sábado, 7 de abril de 2012

Masoquistas


Sofre. Como sofre esse bichinho, coitado! Ganha pouco, corre muito, bebe demais, folga de menos. Todo seu relógio muda a cada pauta, não sabe o que é descanso, mas é íntimo da gastrite. E da cirrose, e da hipertensão, e da obesidade. Nunca do Alzheimer. Escreve, digita, bebe café. Anota, desenha, perde canetas e “acha” com a mesma velocidade. Digita, fala, ouve. Aguenta entrevistados que gritam, que falam demais, que dizem de menos. Engole um brejo inteiro, com um sorriso no rosto, pra poder entregar uma matéria no meio do expediente. 

Sim, no meio. O dia dele não é completo antes das três matérias de praxe. Antes disso, coitado, ele não saberia como reagir. É condicionado a trabalhar. E ainda tem que levar desaforo pra redação, pra casa, pra vida. “Jornaleiro?”, “mas nem precisa de diploma...”, “não vou te contar mais nada”. Nas novelas, enquanto o núcleo mais pobre tem suquinho no almoço, ele é sempre representado como o barbudo fedido ou a fofoqueira malvada.

O menino tem que aguentar o mundo todo, conhecer o mundo todo, andar pelo mundo todo. E ainda precisa saber fazer café, mesmo sem gostar. Quem disse que ele faz só o que gosta? Escolha? Só a do chefe. Garimpa verdades, nem sempre encontra. Busca, apura, molha o tênis, gripa... Tudo por uns salgadinhos na coletiva, por um bloco de anotações e pelo prazer de estar ali. Aqui. Acolá.

É masoquista. Apanha do lead, leva rasteira do factual e, mesmo assim, insiste nesse prazer sádico e tão bonito. Acha que vai mudar o mundo, mesmo sabendo que se conseguir salvar sua pele já tá de bom tamanho. Sempre salva. Sobrevive a pescoções, coberturas policiais e eventos sem coquetel. Não come direito, mas se diverte na padaria da esquina. Coxinha, pão com mortadela, uma cervejinha, duas cervejinhas, um cigarro, mais uma cervejinha...

Reclama, reclama, reclama, mas pergunta se ele quer sair dessa vida? Sem isso, não há vida, nem graça no que sobrar. Pede férias, mas implora pra voltar ao batente. O combustível dessa máquina é a informação, e ela está em todo lugar. Se fosse dinheiro, seria engenheiro. Se fosse fama, seria BBB. Se fosse tempo, seria estudante colegial. Se fosse racional, não seria jornalista. 



IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/-yLDhUJ_Yoio/T1VjacfOtYI/AAAAAAAAA0g/bqvDLTfilH0/s1600/jornalismo.jpg

2 comentários:

Manuel Dutra disse...

Gustavo, gostei do texto. Nós, jornalistas, somos sim meio masoquistas, mas nosso trabalho não se resume a olharmos para nós próprios e para as nossas vaidades. Olhando para o Outro e para aquilo que não pode ficar nas sombras, nosso mister ganha sentido. Um abraço, Manuel Dutra

Renan Mendes disse...

Minha (futura) vida.