre está de braços abertos.

Isso não é uma despedida. Amanhã a gente se vê outra vez. 


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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Conotações




O que teus olhos me dizem? Esses olhos fugidios, vagos e inebriantes, de um verde brilhante, onde um mortal se perde com um raio cruzado apenas. Olhos, corpo, signo confuso e conotado, cuja significação enigmática enlouquece o mais são, o mais resistente aos seus encantos venenosos.

Eu vejo beleza, um conjunto de notas, sinfonia. Forte, eu vejo um corpo, união de curvas e retas sinuosas, corajosas, sacanas. Em cada traço, seu viço e composição envolvem os sentidos, destrói a percepção e acaba com a inocência. Ser teu refém é inerente a nós. Encontro em tua silhueta a calmaria de uma tempestade, caudalosa, cruel. És cruel, ao me deixar rendido, sem salvação, condenado à prisão perpétua entre seus quadris.

Eu vejo mistério, nada em tudo, tudo flutua neste mar caudaloso e sedutor. Não sei o que me espera, nem onde vou parar, mas continuo a te ver, cego de curiosidade, intrigado e aflito. Nervoso, até irritado, eu busco te desvendar, mas que graça teria? Conhecer uma mulher, se fosse possível, não o seria. Eu vejo sombras e, em meio a elas, uma forte luz, uma luz chamada você. Ilumina meu caminho. Que caminho?

Eu vejo doçura, a doçura de uma jovem aprendiz de menina, quando corre pela relva, singrando caminhos pelas ruas de flores. Vejo uma pequena flor. Quando maior, mais elegante. Uma sedução do tipo ninfeta, produto de uma imaginação misturada com tantas imagens tentadoras. É pureza, é perdição.

Eu vejo amor. Eu sinto amor. Eu faço amor, com meus olhos embebidos, minha carne suada e desequilibrada. Proteção, protegido, protetora. És meu guia mais clichê, minha estrela, meu Iaiá, ioiô... Besta, eu me rendo. Certo, eu te espero. Louco, eu me declaro. Eu te amo. Não te conheço, mas sei que meu coração já tem uma dona.

Eu vejo o que meu dia combina. Se meu humor não consegue definir o amanhã, que assim seja. Significo a luz do sol, sem conhecer a luz da lua. Sou hoje, você também. Decifrar teus olhos em um signo seria loucura, burrice ou simples perda de tempo. Conjecturas, eu sei. Gosto de te imaginar, ver tua visão e sempre descobrir uma nova mulher. Sem denotações, todas em uma só.

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domingo, 13 de maio de 2012

A maior prova de amor



Qualquer pessoa pode te dar um abraço apertado. Qualquer pessoa pode te emprestar uma grana. Qualquer pessoa pode, inclusive, te dar conselhos, mesmo que nem todos sejam bons. Carinho, afeto, compreensão e até amor você pode encontrar em um vizinho, um amigo, uma personagem da novela das seis, na sua sogra ou na filha dela. Agora eu duvido que alguma destas pessoas faça por você o que só a sua mãe faz:

Trocar suas fraldas.

Você não se lembra de quantas vezes a coitada sofreu ao se deparar com tamanha cagada – literalmente. Pior do que ver é ter que trocar sua fralda nojenta, limpar seu bumbum e ainda passar talquinho. Exatamente! Além de carregar você por quarenta semanas, destruindo a coluna, a pele e as roupas, ela ainda te limpa. Quem mais faria isso por você, além do pai, que faz obrigado pelas forças da natureza?

Não é pouca coisa. Enquanto ela tenta cuidar do pequeno ser, ele começa a gritar, chorar e espernear, mas mesmo assim ela, a heroína, continua ali, com toda atenção do universo. Sabe por quê? É simples: mexer em caquinha não é a melhor coisa do mundo pra ninguém, nem pra sua mãe, mas ela o faz porque sabe que, acima de qualquer coisa, seu bebê precisa estar confortável.

