terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Bola de cristal


“Boa tarde! Sente-se aqui, fique tranqüilo. Antes de mais nada eu quero deixar claro que, se você não quiser acreditar no que eu lhe direi, a escolha é sua. Se você estiver pronto e quiser mesmo saber o que o futuro lhe reserva, vamos começar, tudo bem?

Bom, já que é assim, deixa eu ver aqui o que a bola de cristal irá me mostrar... Nossa! Meu querido, o seu ano vai ser daqueles. Começando bem do começo. 

Virada. Nem bem começará e você terá gratas surpresas. Um emprego. Sim, um emprego, que tal? Muito bom, uma oportunidade de aprender muito, conhecer pessoas, ser profissional de verdade. Você dará aulas... Aulas de inglês. Isso! Alunos sortudos você terá, hein! Mas você ganhará mais que todos. O que eu não posso garantir é que esse momento durará bastante. Há um conflito, a sua carreira não é essa.

Essa outra linha, essa sim é a sua rota. Você fez vestibular? Então prepare-se para a maior alegria de sua vida. É, meu caro, finalmente os astros lhe colocarão no seu devido lugar. Jornalista, mensageiro, como bom geminiano. Suas letras estarão a serviço do povo. Quanto à Universidade, será uma nova casa. Acolhedora, aconchegante, um lugar que você nunca esquecerá. Até porque os seus novos amigos não o deixarão. 

Presentes. Eles serão, vocês serão. Lidar com as diferenças? Você tira de letra, ou de Letras. As experiências que este ano proporcionará, na Academia, serão únicas. Portas se abrirão, você entrevistará, será entrevistado, reconhecido. Seus trabalhos, muitos trabalhos, valerão à pena. E sabe o jornal da noite? Você irá assistir, ao vivo, do estúdio. Imagina só!

Espere!  Vejo instabilidades, talvez rupturas. Seu coração tem dona hoje, mas eu não vejo apenas flores. Me desculpe, não quero agourar sua relação, tão nova, mas ela será passageira. O limite está mais próximo do que vocês imaginam. As coisas passam, pessoas vêm e vão. Este pode ser o ano das renovações. Ano de decisões. Não prospecto só tristeza, outros olhos cruzarão com os seus, um novo sorriso, uma nova paixão. Vidas que se afastam e se unem, força dos astros. 

Sua família terá um ano tranqüilo, mas certifique-se de que a saúde de todos estará em dia. Previna-se de sustos, cuide-se. Seus parentes mais próximos, olhe por eles. O cristal não me revela grandes sustos, entretanto, haverá um momento de tensão.  Dinheiro não será problema, vocês estão seguros. 

Neste ano que vai chegar, você viverá intensamente, momentos de extrema alegria. Seja sozinho, seja com amigos, com a família. Momentos únicos, inesperados, não planejados. Uma palavra: improviso. Os minutos mais bonitos serão os mais aleatórios. Vejo luzes, cores, alegrias. Mesmo com derrotas, você aprenderá e crescerá. Olha, o ano que vem será um turbilhão de emoções diferentes pra você. Se prepare, pois a bola de cristal não mente jamais. 

A consulta custa 200 reais, tá? Feliz 2011 pra você também.” 

IMAGEM: http://www.rac.com.br/blog/admin/imagens/13112009194449.jpg
----------
Aos leitores do Etc, de qualquer um dos 100 posts desse ano , muito obrigado. Que a gente volte a se encontrar em 2012, até dezembro, quando possamos olhar pra trás e ver quais previsões se concretizaram. Até o ano que vem.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A árvore


Desencaixo, abro sacolas, arrumo a sala, monto minha árvore. Dezembro, hora de repensar na decoração da casa e no ano que acabou. Será que fomos crianças comportadas, que merecemos os presentes que pedimos? Será que Papai Noel vai ver nossas meias na janela? O que será que eu fiz? Por via das dúvidas, deixa eu criar meu mundo de plástico, cores e fantasia natalina, para meus olhos levarem um pouco de paz ao meu espírito. Sempre funciona.

