domingo, 30 de dezembro de 2012

1ª pessoa



Sempre emprestei esse espaço a personagens, de vários estilos, com histórias diferentes. Fiz deste lugar um palco para a criação de traidores e traídos, vencedores e perdedores, fomentadores de esperança, crentes no amor, ou mesmo um qualquer do dia-a-dia. Hoje é diferente, é hora de eu ser eu mesmo, o escritor, que hoje se despe do eu lírico e usa as suas próprias palavras pra contar o que foi o ano que passou.

Passou rápido, acelerado, acelerou uma vida que se resumia a sonhos, projetos, futuro. O presente surgiu como oportunidades, presentes do destino e recompensas da obstinação. De 1º de janeiro até aqui, o currículo cresceu, a experiência aumentou, a vida mudou. Meu tempo passou a ser redividido, reorganizado, às vezes mal, admito. O certo era a convicção de que meu amanhã já era hoje.

Uma vaga, um teste, uma assessoria de comunicação institucional. Ali, a primeira entrevista. Ali, a primeira grande vitória como acadêmico. Ali, Ascom, a primeira grande escola. Prazos, demandas, responsabilidades, chefia. Vieram as entrevistas, as pautas, os contatos, as fontes, as matérias publicadas. O que, há pouco tempo, ainda era um objetivo breve, já era real, era rotina. Minha vida já estava cheia delas.

Estágio, aulas e um certo evento. Reuniões longas, desgastantes, criativas. Um mundo de estudantes desbravando, tropeçando e seguindo. Oito meses de muito trabalho, pouco namoro, nenhum retorno financeiro, pelo imenso prazer de chegar ao dia 5 de maio e dizer: “foi!”. Sair da plateia para o backstage não foi fácil, mas se tornou muito recompensador. Uma vitrine, um serviço, o retorno do público, o encantamento mútuo. Dessa cumbuca, saíram amigos, histórias, aprendizados. Nessa cumbuca, foi inesquecível fazer Muvuca.

Reviravoltas. Em pouco tempo, uma surpresa que muda o meu futuro a cada dia, desde então. A redação almejada, a oportunidade ainda distante, o estágio tão esperado, tudo antes do previsto, provando que as previsões nascem para não dar certo. Ainda bem! O caminho teve que ser desviado, ou finalmente eu tinha entrado na estrada certa. Entrei, cheguei, senti e sinto, até hoje, todas as tardes, que o sonho pode estar a poucos quarteirões, e que essa distância não é tão grande.

2012, o proclamado ano do fim, pra mim ainda reservava mais este começo, com as bênçãos de Nossa Senhora de Nazaré. O Círio nunca mais será o mesmo pra mim, que vi a santa de perto, e o céu mais perto ainda. As cenas que eu criava quando moleque estavam ali, com cores mais vívidas, tons quentes, como o sol de 14 de outubro, que queimou minha camisa de “imprensa” e encheu meu pequeno coração estagiário de orgulho, orgulho de fazer parte, de construir um pouco daquilo, que chamam “telejornalismo”.

Alegria demais, que não coube em mim, em Belém. As melhores lembranças deste ano que passou, certamente, passaram pelo Ceará. Verdes mares, onde construí histórias, conheci pessoas, encontrei o paraíso a cada acordar, em cada pôr do sol. Trouxe, na mala, bastante saudade, e mais do que isso. A bagagem veio carregada de novos conhecimentos, sobre teorias e pessoas, sobre o tempo e sobre amores. Cresci, cresci forte. Fortaleza.

Um ano é tempo bastante pra errar muito, e bastante pra tentar consertar. Na balança, venceram os acertos, as conquistas. Conquistas profissionais e pessoais, acima de tudo. Ao lado, amigos de verdade, pacientes, parceiros. No coração, um amor que acompanha, que enche de orgulho e que vai comigo muito longe, graças a Deus. Ele quer. Comigo, uma grande família, unida e ouriçada, mas sempre comigo.

2012 foi, no fim das contas, uma grande aula, teórica e prática, onde predominou o verbo “aprender”, e venceu a vontade de crescer. Se o mundo vai ser melhor daqui pra frente, que seja. O meu vai, e só depende de mim. Mais viagens, mais sucesso, mais amor, tudo sim, tudo mais, inclusive tempo. Esse, que passou voando. Muitos nem acreditavam em 2013. Eu não deixo de acreditar nem sequer no próximo minuto. A vida ensina, em 20 anos ou até menos, que nada não existe. O que existe são pessoas que não tentam.



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2012 indo embora, cheio de grandes lembranças e um futuro promissor pela frente. Que 2013 seja um ano de sorte, sucesso e paz, para todos vocês, leitores, seguidores e amigos do Etc. A gente se encontra no ano que vem, pra que possamos escrever novas histórias. 

FOTO: Gustavo Ferreira

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Noite feliz


Hoje, 24 de dezembro, é o dia que muitos esperam para dar e receber presentes, reunir a família, assistir a um filme infantil na TV, ligar para os amigos e até para os inimigos. É a tal da noite feliz, das canções de natal e dos comerciais de bancos. Como se as outras trezentas e tantas noites do ano não fossem capazes de ser especiais. Afinal de contas, o que é uma noite feliz?

É chegar de um dia cansativo de trabalho, com todos os problemas de um mundo que pesa nas suas costas, e encontrar uma família te esperando, com a janta na mesa e o simples fato de eles estarem ali, mais uma vez. É terminar o serviço com um leve sorriso de satisfação. Ultimamente, feliz é a noite em que se chega em casa.

Um encontro com os amigos, numa mesa de bar, às vezes vale mais do que qualquer ceia. Os sorrisos são mais espontâneos do que em muitas fotos com Papai Noel. As verdades da amizade são os registros mais fiéis de uma confraternização sem barra forçada. Os desejos vêm do coração. As bebidas até parecem mais gostosas.

Noite feliz pode ser um beijo da namorada, ao acordar, depois da transa. Pode ser a bronca do pai, quando batemos o carro. Pode ser um reencontro casual com alguém que fez parte da sua vida, depois de muitos anos de distância, com ou sem justificativa do destino. Feliz é o momento do perdão, ou mesmo da certeza de que não tem volta. Feliz é a hora da chegada ou da partida.

Felicidade, conceito relativo. Para alguns, se mede pelo preço do presente. Para outros, pela sinceridade do abraço. Sinônimo de satisfação ou de status, de natal ou carnaval. O que temos contra a felicidade, se dependemos de um ano inteiro de espera para que ela chegue, como um presente, uma fuga de quem não suporta o que lhe cerca e o que vê no espelho? Felicidade é presente de todo dia, é estado de espírito. Alguns entendem muito bem. Outros sentam e esperam o dia 24 de dezembro.

Pode ser de manhã, um fim de tarde, uma madrugada qualquer, em dezembro, março ou junho. Tendo ou não uma explicação, o sorriso pode nascer do nada, e as lágrimas alegres podem brotar do vento, do acaso. Depois de amanhã, a noite também pode ser iluminada com o brilho da sua árvore de natal e dos ornamentos da fachada. Mesmo sem lâmpadas, sem pompa e sem os salamaleques de uma festa social, a vida pode sim ser uma eterna noite feliz.


IMAGEM: http://www.jovensconectados.org.br/images/stories/natal_anjos.jpg

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Acerto


Bem que me avisaram pra acordar um pouco mais cedo hoje. Bem que me avisaram pra não beber tanto daquilo de nome estranho, que botaram no meu copo. Tenho culpa se o gosto era bom? Agora, o mundo vai acabar, e eu aqui, sem ter sequer tirado a calça rasgada do pijama. Bom, vamos aos trâmites. Hora de lavar a cara, esquecer de fazer a barba e correr. Dizem que hoje é o fim do mundo, e eu preciso chegar a tempo no tribunal.

