quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

No fim do corredor


Mistério. Eterno enigma cor de mel, viço infinito, sabor de perdição, terra molhada, estrada sem fim. Retratos impossíveis, memórias apenas memórias, que desenham nas retinas o passado quente, recente, presente de um beijo. Saliva agridoce, entorpece e fecha os olhos da razão, cegueira noturna, sentidos aguçados. Funcionamos assim, no tato, no faro do sangue, no cheiro da pele.

Duas vidas comuns, dois manequins da nobre sociedade, mais castos do que o próprio Papa, no auge de sua castidade. Ele, ela, cela, ela dele, ele dela. Na infância, os primeiros toques. Descobrindo a libido sob escadas, em porões, no fim de longos e sombrios corredores. Brincadeiras de criança. Quem nunca?

Eles, presos em um só, beijavam perigo, transavam prazer. É como se não houvesse tempo, e ao mesmo tempo ele havia de estar ali, controlando, apertando, aumentando a aura de desejo. Adrenalina que move o sangue, um que move o outro, no compasso de uma sinfonia pesada, certamente exagerada. Nitrogênio líquido em uma cápsula de Cogumelo do Sol. Discreta, explosiva. Um movimento errado e tudo ia pelos ares.

Calculistas e arquitetos, sempre usaram o segredo como suas maiores armas. Com o passar dos anos, duas famílias, dois destinos, uma sina. Contínuos, inconstantes, apenas estavam juntos. Quem mais precisa saber? A esposa, o marido? Filhos? Jogar uma família no ralo, por quê? Por terem descoberto uma verdade de apenas duas pessoas?

Livre arbítrio. Alianças inúteis, uma certidão de papel bonito, feito pra estragar uma relação tosca, primária, primitiva. Casamento, uma construção pra desconstruir. Se há amor, não sei. Eles não sabem. Enrubescidos, talvez excesso ou ausência de respostas, excesso de privacidade. Não nasceram para o mandamento. Suas vidas são aladas, suas asas presas. O destino disse para ficarem juntos. Tão obedientes!





Universo paralelo, a libertação da rotina, sem virar rotina. De novo crianças, de novo e todo dia. Redescobertas, revivendo aventuras, traquinagens explicadas com um sorriso sacana, semblante de criança levada. Filhos órfãos de juízo, construíram sua própria lei. O que vale é o cafuné depois do sexo, é acender o cigarro do outro, é se sentir útil. Sentir. Os valores da sociedade engessada não os prendem, apenas os libertam. Os outros são inferno.  Vamos voltar ao nosso ninho, atrás das colunas da fidelidade, no fim do corredor da hipocrisia.  Lá é breu, lá podemos ser nós mesmos.

IMAGEM: http://farm5.staticflickr.com/4119/4865999811_3a2c410d94_z.jpg

2 comentários:

William Costa disse...

Parabéns Gustavo, mais um excepcional texto.
Um tanto hipócrita, consciente e instigante.
Qual o sentimento?

Pergunta:
As rebuscadas palavras demostram o eu lírico do autor?

Robson H. disse...

Um dia ainda terás uma coluna em algum jornal importante só pra escrever textos assim...grava bem o que te digo...