terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Excerto de saudade


Eu olho pras janelas, não vejo você. Sinto as nuvens distantes, o sol fraco, quase oculto pela massa acinzentada dos meus vagos sonhos solitários. Enquanto a noite chega, lembro que a lua, dessa vez, não vem com ela. Mais uma vez. Você e seu luar, nenhum outro satélite brilha tanto quanto sua aura. Mas você não vem. 

Tento ler romances e não te encontro nas entrelinhas. Tento ver filmes, mas o roteiro nunca é você. Procuro jornais, revistas, nada de te sentir. Nem mesmo as fotos conseguem me levar ao que fomos, ao que guardamos no papel. As lembranças, mesmo ainda fortes, começam a se apagar, meu arquivo vai se perdendo, dia a dia, no mar marasmo da solidão.

Frio. Sereno e frio. Escuro e fundo este infinito, minha vida sem você. Sem teus passos marcados no chão, eu me perco, não sigo. Não vivo. Viro pedra sem polimento, vaso sem flor, lâmpada apagada. O tempo vai passando e a madrugada invade meus pensamentos e minhas palavras, cheias de saudade do que um dia foi o nosso lar, nosso coração.

Continuo a olhar pela janela do meu quarto, e ainda não vejo você. Não ouço o barulho das chaves, quando você abria a porta, tentando não estragar a surpresa. Nada mais me surpreende. Quando a campainha toca, nem me importa mais saber quem é. Não é você. Esses raios de sol, que ensaiam mais uma alvorada, nem eles me acordam mais. Eu os vejo todos os dias. Vejo os fantasmas, vejo os restos de mim mesmo. Menos você.

Já clareou. Mais um dia sem seu beijo matinal, sem seus lábios me dizendo “bom dia”, sem seus olhos me sorrindo alegres. Hora de levantar, acordar de um sono que não tenho mais, para tentar viver uma vida que não tenho mais. Hora de sair e olhar para o mundo, respirar, secar as lágrimas e perguntar, gritando por dentro: cadê você?


IMAGEM: http://migre.me/869Im

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Post novo


Novidade. Como chegar até ela, e mais, como oferecê-la ao mundo, se tudo não passa de repetição, de mimetismo, do ontem vestido de hoje? Como prender a atenção de alguém, quando tudo a sua volta lhe soa mais importante, sugando as suas intenções como o olho de um furacão de pensamentos, imagens e sentimentos? Como agradar a um público feito de vários, a pessoas híbridas, multi, muitas em uma só?

Em todo canto, a sedução do consumo. Em cada palavra, um interesse. Em cada olhar, mil sentidos. O mundo se transforma em um bosque labiríntico, um grande enigma, onde o fácil engana, e não conhecemos tão bem aquilo em que acreditamos. Nesse planeta, desenhado pela comunicação rápida e forjada, o que convence não precisa ser o conteúdo. Basta uma roupa nova e confortável aos olhos e à mente.

É isso que as palavras fazem com a vida. Vestem o banal de ineditismo, capricham nos adereços e entregam à sociedade o que ela já tem, mas com um brilho diferente nos olhos, um cheiro de carro novo. E são incontáveis as maneiras de mostrar ao mundo o que ele sempre foi. Sim, ainda é possível surpreender.

Livros de papel e de LCD, textos dedilhados ou compartilhados, os mesmos tijolos e o mesmo concreto. Matéria-prima universal a serviço da criação do arquiteto, da intuição do engenheiro de palavras, construindo boa leitura e novas variáveis de sentidos. Um tema, mil interpretações. Se nada é novo, nem as estatísticas, nos vale mais acreditar nos escritos como sopros de invento que ainda teimam em existir. Graças a Deus.

Existe a vontade de mudar, o desejo, a refazenda diária de conceitos e expressões, os sentimentos caprichosos de vida e morte, de bem e de mal, de tudo e de nada. O tempo favorece a nova roupagem, o tempo pede novidade. Se a lista de assuntos é finita, que a criatividade não seja jamais.