É, inventaram um tal de “juízo final”, onde o povo é obrigado a prestar contas de tudo o que fez de bom, de ruim e de legal desde sua primeira lembrança. O brasileiro é obrigado a isso, bem como a votar e a sorrir pra turista, sambando como der. Pra variar, cheguei atrasado, e encontrei um monte de conhecidos na fila. Até tentei furar, mas eu achei melhor evitar novidades no interrogatório. Dizem que lá no céu tem amendoim à vontade.

Como eu vivi tanto! Foi o que eu pensei, quando encontrei cada figura do meu passado ali, esperando a hora de confessar tudo e sair com seu bilhete único rumo ao terminal. Seu Nestor, aquele porteiro desgraçado! Espero que ele tenha dito o quanto me roubou quando eu era criança, no dominó. Pobre moleque! Gente fina era a esposa dele, Dona Gina. Não merecia as piadinhas que eu fazia com seu nome, ela cozinhava tão bem.

Olha a Carla. Cresceu, hein! Bem maior do que no tempo em que a gente brincava de médico na cama dos pais dela. Será que ela ainda lembra que foi meu o primeiro beijo da vida dela? Será que foi mesmo? Enfim, não importa. O meu primeiro foi com ela, e meu orgulho nunca vai deixar ela saber. Meu orgulho e o tempo, na verdade. Aquela ali é a Dani. Espero que ela conte ao juiz que me traiu com o bombadão da turma. Pistoleira! Só porque o carro dele era conversível... Só porque ele tinha um carro. Mas tudo bem, a fila andou.

Andou mesmo. Minha vez de encarar minha própria ficha corrida. Confesso que nunca fui lá muito certinho, mas tirei o primário só com notas azuis. E boas. Até uma certa idade, a verdade é que eu era um chato. Nunca colei chiclete no cabelo da menina mais patricinha da sala, nem mijei na caneca da “tia”. Tudo mudou depois que eu vi o Carlinhos batendo num CDF da turma, só por ser maior – mais gordo e mais ruivo – e me ameaçar ser o próximo.

Os jurados me olhavam meio de lado, enquanto eu continuava a contar minha história. Falei do dia em que ajudei uma senhora cega a atravessar a rua, e quando eu não contei pra minha mãe que foi meu irmão quem quebrou a cristaleira. Era a hora de me encaminhar pro céu. Já eram quase cinco da tarde, ainda faltava bastante gente pra ser julgada ali. Então, o cansado juiz me declarou apto à salvação. Estava limpo. Hora de carregar a mochila, os seguranças terceirizados já me encaminham para a fila da documentação.

Chegando lá, a atendente, fina feito um rinoceronte que não recebia há dois meses e ainda tinha que pagar o colégio dos três filhos, viu minha identidade, meu RG, minha carteira de vacinação, estava tudo certo. Mas cadê as benditas fotos 3x4? Quinze pras seis, final de expediente, e eu não tenho as fotos na carteira. “Na hora do desespero, seja criativo”, já dizia papai. “Moça, acontece que eu fui assaltado, me levaram tudo nessa confusão de apocalipse, sabe? Mas eu prometo que consigo tudo o que falta em 72 horas, no máximo, e mando por e-mail. Posso passar?”. Passei. A Dani também. Pra quem ela prometeu dar, pra conseguir estar aqui?

Finalmente, hora de embarcar. Nave bonita, espaçosa, tem até ar condicionado. Espero ficar ao lado de alguma garota bem cheirosa, e não algum macho fedorento daqueles que subiam no mesmo ônibus que eu, quando voltava do colégio. Serviço de bordo? Mas que beleza! Ainda bem que os Maias acertaram. Só assim pra eu ganhar comida de graça... Pera, o que esses seguranças estão fazendo? Porque estão vindo em minha direção? Sair da nave? Por quê? Será que eles descobriram que eu roubei uma sacola de compras daquela velhinha cega que eu ajudei a atravessar? 


IMAGEM: http://www.aascj.org.br/home/wp-content/uploads/2012/08/juizo-final.jpg

sábado, 8 de dezembro de 2012

O bom




Hoje, numa daquelas rodas de amigos à beira da piscina, eu me dei conta de uma coisa que, honestamente, destruiu meu fim de semana. Estávamos todos ali, conversando, dizendo palavrões e bobagens, até que o assunto chegou nas loucuras que cada um cometeu na vida. Tentei me esconder, me enterrar, sumir dali, mas fiquei. Então, quando alguém me incluiu na conversa, eu tive que me defender com uma verdade amarga: “Não, eu sempre fui tranquilo”.

Nessa hora, e só nessa hora, eu consegui perceber o quanto a minha vida era tranquila demais, chata demais. Eu descobri quem eu sou, finalmente, e não foi legal. Descobri que toda a minha vida não passou de uma vida comum, burocrática, cheia de limites, regrinhas de conduta e medos. Ah, os medos!

Nem eu tinha noção de quantos eram. Não sei nadar, nem voar, muito menos andar por aí numa noite qualquer. Não tenho medo do novo, e sim medo do exótico, que pra mim é aquilo que eu não provaria sóbrio. Quantos porres eu posso contar que vivi? Aquela taça de champanhe não conta, aquilo não foi um porre, foi quase um coma. Nunca me embebedei de álcool, nem de experiências.

Nunca roubei bombons de loja nenhuma, nem meti meus dedos no bolo. Que tipo de pessoa eu sou? Quais são as minhas memórias? Será que alguém compraria a minha biografia? Será que eu mesmo compraria? De que vale ter sucesso na carreira se, ao olhar pra trás, eu vejo tudo em linha, separado em pastas e subdividido em tópicos? Esse é meu arquivo, um quase vazio, com os restos inacreditavelmente organizados.

Aqueles meus amigos já viveram cada coisa. Não, não sinto inveja, nem quero ser outra pessoa. Só me admiro com a minha inércia social. Sou mais um, não tenho destaque, nem expressão. Aquele que sobra na escolha dos times, aquele que tira 10 em matemática, mas não sai à noite com a turma. Sou bom, sou sim. Mas bom é média, é normalidade. Todo mundo é bom, até que situações provem o contrário. Cadê as minhas?

O que eu provei até hoje? Quem eu provei? Sou um quase-virgem de 23, que só transou com uma mulher na vida, porque ela é minha namorada. Sou um monogâmico falido em diversão, que não sabe acender fogo nenhum sozinho. Não fiquei com vinte na noite passada, nem ao menos saí de casa na noite passada.

Minha vontade não é a de mudar meu jeito. Parece contraditório, mas eu gosto de mim, eu me admiro e me respeito, eu sei o meu valor. Só queria que, de vez em quando, eu pudesse me mexer, tomar todas, curtir a vida adoidado. Não sei o que é isso. Ainda tenho tempo, vai que, na próxima reunião com os amigos, eu não precise me esconder, nem deles e nem de mim mesmo.

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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Outras ressacas


Dizem que ressaca dói, deixa o cara baqueado, sem vontade de nada. Dizem que ressaca moral dói mais ainda, tira o ânimo e a coragem até de sair de casa. Agora dizem que a pior ressaca é aquela pós-separação. Ih, meus amigos, que já passaram por isso, viviam me assustando, como que prevendo. “Você vai cair de cama, chorando, enquanto ela vai se divertir. Se prepara pra ver as fotos no Facebook”, entre outras palavras de consolo de amigos de verdade.

Ainda não sei se isso é verdade, até acordei bem, depois de ontem. O jantar foi indigesto, o último. Mas uma coisa eles acertaram: voltei um analfabeto. Dois anos de namoro, mais uns meses de insistência, outros dois de pura burocracia, e eu me vejo um completo ignorante. Voltei desaprendido, até mesmo burro. Esse negócio de amor deixa a gente meio lesado, e pior, sequelado.