Então, eu começo a enfeitar a minha pequena árvore de Natal. Nela, eu penduro um relógio, pra nunca esquecer que o tempo não pára, ou pra pedir que ele corra devagar nos momentos felizes que virão. Os minutos mais difíceis, que eu aprenda com eles, mesmo sendo dolorosos. As horas alegres, que eu compartilhe com aqueles que me querem bem. Que eu conte meus dias a partir de um sorriso, que o despertador não se atrase, não me atrase, e que eu saiba usar esse tempo a meu favor.

Eu também penduro uma clave de sol, para que a trilha sonora dos próximos meses seja a mais bela possível. Sejam gritos de exaltação, sejam soluços de um choro incontido, até mesmo o silêncio. As batidas de um coração, o acelerar de uma emoção, as notas de uma sinfonia que eu só posso compor para alguém ouvir. Nem que seja apenas eu. Que a minha voz ecoe quando necessário, que eu me cale na hora certa.

Na minha árvore, fotos da família, de amigos, de ídolos. Os três podem ser um só. Fotos, pra eu nunca esquecer de quem me dá apoio, carinho, vida. Mesmo os que me criticam, que eu saiba recebê-los, guardando o que puder de bom. Olhar nos olhos das pessoas mais queridas, ver nestes olhos uma solução, uma chance, ou apenas um abrigo. Fotos para saber que, a qualquer hora, eu posso precisar deles. E que eles também saibam que podem precisar de mim. Imagens que me façam olhar para trás e sorrir, por não estar desamparado.

Ah, quase me esqueço. Faltam espelhos. Espelhos, para que eu saiba quem sou, para que eu possa tirar um minuto que seja, só para olhar nos meus próprios olhos. Eu tenho que saber meus limites, tenho que saber quem sou. De preferência, nunca esquecer disso. Quero ver a gana no meu rosto, quero ter suor escorrendo pela minha testa, quero ver o sangue das minhas veias, pulsando, funcionando. Se um dia, por algum motivo, eu pensar que sou outro, que eu volte e me olhe novamente.  Espelhos que reflitam meus desejos em mim.

Para terminar, luzes. Muitas luzes, de estrelas incandescentes, que me cerquem, me guiem. Luzes para mais uma caminhada. Luzes que brilhem em meus olhos, luzes fortes, de cada mão estendida, de cada abraço sincero, de cada beijo de amor. Um ano iluminado, nos estudos, na carreira, na família. Um ano iluminado, ao seu tempo, com a sua trilha, suas lembranças, seus reflexos e reflexões. Um ano de luz.

IMAGEM: http://scienceblogs.com.br/100nexos/files/2011/08/arvore_natal_universo.jpg

_______
Com este texto, eu desejo a todos os leitores do Etc um Natal mais do que iluminado. Que suas árvores simbolizem seus desejos de prosperidade, de sucesso, de um futuro sempre melhor do que o presente. É essa a nossa maior dádiva: nunca deixar de acreditar. Feliz Natal a todos vocês!




.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pelos corredores



Um ano. Quantos, como esse, tão esperados?

Em janeiro, surpresa. Fevereiro, recomeço. Hoje, em dezembro, qual o saldo de tanta muvuca?

Pelos corredores amarelos da vida nova, novos nomes pra gravar, novos rostos pra recordar, novas vozes pra guardar. Mais motivos pro amanhã, desmotivos pro depois de amanhã. Entre siglas, atalhos e artigos, salvaram-se todos.

Todos quem? Aqueles filhotes do início, tímidos, receosos ao primeiro toque? Cresceram, ganharam asas, voz e, alguns deles, apelidos. De animais a animais, quantas alcunhas pra tão poucos. Multiplicados, lotando, empatando.

Lembra daquele receio? Ficou lá atrás, bem longe do colchão verde, do sofá preto... Nosso lar.

Balaio guamaense, jurunense, pedreirense, belenense. Salve simpatia! Inteligentes, espertos, risonhos (estranhamente risonhos), falastrões, comunicadores. Desse meio, botamos a mão e tiramos a sorte grande. Encontramos pares, opostos, de tudo um pouco.

