quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

No Bar do Parque





Ando por aqui, sob a chuva fina que precede um dilúvio, uma cidade que corre parada. Um corredor de mangueiras frutíferas e, de certa forma, perigosas, ao lado de uma grande avenida. Aqui, jovens, senhores e meninas cor de açaí brincam de desfilar, no bucolismo urbano dessa metrópole verde e acinzentada. Ali, no frenesi da Presidente Vargas, carros e ônibus caminham a passos curtos, infinitos, de um progresso que chegou sem chegar.

Paro por aqui, sento e peço uma cerveja. Míticas mesas do Bar do Parque, onde a boemia belenense sempre esteve em casa. Uma casa pequena, grande em tradição, gigante em histórias. Aqui, ainda sob a chuva fina, eu olho os prédios, encobertos por colossos de folha e seiva. Engrenagem para tudo isso girar e girar. Modernidade clássica, comércio quente, movimento.

Atrás de mim, a Paz. O Teatro magistral, palco de fotos amareladas, cenário por dentro e por fora. Turistas de além-rio olham para cima, como quem admira o céu. Nada, são só as colunas de entrada do templo das artes e da cultura. Belém é um templo. Carimbó, Siriá, açaí. Cosmopolita, Belém é bela, floresce entre rios, singrada pelo vento e pelo corte profundo nas folhas de seu passado.

Daqui eu vejo a pobreza em frente ao luxo. Daqui eu vejo a sujeira, arranhando a pintura parauara. Riqueza pobre, crescimento estancado nas feridas de uma cidade comum. Comum nas mazelas, nos desníveis, na miséria. Marcas, talvez o preço do desenvolvimento. Na cidade de vencedores e vencidos, quem ganha o quê? Ganha quem manda, nem sempre com talento e respeito.

Respeite quem puder! Aqui, no Bar do Parque, eu vejo a vida correr nessa metrópole amazônida, de um jeito só nosso. Aqui, ou em qualquer outro ali, minhas retinas guardarão a imagem do meu berço, minha raiz, meu sangue roxo. Nenhum chopp será mais gelado do que esse, nenhuma música soará harmoniosa quanto a música daqui. Nenhum outro pôr-do-sol como esse, nenhuma chuva como essa... Hora de ir, que Ela tá ficando forte.



IMAGEM: Sérgio Bastos (http://sergiobastos.files.wordpress.com/2009/03/bardoparque.jpg?w=450)


Um comentário:

carlinhossam disse...

Viva Belém!!! Belém de Eneida, da Doca, das praças, da Braz, Nazaré, da Virgem de Nazaré, açaí e tacacá, cupuaçu e bacuri, remo e paisandu (agora c/ letras minúsculas mesmo,que já foram maiúsculas). Viva Belém.