Claro que eu fiquei triste com o desatar de um laço tão duradouro, mesmo frouxo há algum tempo. Porém, o que me tirou o sono foi esse arquivo velho dos meus tempos de solteiro. Faz tempo, tanto tempo, que eu desaprendi tantas coisas comuns sobre a vida, sobre garotas e esse mundo tão banal. Sim, preciso de uma cartilha, atualizada, da solidão colorida. Nem sei quais são os bares legais pra curtir e azarar... Acho que “azarar” ficou ultrapassado.

É disso que eu falo. Eu nem consigo me portar perante as mulheres soltas, sou um perdido na pista, nem consigo ter a cara de pau de outrora, na hora de pegar um telefone. Enferrujei sem envelhecer. Tenho amigos, eles vão me guiar, por essa redescoberta das noites boêmias dessa cidade, que ganhou cor nos últimos minutos. É estranho, sou estranho, mas vou me adaptar. Eu acho.

Vai ser bom. Sair sem dar satisfações, comer o que quiser, largar a toalha molhada no sofá, o rodízio de perfumes na minha cama... Acho que agora começo a enxergar, de fato, o que voltei a ser. Liberdade? Talvez sim. Talvez. Noites sem conversas longas ao telefone, mensagens frias, sem “eu te amo” ou outras frases melosas, feriados sem companhia, filmes e pipoca.

Será que era tão ruim assim? Será que eu quero mesmo me desacostumar com os rituais de um quase-noivado, um passado recente, ainda quente? Não sei. Ganhei a chance de viver minhas amizades sem limites de tempo, lugar e teor alcoólico, e perdi a encrenca de dar explicações no domingo à noite. Tenho a meu favor a juventude, mas contra mim há a experiência. Estou livre da liberdade que me prendia. E agora?

[...]

Tanto faz. Acabei de receber uma mensagem, um convite, churrasco na casa do Marcão, com a galera toda. Hora de levantar, viver o fim de semana e sentir o gosto de outras ressacas. 


IMAGEM: http://www.chivalryclub.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/11/ressaca-1.jpg

domingo, 11 de novembro de 2012

Do escritor



Vou me limitar a não lhe dar mais detalhes da minha vida. Sou cronista, e isso é o que importa neste momento. Sou cronista, gosto de escrever, analisar, opinar até, sobre temas do cotidiano, com apreço às atualidades, os chamados factuais. Minha carreira é relativamente longa, e eu gosto muito do que faço. Meus amigos também, a ponto de me sugerirem escrever um livro.

Da primeira vez em que ouvi esse pedido, refleti, mas não direi o que defini, apenas deixarei o leitor livre para adivinhações.

Há alguns anos, quando era jovem, disposto, cheio de empolgação e carente de bom senso, tentei por vezes iniciar uma história que rendesse quatrocentas páginas. Nunca passava da primeira, pois o fôlego se esvaía a altura do parágrafo doze. Às vezes, treze. Triste analogia da minha vida. Descobri que todo escritor, mesmo tentando se esconder atrás de suas palavras, acaba revelando de si mais do que imagina.

Como eu posso escrever um livro, se minha mente se limita a páginas? A minha vida não passa de tiros curtos, um seriado. Ligue a TV hoje, para me acompanhar, e não importa se acompanhou o episódio anterior. Eu não sigo uma linha, minha trajetória é ramificada, de um jeito que nem eu consigo esclarecer. Colcha de retalhos, que não me protege do frio da solidão perene, que nenhuma companhia temporária consegue aquecer o bastante.

Meus amigos vão ficando pelo caminho, transformam-se em marcas de um passado inesquecível. E eu acabo os esquecendo. Já sei que o difícil não é a conquista, e sim o cultivo, mas não acho forças para aprender. Amores? Meus melhores textos, com certeza. Tanto os de devoção, quanto os de desilusão, que dizem, rendem as frases mais eloquentes. Amores! Passados! Sempre assim, recortes. Grandes romances? Sou passageiro. Se eu ainda guardo em mim alguma em especial? Interessa, se não me interessa querer mais do que já tive?

Pingo minha presença ali, aqui, acolá, e assim vou deixando meu rastro leve, que o vento apaga com um sopro forte. Minha marca é meu nome que assina as crônicas, que ninguém mais lê. Nem eu mais as suporto, nem a ideia de que sou um alguém que nunca vai poder escrever sobre permanência. Não sei se me orgulho disso, ou repudio completamente. Por enquanto, eu prefiro ser um escritor de pequenos versos inteiros, a reproduzir a minha incompletude em centenas de páginas vazias.

Mesmo assim, meus amigos ainda insistem que eu escreva um livro. Quais amigos? Os de hoje, pois os de ontem eu não sei por onde andam.



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Cacos


Era uma manhã qualquer de fevereiro ou março, quando aquela rotina começou. Uma onda, que contrariou a Física e carregou matéria, de um mundo lá fora ao mundo aqui dentro, atravessando uma vida de espera tácita, oculta, onírica para alguns. Pra quem entrou ali com receio, tímido, pensando que seria alvo de julgamentos, apenas pelo fato de serem estranhos no ninho, até que nos adaptamos bem. Contamos com ajudas pra isso.

Não demorou nada. Quando vimos, aqueles lugares eram nossos, o chão era nosso quarto, a luz era um acessório pra nossas conversas, e as vozes já se cruzavam, formando um bizarro coro dos contentes, por ali estarem. Casa? Era a terceira, ou segunda. Ou mesmo a primeira de muitos ali, que dormiam e acordavam ali, com a mesma liberdade do sofá da sala. Era só jogar os tênis e desmaiar. A certeza de acordar com algum dos seus ali, ao lado, falando ou tocando violão, era o bastante pra fazer ficar.

Ficamos. Ficamos tanto, mas tanto, que até ousamos a desenhar um “pra sempre” naquelas paredes, cheias de gravuras, fotos e marcas do nosso tempo e de outras épocas. Acreditamos nisso. Acreditamos na eternidade de uns abraços, na força de palavras, na vida longa das atitudes. Salvo alguns racionalóides, ou talvez céticos, todos nós perdemos de vista a realidade, de que tudo, um dia, mudaria de estado. As coisas são assim. Transformação.

Hoje, não apenas hoje, bate a nostalgia, em quem também mergulhou nessa imensidão ilusória do “pra sempre”, e enxerga com tristeza a verdade. Nós mudamos, amigos. E muito. Alguns nem nos reconhecem, ou nem conseguem se ver como antes. A vida é dura, e o tempo é cruel demais, com tantos parentes dessa família imensa, que se dividiu, se repartiu, se segregou.

Não é hora de apontar culpas ou culpados. Cada caminho começou a se separar, ou desmagnetizar, e o que era um grande bolo se dividiu em pratinhos de brigadeiro. Um todo que se transformou, deu origem a partes até mais sólidas, mais fortes. Saldo positivo. Mesmo assim, aquele todo faz falta. E não falo de amizades verdadeiras, eternas, blá blá blá. Falo da companhia, do “nada pra fazer” de toda tarde, do canto desafinado, das risadas, das frivolidades de uma juventude que se descobre a cada dia. Quem é que consegue viver sem besteiras?

As circunstâncias fecharam, por um tempo, esse lugar, esse mundo, que nos acolheu com carinho e aconchego. E agora, quem voltará? Cada um no seu canto, vivendo suas próprias carreiras, suas vontades, seus sonhos, aqueles que nos trouxeram e, consequentemente, nos uniram por aqui. Quando ele for reaberto, quais serão os cacos a reconstruir o passado, e evitar que o “grande encontro da turma” demore demais, se possível for? Quando ele for reaberto, quem mais terá o privilégio de construir a mesma história, mais uma vez, como há tanto tempo nós fizemos?


sábado, 27 de outubro de 2012

Poderia dar certo...




Lá vem você de novo, enchendo meu saco, já tão cheio e maltratado pelos trotes da vida. Não tenho mais paciência pro mundo, muito menos pra você. Mas não me leva a mal, pequena. É pessoal, mas nem tão grave assim. Infortúnios, a gente encara mais de cem todo dia, mas sempre vale negociar. Com você não, e nem assim eu consigo me estressar. Tudo bem até aqui, mas eu gostaria de te dizer algumas coisas, ao invés de implorar aos berros nervosos que você saia da minha vida. Eu já sei que não adianta. Só me ouve, por favor, e depois você vai decidir se ainda vale a pena mendigar atenção nessa fonte, já seca faz tempo.