Diferentes? Sim, e muito. Sem lugar pra preconceitos. Singulares e plurais, gordos ou magros, presentes ou ausentes. O tempo que passou era raro, bem sorrateiro acabava, e lá se acabava mais um dia. Calma, as manhãs voltavam rápido.

 Aliás, que tempo? Aquele que nos faltou, na véspera dos seminários? Ou aquele que sempre sobrava, no Centro Acadêmico, sagrado recanto dos egressos do almoço? De sala, ganhou vida, as nossas vidas. Muito prazer, Caco!

Reuniões, festas, reuniões, aulas, trabalhos, reuniões, formatura, festas, garrafas, reuniões, sufoco, pautas, reuniões... Professores, um caso a parte. Amor? Ódio? E agora? Lágrimas, dramalhões, piadas sem sucesso e, de repente, fim de semestre, já pode respirar.

Veteranos. Que trote, que nada! Somos e seremos bem recebidos todos os dias, por pessoas que tinham de tudo pra nem nos olhar. Onde já se viu, ser babá de calouro? Onde? Aqui. Não é bajulação, é afeto, é prazer gratuito de estar perto. Obrigado, obrigado!

Colegas. Afinidades, inimizades, abraços, gritos, tudo o que uma boa turma deve ter. Racha aqui, conserta acolá. Uma instituição, uma #Família muito unida e muito ouriçada. Você, você e você, venham comigo, sigam na minha vida. Você, você, fiquem por aqui.  Galera, como esquecer de vocês?

Calouros. Aguardem.

É fim de ano, o último trabalho foi apresentado, a última resenha entregue, a última aula encerrada. A cortina vai descendo, hora de dar até logo. Hora de agradecer pelo amigo, de pedir desculpas pelo erro, de respirar.

Férias!

Por aqueles corredores, andando naquela beira de rio, futuros se desenham, laços se formam, com ou sem aulas. Os reencontros vão além, muito além de reles razões acadêmicas. Saudade? Tá, vai rolar, e muita. Mas daqui a pouco já tá todo mundo se vendo, se aturando e se abraçando, pra falar alto e encher o Caco. Vai começar tudo de novo...

Até logo, Família!

Foto: Gustavo Ferreira

domingo, 18 de dezembro de 2011

Um menino chamado Jesus


Era uma vez, em um lugar muito distante do sertão, uma família humilde. Um homem sofrido, que trazia nas mãos os calos, e na testa o suor de uma vida dura, sob o sol do Nordeste. Uma mulher guerreira, que sustentou cinco crianças, hoje na capital, e está pronta a dividir o pouco que tem com o mais novo membro da prole.

Em uma noite estrelada, sem pedir licença, a mulher sentiu que era a hora. Com a ajuda do marido e de uma vizinha, senhora simpática, amiga da família, a mãe deu à luz um garoto chorão, cheio de vida. Talvez a última esperança de que alguém daquele solo seco vingue na cidade grande.

Nasceu Jesus. O menino cresceu ali, brincando entre os galhos secos e a terra árida, olhando sempre para o céu sem nuvens, imaginando o que não sabia nominar. Um mundo mais bonito do que a miséria que lhe cercava, e que martirizava aquela gente. Ainda não sabia como, mas já queria fazer mais do que os limites da pobreza lhe impunham. Seus pais ainda trabalhavam, porém sem a disposição de outrora. O tempo fora cruel com os dois.

Até que Jesus cresceu, e quis conhecer a cidade grande. Seu pai, já um velho doente, acamado, lhe chamou um dia e, tocando em sua face, com os olhos cheios de lágrimas, o disse: “Vai, meu filho! Vai e cumpre tua missão”. Jesus também chorou, e abraçou seu velho com a ternura de um filho que se despede do maior exemplo. Foram as últimas palavras de seu pai. Jesus não queria partir, deixando sua mãe sozinha. Ela insistiu:

“Meu filho, você nasceu para fazer os outros enxergarem melhor, enxergarem um mundo mais justo. Seu lugar não é aqui. Vai em paz, vai com Deus, meu pequeno”.