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O Etc, que hoje completa 3 ANOS no ar, sempre fez questão de fazer do velho mundo novo uma grande descoberta. A cada novo texto, a busca pela reação diferente, pela satisfação após a leitura, pelo querer mais. Sempre foi assim, em cada um dos 256 posts novos desse blog. E, com esse post, um agradecimento a todos os leitores, seguidores e/ou amigos que me apóiam e me estimulam a seguir escrevendo. 

E continuar a reescrever o mundo, reescrever ideias, renovar. Além do texto, fiz um vídeo que, simples, tenta mostrar que a construção de um texto nada mais é uma procura por ideias, palavras em cada música, em cada imagem, e assim fazer nascer um novo conjunto. Mais do que isso, o vídeo é mais uma maneira de agradecer a você, que passa por aqui. Meu melhor “obrigado” é continuar.  


IMAGEM: http://adivertido.com/wp-content/uploads/2010/04/3anos.jpg



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um amor de carnaval




Era noite de domingo, quando ela veio, vestida de lantejoulas azuis, pulando na pipoca, como se fosse voar sobre nós. Mas ela veio sobre mim, primeiro com os olhos, depois com seu corpo bronzeado, fruto do sol de São Salvador. Eu, claro, merecedor ou não de tamanho presente, segui meus instintos e andei. Cortei caminho por entre a multidão, sem que meu olhar perdesse sua boca de vista. Seus cabelos, loiros, suados de festa, enfeitavam sua face linda, tão linda. Belo conjunto da obra. Suas curvas eram perfeitas, seu sorriso era um mar. Ali eu me afoguei. Ao chegar, um beijo que durou tanto, porém tão pouco. Ela segurou minha nuca com força, eu apertei sua cintura, e ao som do carnaval, fomos um em dois. A química clichê da paixão, tudo combinava. E quando eu comecei a pensar... Ela foi pro canto dela, eu fui pro meu. Tão rápido quanto esse texto, assim foi mais um desses meus amores de Carnaval.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Animal




“Oi. Muito prazer, gosto de massagens e muito carinho. Vou logo avisando que não sou muito fã de ostracismo, gosto de estar em evidência. Mas, por favor, nada de me contrariar. Sou um pavão, que facilmente vira uma onça feroz. Não mexam comigo. Ou melhor, saibam mexer. Nossa, nem me apresentei. Meu nome é Ego”.

Em grupos, pode se sobressair em meio a todos. Sozinho... Bem, sozinho ele pouco se manifesta, já que é carente, necessita de holofotes. Nos vence, e quando vence, haja terapia para reverter a situação. E quando não reverte?

Nosso corpo é uma jaula, e esse bicho estranho, como todo animal atrás das grades, precisa ser alimentado. Olhos bonitos, um trabalho bem feito, 10 em Matemática, acertou no vestido. Não, não é o bastante, mas serve pra amansar a fera.

Ela fica mansa, meio prosa quando vê alguém do outro lado, fotografando, apontando pra ela e indagando com o olhar toda aquela pompa. Ela pisca, se posta, busca o melhor ângulo e o flash. Sempre no centro. Sempre?

Experimenta cutucar! Olhos comuns, um trabalho meia boca, 8,5 na prova, a roupa bonitinha. Nem precisa ser nada absurdo. Absurdo, pra ele, animal de capa, é ser criticado, ultrajado. "Quanta empáfia! Quem ousa não me obedecer? Eu mordo".

Morde e grita, esperneia, esquece o ridículo em casa, pra defender sua imagem, sua importância. Pronto, um animal abriu a jaula e dominou o outro. Foge a razão, assustada. Foge o bom senso, pra bem longe. Foge o profissionalismo, a paciência, a ideia de aceitar que nem tudo é como queremos.

Egoísmo vem de onde, mesmo?