Você é linda, e sabe seduzir como ninguém. Esse teu jeitinho ninfeta, inocente com veneno escorrendo nos lábios, soube me laçar feito um touro brabo, sedento por carne nova. Você é linda, não mais do que isso. Pra mim, sexo é fundamental, mas não vale nada, se eu não puder desfrutar do teu corpo nu, coberto apenas com uma das minhas camisetas de banda, indo ao banheiro pra escovar os dentes.

Poderia dar certo, mas você é bem chatinha, sem ousadia, uma burra que não sabe usar as armas que tem pra fazer qualquer homem viciar em você. Tanto potencial pra nada. É simples demais, tímida demais, de menos demais. Nem teus olhos verde-água são capazes de te prender na vida de ninguém. Depois da transa, se vestiu com suas roupas e seu pudor, aquele que eu pensei ser parte da sua personagem, e apenas isso.

Poderia dar certo, mas seu papo é estranho. Eu, que nunca li demais, me perco nos teus discursos babacas emocionados sobre arte moderna, ou sobre o último filme do Woody Allen. Sou crianção, dos que assistem animações da Pixar só curtindo um baldão de pipoca com guaraná, e não comentando, a cada cinco minutos, quem foi Steve Jobs. Sinceramente, não acho que você vá ficar sozinha nesse universo, muito pelo contrário. Agora, com certeza, sua companhia não sou eu.

Poderia dar certo, se eu tivesse visto em você o que eu vi naquela loiraça, na noite seguinte, na mesma festa onde nos conhecemos. Entenda, eu não a conheci demais. A diferença entre vocês duas é que ela entendeu isso. Com você, aquelas duas semanas foram arrastadas. Não vem dizer que não percebeu, porque eu fiz o meu melhor pra que você notasse que aquela piadinha do padre não foi engraçada. Quer dizer, talvez você não tenha percebido mesmo.

Poderia dar certo, mas você é insistente, cega, se priva da verdade, pelo comodismo de se sentir querida. Meu amor, acorda um pouco, você é tão estudada, inteligente. Não deixa outros homens, nem qualquer outra pessoa, duvidar da tua lucidez. Relacionamento é reciprocidade, e se o primeiro momento não é recíproco, nem o segundo, não dá. Se nem o terceiro for, corra!

Ah, eu sei que poderia dar certo. Mas, simplesmente, a gente não combina. Eu poderia tentar, mas não quero. Você poderia entender, mas não quis. Acontece, não é maldade minha, nem somente ingenuidade sua. Simplesmente não rolou a química, aquela gíria adolescente, que faz sentido em qualquer idade. Não se culpe, pois eu não vou. Me odeie, me ignore até, mas me deixe seguir sozinho, até quando eu decidir que é a hora de abrir meu banheiro pra outra pessoa, que saia de lá com uma das minhas camisetas de banda.

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sábado, 20 de outubro de 2012

Eu acho


Tem gente por aí que gosta de dar opinião sobre tudo. É sobre a crise na Europa, é sobre a Seleção na Olimpíada, é sobre eleições. Até mesmo sobre a vida alheia. É um “eu acho” daqui, um “pode ser que” ali, um “com certeza é isso” acolá, e nessa brincadeira, muitos acabam confundindo o seu direito de pensar do direito de se proteger do outro. De tanto opinar, tem gente que se acha parte da vida do seu bode expiatório.

Na verdade, todos já fomos, somos e seremos comentaristas do espetáculo da realidade, um dia. Ao nascer, mesmo sem saber seu próprio nome, e às vezes sem ter nome, o indivíduo assina dois contratos: um lhe permite fechar suas janelas para que ninguém olhe o que acontece na sua cozinha, e outro que lhe obriga, sem forças, a abri-las. Qual vence no final?

Contradição, sim. Estamos expostos ao julgamento de todos, inclusive aos de nós mesmos, pelo simples fato de termos nascido. É o sistema, que não permite o absurdo da privacidade. É por isso que nos achamos seguros em dizer que fulano não ficou bem com aquele tênis verde-limão, ou que a Rita está indo longe demais na novela das nove. Só tem um detalhe: “exposição” não quer dizer “espaço”.

Qual é o direito que alguém, que às vezes nem conheço, acha que tem em me criticar? Ou em me elogiar? A mão-dupla da opinião pública é cruel. Quando elogia, tudo são flores, mesmo se vierem do monstro horrendo dos seus sonhos de criança. Quando xinga... Esse tal de ser humano, bicho vendido, facilmente dobrável aos aplausos da plateia. Só aos aplausos.

Comentaristas de coisa alguma nós encontramos em toda esquina, vestidos de uma propriedade imprópria e de um conhecimento tão ralo. Mas a empáfia não os deixa perceber que, na verdade, o máximo que conseguirão, além de falsos parceiros de opinião, são risadas de quem realmente sabe do que você não entende. Ter impressões de algo todos temos, o que não serve de aval para achar que são capazes de mudar alguma coisa.

Poucas opiniões realmente valem alguma coisa nesse lixão de bilhetinhos e pitacos. Aqueles que importam ficam, e isso só depende da sua filtragem. Nem precisa ser nenhuma personalidade midiática para ser vítima de tantos olhos e línguas nervosas, loucas para despejar achismos. Bom, pelo menos é o que eu acho.


IMAGEM: http://1.bp.blogspot.com/-3ZjF2m_6oVo/T76J0QXiB1I/AAAAAAAAATg/HZq9VxgQrug/s1600/opini%C3%A3o_MAV.jpg




domingo, 14 de outubro de 2012

Feliz ano novo


Já posso ouvir os sinos batendo, as pessoas chegando do mundo afora, enchendo a minha sala, o clima mudando. Pisquei e o ano passou, voando, rápido como um filme acelerado, nem percebi. Hoje eu percebo o quanto eu vivi nesses últimos doze meses, e o tanto que andei. Andei até cansar, andei sem cansar. E hoje tá tudo diferente por aqui.

Na verdade, faz um tempo que o clima dessa terra vem mudando depressa. As pessoas lotam o comércio, os shopping centers, atrás de presentes e roupas novas, porque festas como essa não acontecem todo mês. É um mundo aqui dentro, que enfeita as casas, com cores e muitas luzes. Aliás, quanta luz! Andar por aqui é dar um respiro de alegria aos olhos, que se perdem em tanta profusão cromática. Cores, muitas, todas.

Nas praças, minilâmpadas já dão o tom. Na minha cozinha, mesa farta. É um daqueles dias em que o melhor lugar pra ficar é onde tem comida. Alimento para os olhos, para o corpo e para os ouvidos. Cânticos clássicos no rádio, e todos lembram de quando eram crianças e ouviam, cantarolando, os versos da canção. Exaltação.

Todos ali, em volta da sala, conversando sobre o tempo que passou ligeiro. Como ele cresceu! Tá namorando? Que saudade do meu sobrinho! Todos ali, esperando a hora chegar. Todos ali, numa contagem regressiva. Expectativa, ansiedade, gratidão. Já que o ano está pra acabar, é hora de parar um pouco, fechar os olhos, olhar pra trás e agradecer.

Pelas vitórias, pelas surpresas boas, por cada sim, até mesmo por cada não, muito obrigado. Pela chance de andar todos os dias, pela oportunidade de abraçar, de beijar quem eu amo, de fazer o que gosto, muito obrigado. Por um tempo de paz, por mais comida na mesa, por comida na mesa e dignidade na carteira. Por mais doze meses.