Jesus partiu, prometendo voltar e tirar a mão da miséria do sertão. Chegando na cidade grande, o jovem abrigou-se na casa de uma velha conhecida da família, em um lugarejo bem simples, que sofria com mazelas além da fome e da pobreza. O crime imperava, em todas as suas piores faces. Assaltos, mortes, drogas. A realidade mais crua Jesus conheceu. Triste, comparava a favela ao seu chão natal. Notava que precisava fazer alguma coisa.

Com muito sacrifício, Jesus trabalhou, juntou um dinheiro e estudou. Começou a descobrir um novo mundo, e o seu próprio. Jesus estava munindo-se da arma mais preciosa que alguém pode ter: o conhecimento. Começou a se engajar em mudar a situação daquele lugar. Participava de reuniões, de passeatas, se envolvia de corpo e alma na “missão” que seus pais tanto disseram que ele recebera.

Lutava com unhas, dentes e palavras, contra a insegurança e o medo na favela onde vivia. Lutava. Com o apoio do povo, Jesus reunia muita gente, vítimas do terror cotidiano da violência dominante. Lutavam. Por um dia seguro, por uma vida tranqüila, pela certeza de que voltarão para casa no fim de tarde, após um dia de trabalho. Jesus era líder, era exemplo. E sabia dos riscos que corria. Contava a vida a cada 24 horas.

Um dia, não conseguiu completá-las. Morreu, pelas mãos de um traficante. Morreu, pelas mãos do crime, que tanto tentou combater. Jesus morreu, deixando a lição de que cada um deve fazer a sua parte. O menino pobre do sertão, que venceu na vida através da educação, e deu a vida pelo seu ideal, venceu. Caiu vencedor. O povo da favela nunca mais foi o mesmo. Agora eles têm voz. E um exemplo de superação, de abdicação, de fé.

O corpo foi, as palavras ficaram. Palavras que hoje ecoam, servindo de instrumentos de transformação da humanidade. O mundo é um grande sertão, e a nossa missão é fazer chover. Essa foi a missão de Jesus. Fazer chover bondade sobre todos nós.


IMAGEM: http://www.miniweb.com.br/geografia/Artigos/geo_mundial/imagens/favelas.JPG

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Um dia




Um dia eu volto a te ver,
Bela, envolta no sol matutino.
Entre palmeiras, mangueiras, sabiás,
O sorriso que acolhe o rio-mar,
Sorriso doce, maroto, menino.

Um dia eu volto a te ver,
Sentir o perfume do verde no chão.
As luzes da noite, o calor do dia,
Ah, um tacacá! Como eu queria
Provar, aprovar, me fartar de perfeição.

Um dia eu volto a te ver,
Soltar o brado papa-chibé.
Eu sou do Norte,
Pode vir forte,
Eu tenho raça, eu tenho fé.

Um dia eu volto a te ver,
Olhar, tocar, ouvir.
Sou refém da saudade feroz,
Lá fora o frio embarga a minha voz,
Junto com lágrimas de Patchouli.

Um dia eu volto a te ver,
Úmida, sob nuvens de encanto,
Recebendo a chuva sagrada, 
Com e sem hora marcada.
Dos periquitos, o canto.

Um dia eu volto a te ver,
Cidade onde está sempre tudo bem.
Longe eu sofro de pensar
Na maravilha que é estar
Na minha bela Belém.


IMAGEM: http://www.ifmsabrazil.org/Resources/Pictures/belem.jpg

sábado, 10 de dezembro de 2011

Recauchutagem


Mudança. Alguns tremem só de ouvir esta palavra. Outros aguardam por ela ansiosamente, como quem dela precisa para viver. Sim, às vezes é muito complicado querer outra coisa, quando o que lhe enche as mãos é tão gratificante, tão especial. O certo pelo duvidoso assusta. Acreditar no fim de tudo, mais ainda. O fato é: inevitavelmente, tudo muda. E o legal disso tudo é que, quase sempre, somos nós mesmos que decidimos o quê e quando isso irá acontecer.

