domingo, 15 de abril de 2012

Oficina




Na vitrine, reluzem. Quando os olhos de uma criança passam por eles, é fascínio? É encanto? Consumismo? Não importa. A vontade vence, as cores, os sons, as asas superpotentes, toda a imagem surreal daquele pedaço de plástico cheio de retas e retalhos artificiais, tudo isso conquista mais um amigo fiel, um parceiro de muitos, quem sabe de todos os anos.

Quando chega em casa, a ansiedade por libertá-lo da caixa se transforma numa alegria sem tamanho. Mais uma. Pronto para entrar na coleção dos seus melhores amigos. Aqueles que estão ali, na mochila, viajando por mundos desconhecidos por nós, criados por mentes pueris, brilhantes. Aventuras na selva, em Marte, no infinito, e em todas, todas, a presença do seu grande herói.

Porém, um dia, ele cai de um voo bem alto, mas bem alto... Uma perna entorta, o braço quebra. O brinquedo quebra. A perfeição ali, reduzida a cacos. Lágrimas, choro doído de um coração inocente, que viu seu melhor parceiro se machucar. Enfermo. Frequente, não menos doloroso. Uma parte da magia fica ali, nos pedacinhos soltos pelo chão. Outra parte, a mais importante, se transforma em remédio, em cura.

Essa parte tem vários nomes. Persistência. Nunca desistir de alguém querido, quando ele mais precisa. Sangra? Estanque. É feio? Embeleze. Quebrou? Conserte. Com precisão cirúrgica, ou até de modo grosseiro, que pode funcionar, esforços não são poupados para que ele volte a sorrir. Ele um, ele outro. Os dois são vítimas da queda, os dois buscam a salvação. Os dois sorriem realizados.

Amizade. O tempo, ah, essa o tempo não consegue destruir. Nem o tempo, nem as ranhuras que ele causa, ou que por ele acontecem. A vida enruga, enferruja, retorce, emperra. Nada disso consegue ser maior do que esse sentimento louco de pertencimento, de cuidado, de apego. Na saúde e na doença. Na vida e no que mais ela permitir. Isso é atemporal, isso é o “pra sempre”.

Amor. Isso justifica tudo. O companheirismo, o cuidado, a tristeza da dor, a alegria do conserto, a eternidade. Desde o primeiro brilho no olhar, em frente à vitrine, até um dia que chamam de fim, ele é o melhor companheiro de todas as aventuras. Mesmo que caia, que quebre. Se for real, um amigo conserta. 

IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/-0CISu_28apM/Tfk4iaaukeI/AAAAAAAARp4/e_Ri-9WdMBg/s400/atividade_ferias3.jpg

2 comentários:

Thaís disse...

Confesso que hoje não é um bom dia para eu lembrar da minha infância, ela foi perfeita se comparada a um dia cheio de reuniões e obrigações. Mas o texto, tão bem construído, me forçou a pensar em uma palavra importantíssima nos dias de hoje: persistência. Parabéns, querido.

Petterson Farias disse...

Leve e fofo. Como toda amizade deve ser.