Nada de definições psicolóides, nem teorias aprofundadas. O menino não gosta de pensar, o que vale é que todos pensem nele, olhem pra ele, falem – bem – dele. Do contrário, nem adianta tentar convencê-lo de que há como conviver com ele na santa paz.

Esse animal existe, aí dentro, aqui dentro. Agora, se ele não vai escapar de novo, depende apenas da jaula. Alimentar demais, quase sempre, dá mais fome. 

IMAGEM: http://1.bp.blogspot.com/-hS4MFTrLEhI/ThNbI7JU6NI/AAAAAAAABOA/SaYv8ZBKMtU/s320/ego.jpg


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

H2O

Numa noite qualquer, você me vem, serena. Me molha. Me inunda no lindo lago do amor, amante, à mil. Teus olhos, distantes, quando cruzam os meus, deixam um piscar maroto, convite sacana, para curtir o que nunca houve. Sem pressa, teu abraço me envolve. Com pressa, tua boca bebe minha saliva. Água doce, picante, fervendo de ternura, saudade e desejo.

Numa manhã qualquer, você me tem, entregue. Minhas roupas, por onde andam? Sua razão, será que foi junto? No fim das contas, nesta piscina, sobramos apenas nós dois. Água que não sossega, marolas que viram ondas, encobrindo-nos, escondendo-nos. De longe, mais perto. Como um encontro de dois rios, uma mistura pacífica, esperada. Sinergia. Minhas mãos, teus lábios, nosso suor, tudo em função de uma chama. 

Num dia qualquer, você me vê, saudosa. O tempo se encarrega de botar tudo em seu lugar. Ao meu lado, a vida, meu porto seguro. Ao seu lado, sua vida, sua rotina. A cada volta, olhando para trás, voltaremos a perder o ar, transpirar, suplicar por água, como outrora. Para bebermos do nosso líquido, outro ciclo precisa se completar. Quanto tempo vai durar? Eu não sei. O tempo se encarrega de botar tudo em seu lugar.

Numa noite qualquer, você me vem, de novo. Quando adormeci em meus sonhos, invade-os, sem licença, com desejo. Meu corpo volta a querer tuas curvas, minhas mãos gritam por tua pele, e começa tudo outra vez. Tua água, tua língua, me redescobrem, cantam e dançam sobre mim os teus cabelos, na sincronia perfeita dos imperfeitos. Banho. Naquele mesmo lugar de sempre, envolto em nuvens brancas, interpretamos estrelas. Brilhamos no escuro. Vestimos a ilusão com pura seda, embebida no néctar que só nós conhecemos. Doce mel. Doce água nossa.


IMAGEM: http://lh4.ggpht.com/_WSNt22MyQj0/TFymsuFpCkI/AAAAAAAAAEw/TRagxonrzYE/m%C3%A3on'agua%5B2%5D.jpg



sábado, 4 de fevereiro de 2012


Tamanha, esguia, risonha. Teus olhos grandes, fundos, como que convidando seus súditos a pularem neste poço de prazer e serenidade. Tinta celeste, gris, da cor do mar bravio. Toda a força de uma mulher nos passos leves de uma menina. Tudo para, ela caminha, segue feliz. Tá tudo bem, o mundo pode ser mais feliz.

Homens ofuscados por compridos fios de cabelo claro, do jeito que o sol imaginou. Faz até inveja aos astros, a estrela maior vive na terra, chão quente e úmido, feito planta que cresce, cresce, entontece... Ah, quanta certeza! Suas palavras se tornam travesseiros, raízes fincadas em sonhos pueris, onde cada menino se diverte e reconhece: tá tudo bem, aqui eu estou seguro.

Abram alas para a doce senhorita, que baila no ar, se espalha no vento, se perde em si. Retas curvilíneas que se cruzam em mim, me prendem, sem saída. Sem escolha. Uma boca esperta, sacana, que inocula o veneno mais prazeroso. Um horizonte sem fim, um eterno enigma. Desafio diário de conquistá-la, para ganhar, em troca, o seu sorriso. Tá tudo bem, eu me rendo!