Você nasce pequenino, cresce, ganha pelos, secreção, hormônios, isso é biológico. Fisicamente, só se nos mutilarmos (e eu incluo as cirurgias plásticas na categoria de mutilação) deliberadamente, para que haja alterações. Cabeça, meus caros, é por nossa conta. A nossa vida também. Grande é aquele que aceita sua condição volátil, pois sofre o menos possível quando precisa passar adiante.

O próximo passo, ah, o próximo passo! Como é complicado sair de um chão firme, rumo ao desconhecido. Dá um certo medo, até para os mais desbravadores. Curiosos, eternamente, nômades de espírito, incontroláveis por muito tempo. Tudo é novo para eles. Mudar é premissa, não necessidade. Guardadas as (não raras) exceções de quem exagera neste joguinho, e cansa rápido demais da brincadeira, a maioria entende que a vida é uma oficina.

Somos as máquinas. Envelhecemos, e precisamos de uma revisão, com o prazo que você mesmo estipula. Como identificar esse prazo? Basta se olhar no espelho, e responder a simples pergunta: “tá bom assim?”. Qualquer manifestação, como um franzir de testa, é sinal de que, ao menos, já se deve tentar mover uns pauzinhos, trocar o óleo, mexer na lataria, fazer um check up. Recauchutar.

Parados não podemos ficar. Inoperância, excesso de esperança. Se Gandhi disse que nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo, acreditem, ele tem razão. O que custa arriscar, buscar mais do que se tem? Pode custar uma amizade aqui, um amor acolá, mas quem sabe procurar, nunca ficará sozinho. O que você quer está ali, sempre está. O mais difícil não é achar. É o correr atrás.

Não consegue mudar? Acontece. O passado, e até mesmo o presente, podem te acorrentar a mesmice de uma rotina degradante. Os medos, as dúvidas, as pessoas de um hoje, por mais chato, por pior que ele seja, ainda têm o poder de empatar a evolução natural. Mas aí sempre chove, uma onda passa e leva, te leva, ao próximo porto. Naquela hora de pegar a estrada, muitos levam uma mala cheia de recordações, cheia de sua própria vida. O problema é quando a mala é pesada demais, até para a força do seu ímpeto.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

No fim do corredor


Mistério. Eterno enigma cor de mel, viço infinito, sabor de perdição, terra molhada, estrada sem fim. Retratos impossíveis, memórias apenas memórias, que desenham nas retinas o passado quente, recente, presente de um beijo. Saliva agridoce, entorpece e fecha os olhos da razão, cegueira noturna, sentidos aguçados. Funcionamos assim, no tato, no faro do sangue, no cheiro da pele.

Duas vidas comuns, dois manequins da nobre sociedade, mais castos do que o próprio Papa, no auge de sua castidade. Ele, ela, cela, ela dele, ele dela. Na infância, os primeiros toques. Descobrindo a libido sob escadas, em porões, no fim de longos e sombrios corredores. Brincadeiras de criança. Quem nunca?

Eles, presos em um só, beijavam perigo, transavam prazer. É como se não houvesse tempo, e ao mesmo tempo ele havia de estar ali, controlando, apertando, aumentando a aura de desejo. Adrenalina que move o sangue, um que move o outro, no compasso de uma sinfonia pesada, certamente exagerada. Nitrogênio líquido em uma cápsula de Cogumelo do Sol. Discreta, explosiva. Um movimento errado e tudo ia pelos ares.

Calculistas e arquitetos, sempre usaram o segredo como suas maiores armas. Com o passar dos anos, duas famílias, dois destinos, uma sina. Contínuos, inconstantes, apenas estavam juntos. Quem mais precisa saber? A esposa, o marido? Filhos? Jogar uma família no ralo, por quê? Por terem descoberto uma verdade de apenas duas pessoas?

Livre arbítrio. Alianças inúteis, uma certidão de papel bonito, feito pra estragar uma relação tosca, primária, primitiva. Casamento, uma construção pra desconstruir. Se há amor, não sei. Eles não sabem. Enrubescidos, talvez excesso ou ausência de respostas, excesso de privacidade. Não nasceram para o mandamento. Suas vidas são aladas, suas asas presas. O destino disse para ficarem juntos. Tão obedientes!