E isso não é a essência da maternidade? Ser mãe é um sacrifício do início ao fim. Mãos sujas de cocô por um sono tranquilo de seu filho, noite de sono perdida só pra saber se a mais nova chegou bem em casa, o dinheiro da conta de luz pro filho comprar uma apostila. Longe de serem maquiavélicas, as mães sabem que os fins justificam todos os meios. Ela pode passar fome, você não.

Se você acha que encontra toda essa atenção, todo esse cuidado e todo esse amor genuinamente materno em outra pessoa, não se engane. Todo bem que um terceiro pode lhe dar não chega perto do que uma progenitora é capaz de te oferecer. Amor de mãe é incondicional. Nem o tempo muda. Se você, um dia desses, chegar com ela chorando, incomodado, arrasado, é ela que vai estar lá, para trocar a sua fralda e lhe fazer dormir.

Agradece. Mas agradece muito, se você ainda tem essa mulher, que abre mão de qualquer conforto pelo seu conforto. Agradece mesmo se você não pode hoje, mas um dia já pôde desfrutar da alegria infinita de ter sua mãe ao lado. E não esquece nunca que, a cada respiração, ela pensa em você. E também não esquece que ela trocou suas fraldas. Quer prova de amor maior que essa?


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terça-feira, 8 de maio de 2012

A espera



Você me pediu pra esperar. Simples assim, você achou em mim o direito de me fazer esperar, por algo que nem sei o que é. Não sei, não conheço, nem lembro mais. Logo eu, que nunca tive a chance de fazer mais do que aguardar minha vez, vez que não veio até hoje. Logo eu, tão diferente. Logo nós dois, acidentes, dois acasos de um mesmo sentimento. Como nasceu? Ninguém sabe, nem precisa saber. Talvez nem eu conheça a razão de tanta liberdade.

Por que esperar? Por que, se tudo pode ser mais fácil? Emoção? Demais pro meu gosto. Sedução? Que tipo? Sou direto, ao menos quero ser, e você me vem assim, cheio de agrados e palavras bonitas, me ouvindo em toda canção, me vendo em todo olhar, me querendo em cada sonho... Quanta audácia invadir meu espaço tão restrito, tão fechado! Quem você pensa que é? Quem você é?

Pode ser meu paraíso, pode ser um pecado. Presença ou ausência, presente ou futuro. Minha certeza incerta, que me destrói ao pensar que já passei do ponto de retorno. Ao mesmo tempo, me constrói de uma maneira... Desprevenido, esse era eu quando o tempo nos juntou. Tempo, tempo, tempo. Ele é a solução e o empecilho, a colheita e a praga dessa plantação tão nova e tão forte.

Não quero tempo, nem espaço, nem nada além de você. Sei que você só existe se o mundo ao seu redor te sustentar, e esse mundo é maior demais, maior que nós. Esse é o problema. Eu sei demais sobre nós, mesmo nem te conhecendo. Não te conheço ainda. Como eu posso confiar em um estranho? Como eu posso esperar por um alguém perfeitamente canastrão, que me ilude e me confunde com rosas e risos? Como eu posso me questionar tanto, sendo que eu sei o que nós dois queremos?

Procuro segurança, ou um pouquinho de prazer. Procuro exclamação, não mais interrogações. Ironicamente, é o que você é. Não me importo, eu não preciso estar aqui, não preciso te obedecer. Não, a minha vida é curta demais, é minha demais, eu não te quero. Chega, não vou te esperar...

Eu já estou esperando. Enquanto rabisco essas palavras na folha de trás do meu velho caderno, já penso em você, já quero você. De verdade, sem exageros ou rótulos, nem vigilância de terceiros. Talvez seja disso que eu precise: menos terceiros, mais um par. Se eu perder, que tenha perdido com classe, e tenha levado o melhor dessa história. O doce, o puro, a candura sórdida da ilusão que me alimentou por alguns instantes. Não sei se vai dar certo, nem sei o que vai dar. Mas até agora, enquanto nada prova o contrário, vale a pena esperar.