Imagino o mundo sem ela. Vejo um vazio. O mundo é ela, menor do que sua matéria carnal, com intenso conteúdo. Prepare o coração! Ela é mágica! Pisca os olhos, as luzes entram em sincronia. Encara o vento, os cabelos desenham nas retinas uma perfeição que nem mesmo a própria perfeição é capaz de criar. Quebra pernas, invade, toma de assalto. Tá tudo bem, ela me faz bem.

Sentidos que se perdem ao vê-la. Profano sabor, divino prazer. Sinos, tocai! Música para ouvidos, olhos, corações... Notas que se juntam, formando a mais bela sinfonia. Um baile de beleza, pequena mostra do céu. Alva, brilha onipresente, onipotente. Diamante lapidado pelo tempo, nobre amigo, cruel vilão. Distantes, são mais unidos. Será que tá tudo bem? Tá. E o mais incrível disso tudo é que sempre pode ficar melhor. 


FOTO: Renan Mendes



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fora de moda




Quando eu te ouvi dizer que era o fim, que não haveria mais outro dia, com aquela frieza que nunca saiu de sua voz, confesso que senti um tornado me devastando, moendo meu coração, meu castelo de sonhos, tudo. Eu acreditei em você, até o último e mais difícil momento. Hoje, dois anos se passaram e eu posso te dizer, com a maior tranqüilidade, que você não estava tão certo assim.

Como as coisas são, né? Eu acho que a vida foi bem generosa comigo, talvez justa, depois do tempo que eu perdi ao seu lado. Acreditei no teu amor, nas tuas palavras mansas e planejadas, hora e local. Acredite nos presentinhos, nas flores, nos elogios. Tudo bem, você venceu... Mas ainda bem que nada é pra sempre, como eu pensava.

Chorei por você, sofri, doeu bastante. Mulheres são assim, sensíveis demais, você sabe. Sabe? Duvido. Mais uma folha, figurinha repetida, descartável. Assim era eu, assim era a outra, mascarada por tantos anos, e que você, óbvio, não teve a coragem de me revelar. Tudo bem. Vindo de você, acho bem normal.

Sua libertação, minha carta de alforria. Os meses mais bonitos da minha vida não foram com você. Eu finalmente vivi, me descobri, me curti. Sabe, sem hipocrisias, apenas prazer. Compromissos, pra quê? Não, nunca passei perto de ser você, não seria nobre me igualar a alguém tão digno de pena. Eu fui, e ainda sou, feliz como nunca. Liberdade.

Quantos já me cortejaram, quantos já me satisfizeram, mais do que você, melhor do que você. Meu corpo mudou, eu sou mais mulher. Muitos me deram flores. Cansei de acreditar nelas, apenas fui feliz. Você sabe o que é isso? Agora, pelo que eu sei, a outra, sua namorada, está indo embora... Bom, quem sou eu pra rir de situação tão chata, né? Vai saber os motivos dela. Eu sei dos seus, muito bem. Talvez sejam os mesmos, vai saber.

Quando você me dispensou, mal sabia do bem que você estava me fazendo. Obrigada. É só o que eu posso te dizer, por me dar o presente mais importante, mais valioso do que qualquer bijuteria barata: a vida. É, eu renasci, mais forte, mais mulher. Se quiser conversar comigo, pode vir, o endereço é o mesmo. Não pensa que eu vou te aceitar de volta. Eu já troquei as fechaduras. E, se tem algo que eu aprendi com você, é que usar roupas antigas não é bonito. Pra mim, você já saiu de moda.


IMAGEM: http://1.bp.blogspot.com/-DFqArNMj_Xw/TY_F5P4_1KI/AAAAAAAAAHk/5v9UN-1ihww/s1600/mulher+livre.jpg