Universo paralelo, a libertação da rotina, sem virar rotina. De novo crianças, de novo e todo dia. Redescobertas, revivendo aventuras, traquinagens explicadas com um sorriso sacana, semblante de criança levada. Filhos órfãos de juízo, construíram sua própria lei. O que vale é o cafuné depois do sexo, é acender o cigarro do outro, é se sentir útil. Sentir. Os valores da sociedade engessada não os prendem, apenas os libertam. Os outros são inferno.  Vamos voltar ao nosso ninho, atrás das colunas da fidelidade, no fim do corredor da hipocrisia.  Lá é breu, lá podemos ser nós mesmos.

IMAGEM: http://farm5.staticflickr.com/4119/4865999811_3a2c410d94_z.jpg

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Tim tim




Essas festas da high society... Todos se preparam com semanas de antecedência, esperando mais uma “noite do ano” na cidade. Ser convidado é honra, fazer parte é luxo. Quem gostaria de perder um evento de tamanho garbo, com gente bonita e elegante. Com seus ternos e vestidos alugados, os presentes trazem no linguajar um refino admirável, e capricham na finesse. Salve simpatia!

Chegam ao salão de recepções como se estivessem no Kodak Theatre. Seguranças por todo o lado, cerimonialistas, boa noite, boa noite. Câmeras, fotos, vídeos, seus primeiros passos registrados para sempre. Afinal, você é um dos poucos homenageados com o convite, com a chance de estar lá. Você é a elite. Sinta o gosto, seja leve e sorria. Não pergunte nada. Apenas sorria.

A aniversariante lhe aguarda, ao lado da família, orgulhosa pela grande festa. Quem disse que ela precisa saber quem você é? O inverso também se aplica. Ora, de quantos dali você realmente se lembra? Não interessa. Fale com todo mundo, seja polido, finja ser popular, faça o outro pensar o mesmo. Aliás, nada mais apropriado para uma ocasião como essas do que parecer qualquer coisa.

Requinte é isso! Aqueles mesmos quitutes regados a muito refrigerante de segunda e molho rosé. Como dispensar o camarão empanado, o rissole de carne e aqueles canapés azedinhos. Confesso que dá vontade de levar muitos para casa, e que até acho fazer parte do jogo levá-los. Na bolsa da mãe, nos bolsos do paletó, um rega-bofes de primeira. Bebidas variadas, tios variados.

A música é um caso a parte. Festa jovem,com hits anacrônicos, de cinco anos atrás. Parece que você voltou uns cinco anos no tempo, e voltou a curtir músicas do tempo em que você era jovem. Mas todos dançam, curtem, se jogam na pista de dança. Inclusive seus pais. ABBA, Bee Gees e Gloria Gaynor fazem a festa dos mais velhos, enquanto os seus rebentos exercitam seus dotes de sedução pré-adolescente na boate, obviamente longe de papai e mamãe, que nem devem estar ligando tanto assim para eles.

O tempo passa, a valsa termina. Os meninos, os padrinhos, a chuva de emoções engarrafadas de quem vê mais do mesmo. Mas depois das homenagens mil, cafonices e máscaras são deixadas sobre a mesa. Sirvam-se! Damas da alta sociedade se transformam em leoas famintas, enquanto os homens constroem prédios de filé e fagia nos pratos rasos da infâmia. Comem, se empapuçam com tanta fartura. Falta verdade na compostura artificial de quem só quer se fartar com tanta comida boa.

E depois de tanto agito, entrando pela madrugada, cercada de estrelas, flashes e encenações, é hora de ir. Depois de sentir o aroma entorpecente da burguesia elitista, tão perto e tão longe, você volta para sua casa, como se nada tivesse acontecido. Na segunda-feira, você devolve as roupas alugadas, olhará as fotos da festa com certa nostalgia, e só. Na terça-feira, você já esqueceu. E tudo volta a ser a sua vida de antes. Um brinde à realidade!


IMAGEM: http://4.bp.blogspot.com/-DVsEUlxmKtY/TqsFZkfdcxI/AAAAAAAAAbQ/ToZjG4k4BIc/s400/champagne-espumantes-festas-bebida.jpg