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terça-feira, 1 de maio de 2012

Pensando alto


Eu não sei o que você fez da sua vida. Eu não sei como vão seus dias nesses últimos seis anos. Eu não sei com quem você anda, as roupas que você veste, nem seu gosto musical. Não conheço mais seus amigos, não sei onde você trabalha, não sei nem se filhos tem. Eu não sei o que você fez ou faz de você... E não me importo. Mesmo.

Não sabes o sorriso que carrego agora, enquanto escrevo neste papel reciclado. É, não deves saber mesmo. Durante esse tempo, eu reconstruí a minha vida, como deve ser após uma chuva forte, ou uma tempestade duradoura. No meu céu, azul e calma. Mas no seu... Como eu disse, não sei da sua vida e nem quero, agora algumas palavras ainda acabam se cruzando, por amigos em comum, interesses parecidos, opiniões remanescentes. Acontece.

Acabo vendo umas coisas e, sem deboche, só consigo sorrir. Confesso que bate certa pena, de uma pessoa que eu conheci forte, e que hoje se rende a qualquer besteira de mesa de bar, se achando no direito de descer a nível tão baixo de autodepreciação, baixo mesmo. Vejo esses cartazes de vitimização e você ali, os adorando como se fosse assim. É, a pena passa e começa a ser patético. Eu sei quem você abraça pra chorar essas mágoas, quem você defende, e essa defesa é a parte mais hilária. Não sei o que você sabe, repito.

Por isso eu acho que você não deve conhecer a palavra “superação”. Ah, ela é tão boa, faz um bem incrível, sabe? Não, né? No caso de, um dia, você ler isso, saiba que não estou revoltado. Meu tom é pacífico e verdadeiro, com ironia a gosto. Sarcasmo não faz mal a ninguém, vamos combinar! Querer que você entenda isso, aí nem se eu me prestasse a tal trabalho. Fico aqui, acariciando meu coração e quem cuida dele hoje.

Eu até diria isso na sua frente, mas você se esconde. Se esconde por trás desse ressentimento, dessa amargura que não sai. Você tem todo o direito, viu? Livre arbítrio, livre expressão. O que faço é apenas escrever, pra mim mesmo, não preciso que ninguém sinta compaixão por mim, não dou motivos. Na verdade, eu também me escondo. Sim, me escondo atrás de minha vida, oscilante como outra qualquer, mas minha e ponto.

Não que eu não tenha te amado, meu bem. Claro que te amei, fui sincero, como havia de ser, em cada beijo, abraço, momento piegas a dois, coisas de casal realmente apaixonado. Me entreguei, chorei, me torturei pelo fim, o problema é que o problema é nosso. Essa é a diferença entre nós. Não fico buscando respostas em público, inventando suposições e, pior, acusando você, culpando você, o que seria bem mais cômodo pra mim. Não sou assim. Nem preciso te dizer que guardo o bom do nosso passado e, se preciso for um dia, são essas as lembranças que eu farei questão de expor, como símbolos de nós.

Enquanto continuo vivendo meu presente de paz, já que não sei mais quem você é, o que posso fazer, depois desse tempo todo, é me divertir com o que você insiste em fazer. Um dia, me irritava. Mas ex é ex, e já sei usar desta filosofia a faceta mais leve e feliz. Se não enxergas assim, problema teu. Como penso demais, acabei escrevendo isso aqui Se chegar até você ou não, pouco interessa. Rasgo o papel. Te dar um conselho? Nesse tempo, desconheci o destinatário. Mais uma, e pela última vez hoje: eu só lamento. Que um dia também possas escrever sobre flores.

Agora vou ali, ser feliz mais um pouquinho. 


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