E esses fogos que já estouram no céu? E essa chuva de papel picado? São os sinos pequeninos de Belém batendo forte, bradando alto, chamando todos a comemorar. Desafetos que se abraçam, problemas que se resolvem. É hora de esperar o que virá, é hora de renovar a esperança, os pedidos, as desculpas, a gratidão. Amanhã é outro dia, outro tempo, outra história. Já é hora de esperar o próximo encontro.

Feliz ano novo.



FOTO: Gustavo Ferreira

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Outubros



O segundo domingo é dela, é domingo de Círio. O segundo domingo é domingo de encontros. Um encontro de um com outro, de grupos, de cores, de desejos e gratidões, tudo junto, misturado em ruas estreitas, onde cabem milhões. Nem a Física explica como dois milhões conseguem dividir o mesmo lugar no espaço. Nada é exato, enquanto é Círio. Apenas a certeza, quando a berlinda cruza nossos olhares, de que já é outubro.

É outubro quando as luzes se acendem, brilham multicoloridas, espalhadas por todo canto de Belém. Cores do açaí, do tucupi, do verde que a Amazônia ainda ostenta, um verde ainda forte, ainda nosso. Ainda. Um céu azul que espera, com nuvens brancas, levemente acinzentadas, o povo passar pra chuva cessar. Quando o arraial gira gira todas as cores, na roda gigante do tempo, que sempre volta ao décimo mês.

É outubro quando o cheiro da maniva cozida gruda nas paredes de toda casa, quando o pato é assado, quando a mesa se farta de alimento e de família. Todos ali, vendo a santinha passar da sacada, louvando e se unindo em oração, vivendo mais um almoço do Círio. Ou jantar, ou lanche, que seja. A maniçoba já está pronta.

É outubro quando não se fala em outra coisa por aí. Os cartazes estampam as portas, as janelas, convidam o mundo a entrar e passear conosco. Quando, em todas as rádios e TVs, a pauta do dia é Círio. Quando a ansiedade fica mais forte, pois o reencontro está cada vez mais próximo. É logo ali, é amanhã, é hoje!

É outubro também quando vemos, em cada oração, uma convocação. Em cada peregrinação, um chamado. Em cada missa, um sinal de que estamos com a casa arrumada, roupas novas e a mesma vontade de ver o mundo, por alguns minutos, embaçado por lágrimas que caem sem aviso, sem vergonha e sem limites. É outubro quando os cânticos ecoam, os hinos viram hits. É outubro quando prestamos conta do que vivemos, fizemos e deixamos de fazer. Quem disse que, em Belém, o ano termina em dezembro?

Aqui, é outubro em janeiro, março, junho, setembro. É outubro o ano todo. Acordar às 5, caminhar pelo dinheiro no fim do mês, empurrar a berlinda da família, enfrentar milhões no caminho, e mesmo assim, depois da procissão nossa de sempre, chegar em casa e sorrir, pedir e agradecer por ter vencido a corda do tempo. É outubro a cada vez que um pai abraça seus filhos, a cada sorriso sem motivos, a cada conquista. Nessa terra, meus amigos, é outubro todo dia.


domingo, 30 de setembro de 2012

Breve


Fábio era um rapaz comum. No geral, se vestia com um jeans envelhecido, um tênis encardido e uma de suas camisas de botão, que adorava. O mesmo perfume barato, que usava há anos. A mochila quase rasgada, cheia de bottons e lembranças. O mesmo café da manhã reforçado, com dois pães, suco de uva, Coca-Cola e umas torradinhas com cheddar cremoso. Assim ia Fábio, pronto pra mais um dia de aula.

Estudava Jornalismo, e nada poderia ser mais bonito para ele. Um futuro no rádio, herança de seu pai, a “Voz da Cidade”. Ele adorava, se sentia bem, e estava ali, assistindo aulas de História do Rádio, aulas práticas no laboratório. Acabara de conseguir um estágio na estação universitária. Estava pleno, era feliz. Não completo.

Fábio não sonhava, ele tinha projetos. Não queria, buscava. Não se arriscava, se jogava. Queria montar uma rádio onde só tocasse clássicos dos anos 80. Não importava se, comercialmente, aquilo pudesse ser um fracasso. Ele só ia atrás. Dedicado, simples, voador. Assim era Fábio, um pequeno grande homem.

Sua família sempre o apoiou, e ele seguiu, cheio de amigos, de verdade. A namorada, Elisa, era a melhor companhia que ele poderia ter. Futura publicitária, era combustível, freios e asas de Fábio. Sonhava junto, e vivia como se nada ali o impedisse de conquistar cada degrau que vislumbrava. A vida era pouco pra ele.

Ontem era um dia normal, comum como o próprio Fábio, que andava como quem passeava de bicicleta. Ia passando pelo posto de gasolina, quando avistou a loja de conveniências. Nem estava com tanta fome assim, mas resolveu entrar e comprar umas batatinhas. Entrou. De repente, entram dois jovens. Assalto. Tensão. Reação. Tiros. Um tiro.

Fim.



“A vida é breve, 
mas cabe nela muito mais
do que somos capazes de viver.” 
José Saramago

IMAGEM: http://imguol.com/2012/07/19/com-essa-serie-de-imagens-tentei-capturar-a-beleza-dessas-esculturas-de-vida-curta-que-consistem-em-99-de-ar-e-na-verdade-nao-possuem-cor-alguma-explica-o-suico-1342695057774_300x500.jpg

sábado, 22 de setembro de 2012

Cinco tequilas



É sábado, o dia oficial do “foda-se o mundo, que eu quero me divertir”. A noite em que cada um vai atrás de ar, depois de uma semana recheada de chefes escrotos, professores que pensam que você é robô, namoradas choronas e família que te cobra o mundo. É a noite onde cada gota de álcool é benta, perdoada pelo Papa e por qualquer outra santidade, a não ser as mais puritanas. Quem é puro em um sábado à noite?

A corrida pela mesa, aquela em que caibam todos os seus amigos e suas respectivas vontades de viver intensamente aquela noite. A corrida pelo garçom, que pira tentando matar a sede e a fome de tantos outros jovens como nós, desejando como nós, se divertindo como nós. O lugar tá cheio, a música é boa, e as companhias fazem valer cada minuto. Mas a noite ainda não começou. Não enquanto o teor alcoólico for zero.

Peço o cardápio, mas nem ligo pros pratos. Os copos me apetecem mais. Eis que vejo ela, minha linda, meu amor. Levanto e vou ao balcão, e obviamente não vou só. A galera da gelada fica na mesa, e eu guio uns cinco ou seis até a primeira tequila da noite. Apenas a primeira. Arriba, abajo, al centro e adentro! Não gosto de limão, mas nem ligo. Se o mundo começa a rodar? Ainda não. Na próxima, com certeza.

O sal nem faz diferença, é mais cabalístico, mítico, ritual. Com a segunda em mãos, ainda consigo enxergar meus amigos. O riso vem fácil, e a voz começa a ficar mais alta. Não só a voz. É como se ali, aos poucos, a gente começasse a se libertar do sufoco de toda segunda, terça, quarta... É como se ali, quase na terceira, a raiva que guardamos daquele patrão filho da mãe fosse canalizado em interjeições de alegria, gritadas cada vez mais fortes, mais eloquentes. UHU!

Voltar à mesa? Difícil. A galera continua lá, rindo, e interagindo com a gente, mesmo um pouco longe. Estamos bem longe na verdade. A mão cheira à limonada, e a garrafa já está quase no fim. Que se dane! Hoje é sábado, dia oficial do “foda-se alguma coisa”, esqueci. Se esqueci, to bem demais. Era isso o que eu queria. A cabeça gira, mas as lembranças da semana desgraçada que tive já foram. Desce a quarta. Desce, ou sobe, sei lá, não importa. Bora beber mais essa!

