domingo, 15 de janeiro de 2012

Sem querer




Sem querer, um olhar distante, um sorriso indiferente, um beijo sem toque. Grande ironia, montagem de um futuro sem chão, a ponto de ser levado pela correnteza, como apenas mais uma folha seca que cai da árvore, um dia frondosa, de um amor. Amor que cumpriu seu ciclo (im)perfeito. Nasceu, cresceu, se reproduziu, morreu.

Nasceu como água de chuva, que se acumula por um tempo, mas só é notado quando começa a ficar evidente demais. Nos tempos de faculdade, da maneira mais clichê possível. Quem nunca disse um “esses dois aí ainda vão acabar casando”? Ele era o rei, tinha os olhos do mundo voltados para o seu umbigo, rebelde, estrela. Ela, doce e forte, do tipo que evita devolver desaforos se afastando da babaquice alheia.

Cresceu. Cresceram juntos, aprenderam um com o outro, se tornaram mais fortes, mais humanos. Apaixonados por Direito, seguiram a mesma carreira, em uma vida que não se dividia em duas, o egoísmo não tinha espaço em meio a tanta necessidade mútua, a tanto querer bem. Um namoro que rompeu os limites de qualquer escrito ou lei de Deus. Noivos, casados, felizes. Os meses passavam

Reproduziram. Uma linda menina, Marina, com “a beleza do pai e o gênio da mãe”, como eles mesmos se divertiam em dizer. A luz da casa, a peça que faltava nesta família. Marina era a própria família. Eles já viviam reféns do tempo, poderoso instaurador do caos, com a mesma força que pacifica, tira tudo do lugar. Marina chegou como a salvação, o elo soldado da corrente, a escora. Nove anos de casamento, uma filha, muitas histórias, as mais recentes umedecidas demais. Folhas que se rasgam.

Morreu. Tudo aquilo plantado com afinco, a quatro mãos, secou e caiu. Um buquê, flores mortas. A beleza deu lugar ao marasmo e, de repente, alguém olha e vê o que, há um certo tempo, era a praga da lavoura. Rotina, talvez. A saudade se diluía na volta para casa, as últimas mensagens no celular não eram mais as declarações bobas de sempre. Todas as possibilidades eram plausíveis, menos a do fim. Adivinha só qual delas a vida escolheu pra esse casal?

Sem querer, um olhar aconchegante, um sorriso involuntário, mil beijos com tesão. A vida recomeçou pros dois, como manda o figurino destes novos tempos. Os lados se separaram, agora novas árvores serão plantadas, mais folhas nascerão, mais dois ciclos terão início. Novos amores que vão nascer, crescer, se reproduzir e... Pra quê pensar na morte, enquanto tudo recomeça, enquanto esse gosto de vida está fresco em nosso paladar? Sem querer, eles só querem reocupar seus pensamentos, suas vidas, suas almas.

IMAGEM: Google

2 comentários:

Renan Mendes disse...

Ciclos. A vida é cheia deles. Ainda bem.

Robson H. disse...

Ei Seu, me ensina a fazer texto assim?
Muito bom!