quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A carne




Maldita carne vermelha, nossa matriz e perdição. Esta que pulsa, bombeia e atrai, magnética involuntária do corpo em dois. Ou mais. Sempre quer mais, esta bendita fruta divina, esculpida por mãos divinas, com traços cruéis, violentos de tão comuns. Esqueleto cabide, mostruário, sustento. Maldita carne.

Carne que treme, no momento inesperado, na fração mais aguardada, no furor de uma paixão. Sentimento vivo, forte, rubro, escondido, mal disfarçado em pele, órgão. O nervosismo dos pesadelos ou o êxtase dos sonhos, tudo vibra, tudo é motor. Músculos contraídos e dilatados, movimento. Movimentos, andanças, tropeços, vida.

Carne que exala, sons e suor, sabores do corpo. Uma alquimia barata de toques e adereços, um conjunto de luz, olhar e sorriso, em meio a curvas ou retas. Carne molhada, vidas secas de luxúria, secas de viço, sedenta. Vitrine de espelhos, medos e esperanças, tudo ali, tudo aqui. Carne fraca.

Carne que chama. Pedaço de céu ou inferno, paraíso, perdição. Quando quente, arde nos olhos e na ponta dos dedos, arrepia. Pelos eretos, suspiros fustigados, como se a alma lhe fosse roubada, para depois entrar com violência. Somos todos reféns de um feitiço inexplicável, pois nossas janelas nunca se fecham.

Carne que engana. Faz mentir, faz mudar opiniões, cria interesses, até mentiras. Convencimento barato, pela chance de provar, pelo simples ter. Se veste de invenções para hipnotizar. Presas fáceis. Bobagens por um beijo, hipocrisias por um toque. Movidos pela paixão, por pior que seja, predadores jogam a isca, para conseguirem a caça fresca, com sangue fresco. Alimento.

Bendita carne vermelha, nossa matriz e perdição. 


IMAGEM: http://obagastronomia.com.br/wp-content/uploads/2011/01/DSC08756.jpg

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