Incrível como eu sou expansivo. Olha eu, fazendo amizades na beira do bar, com quem nunca vi. Mas de ti eu lembro, és a menina comportadinha da turma, que mal fala e agora tá quase tirando a blusa. Que delícia, hein! Queria que todas aquelas gostosas do estágio fossem assim, mas sem tequila. São umas entojadas, insuportáveis, chatas pra cassete. Vem cá, Cris. Cris? Opa, foi mal. Vem, Dani! Mas não vale vomitar em mim, que o dia é meu de botar toda coisa ruim pra fora.

Ei, garçom, traz mais uma, porra! Tem gente aqui que não se garantiu e voltou pra mesa. Fracos! Fracos pra caralho! Tô nem aí, eu quero mais uma. Arriba! Abajo! Arrajo! [...] Caralho! Essa foi foda! Quase não volto, doido. Ei, EI, VEM AQUI, PORRA! Vem que ainda tem uma garrafa inteira pra gente, porra. Sacanagem de vocês. Hoje é sábado, merda.

Quer saber? Eu vou aí pra essa mesa, rir dessa vidinha patética de vocês. Se eu dormir, é porque vocês são muito chatos, cara. Me levem pra casa, mas só me acordem na terça. Odeio as segundas. 

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sábado, 15 de setembro de 2012

Nuvem de chuva




Hoje o dia estava calmo, o céu estava azul, o sol brilhava todo cheio de si. Era como se a rotina, depois de muitos meses de recuperação, enclausurado naquele quarto gélido, voltasse a ser agradavelmente chata. Era a minha rotina. Meus pés estavam no chão, fincando meu corpo à realidade, como há muito desejei.

Ainda estava em recuperação, mas arrisquei. Saí correndo pelos corredores, desci e ganhei as ruas sem proteção, nem guarda-sol nem medo de insolação. Respirei o meu ar cheio de cidade, de carbono e barulho. Era tudo tranquilo, no meu ritmo mais esperado. Estava vivo. O baque foi forte, capotei em decepção, demorei a me recuperar. Para respirar, precisava de tubos de esperança alheia, soro de conselhos. Coma.

E hoje, logo hoje, quando achei que estava pleno, recuperado desse trauma que destroçou meu corpo e meu coração, lá vem ela. É, ela mesma, aquela infeliz que me fez feliz, me desgraçou e agora, como se tivesse o direito de viver no mesmo lugar que eu, aparece em minha frente. O sol não se fechou, mas minha cabeça se cobriu por uma nuvem, de chuva forte, e toda a minha fé se tornou água escorrida.

A mesma água, que embaçou minha visão, encharcou o para-brisas e me fez bater. Como ela se atreve a voltar? Como ela se atreve a fazer chover sobre mim novamente, como naquela noite doente? Estava recuperado, e agora volto a ter febre. Ela só passou, nem me olhou, mas infelizmente foi vista por mim. Infelizmente, foi amada por mim.

Não dá. Preciso voltar ao soro de conselhos, dos enfermeiros que chamo de amigos, de todo o aparato médico, do qual dependi nos últimos meses de solidão e negritude. Estava seco, agora me deparo com uma figura deplorável, no espelho da minha vida. Essa nuvem não podia passar agora. Não agora, enquanto ainda não estava convencido da minha cura. Nem me dei conta disso. Agora, sinto frio. Após a chuva, só resta o frio.

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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Normalidade


Ela achava sua vida incrível, pessoal, muito sua. Ele achava tudo normal. Um par, dois amigos, namorados, quanto mais se amavam, menos tinham se amado. Era o segundo posterior que sempre valia mais que o anterior. Um ciclo, bola de neve, de algo tão bom, de fazer os olhos dos outros brilharem. De inveja, inclusive. Mas isso não vem ao caso.

Ela queria mais, sentia fome de algo mais, não cabia naquele quadrado arredondado chamado coração. Queria mais cabeça. Era mais razão, transpiração, contato, diversão. Caio era um rapaz sem arestas, cumpria seu papel com dignidade, sabia fazer Mariana feliz. Cozinhava bem, escrevia belas cartas, sabia tocar violão e era bom de cama. Mas ela queria mais, e isso não estava sob o controle de Caio. Ele continuava achando tudo normal.

E nessa brincadeira do tempo e da febre, Mariana conheceu outros rapazes, mas nunca pôde prever que aconteceria: ela acabou se apaixonando por um deles. O que era apenas sexo casual se tornou o maior dos pesadelos de sua vida. Ela se sentia confusa, com medo, acuada. Como dividir suas atenções com dois homens tão diferentes? E como se afastar do amante, se ele era tão bom? Como encerrar um namoro de um ano por algo que nem ela sabia ao certo definir. Caio nem imaginava, e seguia sendo Caio. Ele ainda achava tudo normal.

Peso. Só aumentava o peso da tristeza nas costas de Mariana. Tanta vontade resultou na falta de plenitude. Não era completamente entregue à nova paixão, nem era inteiramente namorada. Dividida, mas não em duas. Eram cacos. O abatimento já era notório, e Caio não achava mais tudo tão normal. Ela buscava forças, coragem, para enfrentar o que era mais forte do que seus pudores: seus desejos. Caio não a merecia mais, era um sujeito limpo, ao contrário de Mariana. Então, ela fez sua escolha.

Mesmo assim, demorou para que chegasse o dia para Mariana. Ela estava pronta, decidida a ser honesta com um homem que lhe dedicava tamanho amor e cuidado. Até choveu, pra ficar mais traumático e clichê. Então, chegando ao apartamento dos dois, pensando que sairia aliviada, mesmo destruída, encontrou um grande vazio. Não, não tentei ser eloquente ou poético. O lugar estava mesmo vazio. Sem os quadros, sem televisão, sem roupas e joias. Nada. Nada além de um bilhete:

“Sabe, Mariana, eu não queria que fosse assim. Éramos tão amigos, e faltou o principal de uma amizade: franqueza. Faz uns meses que eu percebi que você estava diferente, e resolvi tentar achar o motivo, pra te ajudar. Acabei descobrindo tudo. Uma pena. Não vale a pena contar o quanto sofri, mas eu preciso te dizer que tive sorte de conhecer alguém melhor que você. Fomos embora, e duvido que você consiga nos achar. Na verdade, duvido que você queira isso, até porque sua vida deve estar perfeita. E você achando tudo normal”.


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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dedicatória


Hoje eu resolvi te presentear. Afinal de contas, você merece, merece até mais. Tudo o que eu puder te oferecer é singelo, perto da sua grandeza e da sua presença em minha vida. Desde muito tempo, você soube muito bem como compartilhar minhas maiores conquistas e, também, as mais dolorosas quedas. Esteve ali, na espreita, pronta para dar o ar de sua graça, serena, sorridente. Esteve sempre ali.

Meus amores, meus desamores. Meus vôos e meus pousos forçados. Você, de alguma forma, participou de tudo, como causa e conseqüência. Até mesmo meus amigos você cativou, ao longo do tempo. Sim, você conseguiu invadir o meu espaço, de tal forma que, por vezes, eu me senti imóvel, incapaz. Impotente fui eu, imponente foi você.

Uma relação dúbia, incerta, que machucava e, por incrível que pareça, me alimentava, lustrava meu ego, me fazia maior. Que tipo de união é essa, que não sabe se faz bem ou se faz mal. A cura ou a doença? Pensando bem, posso ter sido vítima o tempo todo. Pensando bem, podes ter sido a grande perdedora nessa história.

Então, quando resolvi te presentear, sofri tentando encontrar o presente que mais se encaixava a você. Levei horas pensando, pensando, pensando... Opções foram inúmeras. Um abraço? Um aperto de mão? Frio demais. Uma flor? Um buquê? Muito. Um beijo? Se você, ao menos, desviasse sua atenção da minha vida e atentasse para minha boca, quem sabe. Nada material, você não precisa, não é isso que você quer, ao fim e ao cabo.

