domingo, 18 de dezembro de 2011

Um menino chamado Jesus


Era uma vez, em um lugar muito distante do sertão, uma família humilde. Um homem sofrido, que trazia nas mãos os calos, e na testa o suor de uma vida dura, sob o sol do Nordeste. Uma mulher guerreira, que sustentou cinco crianças, hoje na capital, e está pronta a dividir o pouco que tem com o mais novo membro da prole.

Em uma noite estrelada, sem pedir licença, a mulher sentiu que era a hora. Com a ajuda do marido e de uma vizinha, senhora simpática, amiga da família, a mãe deu à luz um garoto chorão, cheio de vida. Talvez a última esperança de que alguém daquele solo seco vingue na cidade grande.

Nasceu Jesus. O menino cresceu ali, brincando entre os galhos secos e a terra árida, olhando sempre para o céu sem nuvens, imaginando o que não sabia nominar. Um mundo mais bonito do que a miséria que lhe cercava, e que martirizava aquela gente. Ainda não sabia como, mas já queria fazer mais do que os limites da pobreza lhe impunham. Seus pais ainda trabalhavam, porém sem a disposição de outrora. O tempo fora cruel com os dois.

Até que Jesus cresceu, e quis conhecer a cidade grande. Seu pai, já um velho doente, acamado, lhe chamou um dia e, tocando em sua face, com os olhos cheios de lágrimas, o disse: “Vai, meu filho! Vai e cumpre tua missão”. Jesus também chorou, e abraçou seu velho com a ternura de um filho que se despede do maior exemplo. Foram as últimas palavras de seu pai. Jesus não queria partir, deixando sua mãe sozinha. Ela insistiu:

“Meu filho, você nasceu para fazer os outros enxergarem melhor, enxergarem um mundo mais justo. Seu lugar não é aqui. Vai em paz, vai com Deus, meu pequeno”.

Jesus partiu, prometendo voltar e tirar a mão da miséria do sertão. Chegando na cidade grande, o jovem abrigou-se na casa de uma velha conhecida da família, em um lugarejo bem simples, que sofria com mazelas além da fome e da pobreza. O crime imperava, em todas as suas piores faces. Assaltos, mortes, drogas. A realidade mais crua Jesus conheceu. Triste, comparava a favela ao seu chão natal. Notava que precisava fazer alguma coisa.

Com muito sacrifício, Jesus trabalhou, juntou um dinheiro e estudou. Começou a descobrir um novo mundo, e o seu próprio. Jesus estava munindo-se da arma mais preciosa que alguém pode ter: o conhecimento. Começou a se engajar em mudar a situação daquele lugar. Participava de reuniões, de passeatas, se envolvia de corpo e alma na “missão” que seus pais tanto disseram que ele recebera.

Lutava com unhas, dentes e palavras, contra a insegurança e o medo na favela onde vivia. Lutava. Com o apoio do povo, Jesus reunia muita gente, vítimas do terror cotidiano da violência dominante. Lutavam. Por um dia seguro, por uma vida tranqüila, pela certeza de que voltarão para casa no fim de tarde, após um dia de trabalho. Jesus era líder, era exemplo. E sabia dos riscos que corria. Contava a vida a cada 24 horas.

Um dia, não conseguiu completá-las. Morreu, pelas mãos de um traficante. Morreu, pelas mãos do crime, que tanto tentou combater. Jesus morreu, deixando a lição de que cada um deve fazer a sua parte. O menino pobre do sertão, que venceu na vida através da educação, e deu a vida pelo seu ideal, venceu. Caiu vencedor. O povo da favela nunca mais foi o mesmo. Agora eles têm voz. E um exemplo de superação, de abdicação, de fé.

O corpo foi, as palavras ficaram. Palavras que hoje ecoam, servindo de instrumentos de transformação da humanidade. O mundo é um grande sertão, e a nossa missão é fazer chover. Essa foi a missão de Jesus. Fazer chover bondade sobre todos nós.


IMAGEM: http://www.miniweb.com.br/geografia/Artigos/geo_mundial/imagens/favelas.JPG

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