segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Mais um campeão de audiência




É domingo, sete da noite, e enquanto escrevo este texto, certamente milhões de famílias do Brasil estão juntos, na sala ou no quarto, assistindo a um programa de auditório qualquer, dos vários que enchem a TV aberta no mesmo horário. Você, inclusive, deve estar ali, vibrando com o game do Baú, com o falatório global, ou até chorando copiosamente com algum sonho realizado na “TV de primeira”. De primeira?

Que a função da televisão é o entretenimento, não precisa ser nenhum estudioso pra saber. Agora, quem foi que disse que entretenimento precisa ser sinônimo de alienação? Ora, o sistema. Famigerado, o sistema envolve, dá ao povo o necessário para que ele vire uma massa, bem homogênea: os mesmos corantes, muita farinha, e haja fermento. A massa cresce, a mídia se farta, num ciclo sem fim. Opa! Isso aí já é cinema!

No império da televisão, somos mais que súditos. Somos os fomentadores. Sem nós, eles não saem do traço. O problema é que a relação de dependência é bilateral. O público precisa de algo para acreditar, geralmente algo criado pela mídia, que represente um ideal de vida, uma expectativa, talvez uma nova realidade. Ou seja, as pessoas precisam fugir de suas misérias através de mentiras. Ou será que alguém ainda acredita que o pai sumido do convidado não está esperando atrás do palco, pronto pra “surpreender” o país?

Como fazer o Ibope se render? Em um palco, reúna 300 jovens, de preferência mulheres bonitas ou caravanas. Coloque uma figura carismática, de sotaque paulistano, para apresentar. Ah, não esqueça de deixar longe a inibição, qualquer mico é um pico de audiência. Faça o telespectador chorar, espetacularize, não importa se o convidado sofre. Faça o povo sofrer! Isso é tão lindo! Mas, se não der, pode colocar um barraco. Também rende muitos comentários, talvez até entre nos TT’s.

Violência sempre rende. Nos telejornais, mais do que a verdade. Aliás, qual verdade? A do canal X, do Y ou do Z? O público não decide nada, mesmo quando decide. É bom sentir que tem o poder nas mãos, não é? Soberania? Longe disso. Quanto mais “livres”, mais presos ao maquinário ideológico que vai te fazer pensar que seu voto fez a Cida ser campeã do BBB.

Nas novelas, mais do mesmo. Os mesmos atores, as mesmas histórias, até os nomes se parecem. Coincidência? Nos últimos anos, quantas vezes as palavras “vida”, “amor” e “coração” se repetem? Joga uma trilha sonora daquelas, e pode carregar na dose de Ana Carolina. Pronto!

O que falta? Pegue o controle, assista, não pisque, assista, sorria, chore, assista... Depois, quando sair de casa, fale e aja como o mocinho de Malhação. Volte para sua casa e assista mais, mais, mais... Não esqueçam que somos nós que movemos a máquina, somos nós, e apenas a nossa vontade, que sustentamos a televisão brasileira. Uma caixinha de sonhos, onde tudo acontece. Tudo mesmo! Valei-me, Santa Clara!


 IMAGEM: http://noticias.r7.com/blogs/fabio-ramalho/files/2010/09/midia-e-crise.jpg

3 comentários:

Robson H. disse...

Em tempos onde criticar por criticar se tornou 'cult', uma crítica interessante como essa deve ser louvada. Parabéns Seu, texto bastante inteligente e sensato. ^^

Renan Mendes disse...

Teorias da comunicação, oi? ;D

Thaís disse...

Uma mini análise do discurso da TV brasileira. Parabéns, Gus. Esperamos sempre que as pessoas (inclusive nós) saiam da menoridade e façam a "máquina" parar de girar da forma que gira. #WolfMeAbraça