Mas o que você realmente deseja, ah, isso você nunca terá! E me agradeça, pois essa é a sua ração: o impossível. Você, infeliz, que busca em mim o que nunca será, e que sempre me cercou, desde antes de eu entender como o jogo da vida funciona, não merece flores, nem abraços, nem beijos de desdém. Meu melhor presente a você é seguir a minha vida, do meu jeito, como você mais odeia e ama. Se nunca vamos nos separar, que a convivência continue sendo como é: que eu te alimente, mas que você nunca se alimente de mim.


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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Morena

Ah, Morena, eu tentei te avisar. Eu juro que, todas as vezes em que nossas últimas brigas começaram, eu tentei te dizer o quanto elas seriam equivocadas, prevendo o fim de cada uma, prevendo o fim de tudo isso. Sempre assim, o mesmo motivo, que nem eu nem nós poderíamos explicar. Ele está aí, na sua cabeça, sempre esteve. Como um prego, martelado por alguém que deveria estar ao meu lado. Não podemos mais.

Não sei mesmo se isso foi armado por alguma amiga sua, que nunca gostou de mim. Talvez a Lurdinha, mas eu não vou acusar ninguém. A culpa não foi dela. Talvez você sempre desejasse enxergar o que enxergava em mim, mesmo eu nunca abrindo espaço para fantasias, muito menos desse tipo. Caímos em uma armadilha do acaso, e dela nunca mais sairemos inteiros.

Por quê? Morena, por quê? Quais eram os sinais da minha infidelidade, sinais que só os seus olhos insistiam em ver em mim? Quais gestos te incomodavam? Quem era o bode expiatório?  Nunca consegui entender você. Era medo do meu passado? Insegurança com o futuro? Podia ser tudo isso, mas você fazia questão de mascarar esses anseios em ciúmes, suspeitas infundadas em, não sei, proteção exacerbada, talvez? Posse? Mas eu já era seu. Não precisava me prender para isso.

Nossas brigas, todas pelo mesmo motivo, me cortavam nos últimos meses de nosso romance. Não era assim no começo, amor. Nunca foi, mas a rua era seu pior inimigo. A rua, o tempo, seus fantasmas de uma relação mal sucedida. Eu estava ali para você, para ajudar você, ouvir você e dar a segurança de um homem apaixonado. Era assim no começo, você lembra. Mas não podia ser apenas seu, precisava viver os lados de fora do nosso apartamento. Pessoas comuns fazem isso.

Talvez esse tenha sido o erro: eu achar que era comum. Nunca abandonei você, Morena. Nunca. Eu ligava regularmente, mandava flores, era todo seu na cama, te fazia dormir, me fazia sonhar. Hoje eu choro, e você ainda não enxerga o motivo. Hoje eu choro, pois perdi a mulher da minha vida. Perdi para ela mesma. Você me perdeu, Morena.

Por muito tempo eu engoli, aceitei, tentei te entender, mas não achava motivos. Nem você. Eu nunca menti. Se hoje vou embora, pode ter certeza de que eu fiz o que pude para ficar. Fiquei, ouvi, suportei. Ainda te amo, Morena, mas não consigo suportar a dor da desconfiança, que aos poucos você foi depositando em mim. Se, um dia, a gente voltar a ser dois, torço para ser diferente. Senão, busque a felicidade no seu novo amor, e não o veja com olhos julgadores. Olhe para ele com olhos de verdade.



de Elvis Presley
por Elvis Presley


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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Eles


Cuidado! Não apareça, não se exponha. Eles estão nos olhando, eu tenho certeza. Eles olham a todos, todo tempo, em todo lugar. Ande com calma, meça seus passos, cronometre sua respiração e siga. Siga lento, e mantenha a atenção. Cada pedra desta selva, cada folha desta cidade, cada elemento do cenário está nos vendo. Somos monitorados por eles, impiedosos e indiscretos.

Sem ruídos. Por favor, tente fazer o mínimo de barulho, pois eles também nos ouvem, como sensores auditivos poderosos. Verdadeiros sonares, capazes de identificar as batidas aceleradas dos nossos corações temerosos. O clima é de medo, a esperança é de chegar ao fim da linha. Será que vamos conseguir passar incólumes pelo crivo dos olhos e ouvidos deles?

Não diga nada. Eles vão guardar suas palavras, e transformá-las em crocodilos pela nossa trilha, enlameada de mentira e um pouco de sorte. Vivemos ameaçados, por eles, por nós e pela nossa maldita coragem em desafiá-los. Até onde vamos, com essa empáfia? Não diga nada. Nossas vozes ecoarão e nos atingirão com força, e não podemos cair agora. Estamos rastejando no brejo deste mundo, mas não podemos cair. Eles não perdoam os fracos.

Mesmo assim, alvos de temor e ódio, por que ainda acreditamos neles? Não temos escolha. Continue andando, siga com cautela, até um lugar que nem nós conhecemos ao certo. Siga a passos curtos, precisos, sem despertar a atenção de ninguém. Lembre-se: todos aqui são olhos deles. Os nossos olhos também.

Vilões amigos, donos de si e de nós, eles nos controlam sem cordas. Usam do artifício mais torpe: a dependência. Nossos passos precisam de sua tácita permissão. Nossas atitudes são premeditadas por alguém que não conhecemos, porém conhece nossas vidas melhor do que nós mesmos. Estamos sendo vigiados pelo monstro da exposição. Mostramos mais do que devemos, mesmo tentando nos esconder. Eles sempre irão nos encontrar.


de Coldplay
por Coldplay



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domingo, 12 de agosto de 2012

Herói de carne e osso



Quando nós somos crianças, fantasiamos o mundo. As cores eram mais fortes e entorpecentes, como nenhuma droga contemporânea é. Os prédios eram mais altos, o céu estava mais longe, e sempre havia alguém que nos botava perto dele, com a facilidade e a leveza de um voo. A cada vez que nossos pais nos jogavam pro alto, era uma nuvem que nós sentíamos mais de perto.

Aquele que nos ensinava e nos inspirava, a sermos heróis de alguém, com força o bastante para elevar aos céus uma pessoa ou um sonho. O nosso sonho de sermos os mais fortes, os mais valentes, como eles eram. Ilusão? Deixa estar. O mundo de uma criança é um eterno filme de ação, onde alguém deve salvar a cidade e a sua vida de ameaças cruéis. O protagonista é sempre ele. O pássaro, o avião, o super-homem das nossas pequenas histórias.

Ensina a andar de bicicleta, e assim, vamos mais longe, mesmo com os joelhos ralados. Nos mostra como é sagrado chutar uma bola. Assim seguimos, querendo ser que nem eles, gigantes. Crescemos, porém, descobrimos, feliz e infelizmente, que todo esse tamanho diminuiu, foi ficando no caminho e se tornou realidade. Que aço, que nada! Nossos heróis são feitos de carne e osso.

Sim, eles se machucam. Sentem dor de cabeça, dor de dente, dor de barriga. Reclamam da grana apertada no fim do mês, suam pra conseguir a dignidade de uma vida confortável, lutam pelo direito de sonhar. Há dias em que ele não quer jogar bola com você, por cansaço. Eles se cansam. Sentir o peso de um mundo, chamado “família”, é puxado, é demais.

Sim, eles também machucam. Como pode o meu pai me dizer não? Pode, e às vezes deve. Ele grita, ele se aborrece, e até nos amedronta. Castigo. Perdão. Um herói que faz mal, sem querer magoar. Ninguém disse que ensinar seria fácil. Não é. A nossa vida, em formação constante e eterna, depende disso, por mais que nos assuste. Tem seus vícios, nos faz chorar, erra, tropeça, mas quem não erra? Ele é nosso espelho, completamente.

Mesmo assim, e talvez por isso, vendo a vida com clareza e sem tantos floreios juvenis, nós, filhos, consigamos enxergar o quanto aqueles heróis de anos atrás são gigantes. A cada dia, a cada suspiro cansado de fim de expediente, ele chega e, ali, nos abraça. Mesmo quando nem nos toca, ele está ali, perguntando como foi o nosso dia. Ele se importa. Mais com a gente do que com ele mesmo.

Um herói que se divide em dois ou mais, e consegue forças e disposição para nos sorrir e dizer “eu te amo”, mesmo se as contas não baterem, ou se o Mengão foi mal na rodada. Um herói que traz o céu pra nós, onde quer que ele esteja. É isso que um lutador faz, quando não luta apenas por ele. Pode ser feito de carne, osso ou aço. Pode ser alto, baixo, gordo ou magro. Se fica bem de capa ou não, pouco importa. Aqui, na cabeça de um filho, ele sempre será mais que um pai. Ele sempre será o meu herói. 



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domingo, 5 de agosto de 2012

Em meu lar


Alto, né? Chega a assustar. Daqui de cima, eu consigo ver tudo. As ruas, as luzes da cidade, até mesmo as pessoas, tão pequenas, tão distantes. Sempre venho aqui, quando estou bem, quando estou mal, não importa. Esse lugar me faz voar sem sair do chão. Quer coisa melhor? Parado em um movimento leve, sutil, que só percebo quando não toco mais os pés na superfície, e o ar me envolve.

Voo soberano sobre mim, meus sonhos estão ao lado, e meus desejos me seguem na mochila. Não há peso, nem hélices. Não quero descer, não agora, não hoje, enquanto o sol brilha e a lua acena pacífica. É, aqui de cima, tudo fica mais excitante. Não há o que temer. Como ter medo do que nos faz tão bem? 

Essas nuvens são frias, mas o passeio é incrível. Quando me vejo longe, penso no que está tão perto. Penso em mim, e em como tenho sorte. Eu escrevo suas linhas como se fossem minhas, desenho alguém que posso ter em um minuto, e imagino o real. Se minha casa não está ao meu alcance, há uma pessoa que está. Aliás, eu acho que não me sinto tão abraçado em meu lar do que aqui.

Onde ninguém me controla, não deixo rastros, apenas sumo, desapareço em meio à densidade da chuva que se forma. Brisa, temporal. Quem me enxerga daí? Só você. Eu só vejo você. Sabe, eu sempre esperei por você aqui, enquanto procurava uma companhia para meus passeios, devaneios. Te achei e, desde então, me dá mais gosto aparecer aqui. É como se eu tivesse mais motivos, agora automáticos, para saltar daqui e voar.

Minhas asas ficaram mais fortes, e o clima sempre se abre para mim. Tempo bom, condições perfeitas. Ou quase. Foi por isso que eu trouxe você aqui, pra te levar comigo. Voa comigo. Sei que posso te segurar, abrir suas asas e te levar até meu canto, nosso recanto, seu encanto. Não, não precisamos de combustível, nem de motor, ou Asa-Delta. Apenas vem comigo e pula. Eu te garanto que essa viagem vai ser inesquecível.




de Red Hot Chili Peppers
por Red Hot Chili Peppers


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terça-feira, 31 de julho de 2012

Canção de plástico

Tudo aqui é assim, nesta cidade com cheiro de plástico, gosto de plástico, pessoas de plástico. Irreal, talvez por isso mais assustador. Mais um dia com um sol, que mais parece uma lâmpada muito forte, iluminando um cenário planejado por grandes artistas modernos. As árvores estão ali, como que soldadas, em um chão plano, enfeitado com paralelepípedos de ilusão.

Uma selva de borracha, papel e sangue falso. Que sangue? O óleo de máquinas pensantes e programadas escorre pelos olhos, enganando lágrimas e fingindo mal. Homens abandonados à sorte de sobreviver de passado. Um dia, tudo isso foi diferente. Ninguém aproveitou. Nos sobraram casas sustentadas em mentira e areia.

Clausura. Prisão. Dói saber que o aperto de mãos não será firme, que o abraço será gelado, e que o coração não passa de um balão de ar. Pessoas que não existem, futuro que não surge, inércia. Estamos acorrentados pela falta de bom senso, a grandes pedaços de matéria petroquímica, sem escolhas. Somos androides, bonecos, brinquedos de nós mesmos. Pena que nunca aprendemos a brincar.

Preços, preços, taxas, preços, dinheiro, poder. Saber quem é? Não. Basta parecer que é. Vista-se com seu manto de coragem, encha o rosto de maquiagem e sinceridade. Vá às ruas! Seja! Essa é a regra, nesta terra. Amor é utopia, sentimento é exagero. Artificialidade instantânea, tempo que voa. Mentes paradas. Não há sonhos, apenas restos.

Quero fugir! As cores desta cidade encantam, são fortes, brilham com a voltagem de uma mente vazia. Quero fugir! Nenhum sorriso me atrai, nenhuma palavra consegue me dar realidade. Sou um projeto, querendo ser verdade. Aqui não é o meu lugar. É como semear vida em um chão infértil, de plástico. Meu coração não é de plástico, como as árvores falsas daquela canção.



de Radiohead
por Radiohead




Imagem: http://talecoisa.blog.terra.com.br/files/2010/08/arvores-de-plastico1.png

terça-feira, 24 de julho de 2012

Antes do dia seguinte


Um pedido. Uma bala. Uma vida.

É só isso que a gente tem, do início ao final de tudo. É o tempo que há para que, enquanto correr sangue nas veias e no coração, irrigando nossos corpos, temos a chance de ser o que fazemos. Vida é escolha, não comparação. Se ela vai ser prazerosa ou não, e quanto vai durar a brincadeira, ninguém sabe. Às vezes, nem nós.

Sustos. Cartilhas de “Como ser feliz hoje” existem aos montes por aí – e o horóscopo do dia é um ótimo exemplo – e, vocês sabem, nem sempre funcionam. Exceto àqueles que preferem ler só o que querem. Não que seguir regras seja ruim. Bem e mal são objetos lapidados pela vontade de cada um. E você pode até achar que se contenta com uma, até perceber que não é bem assim.

A isso, chamamos de acaso. Casualidades existem para dar sacudidas na rotina de alguém. Ponto. Se, depois de uma, toda a sua vida mudou, a casualidade deixa de ser o motivo, e vira apenas um estopim. Vontade repentina de sentir outro vento, de pular de nuvem, de pular de uma, ou algo assim, regado ou não a doses de uísque e vodka, e pronto. E ponto.

Às vezes, parece que nós gostamos de tornar complexas coisas que nasceram para ser simples. Diversão, por exemplo. Não precisa mudar seus ideais, seus parâmetros de vida e suas preferências, para ser prazeroso. Nem deve te tirar do lugar para te tirar do chão. Guardando lembranças boas, o resto pode continuar o mesmo. Bolhas. Toda rotina precisa delas.

Nem toda rotina tem. Os pais chamam de “educação”; os padres, de “moral”; para os avós, é “vergonha”. Tudo isso pode se resumir em uma palavra só: medo. É, medo que você nem sabia que tinha, medo de mudar, medo de ser maior do que é, medo de curtir a vida. Acontece, todos temos os nossos e precisamos deles, senão o mundo seria um caos. Agora, que todos fiquem cientes de que, por conta dele, muitas coisas podem não ser aproveitadas no caminho.

Pensando bem, é sempre assim, seja qual for o trilho escolhido na bifurcação.

Conceitos não precisam ser trocados, mas por que não adicionados? Viver é riscar experiências realizadas de um caderno, mesmo quando escrevemos o que foi vivido um segundo antes de riscar. Coisas que descobrimos sem imaginar descobrir. O que precisa ficar diferente? Simples: apenas mais uma aventura na lista. Bolhas.

Se só há um pedido, peça para que ele se transforme em cem. Se só há uma bala, ninguém é obrigado a gastar mirando em uma pessoa, um sonho, um objetivo – pelo menos não sempre. Se só há uma bala, e você quer ter o que contar aos seus netos, atire no galão de gasolina e vai brincar. O dia seguinte é sempre, e só, o dia seguinte. 


IMAGEM: http://www.gonzalojalonso.com/wp-content/uploads/2010/08/salto.jpg