quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobe som




Se você está sem sono, num sábado à noite, preso em casa, sem saco pra internet ou TV, e resolverem ligar o rádio (hipótese quase extinta ultimamente), com certeza irá escutar algum verso de “Every Breath You Take”, ou o refrão de “Careless Whispers”. Você chora.

Se você acabou de passar no vestibular, depois de muito esforço, abdicação e preces poderosas, sempre aparece alguém que bota a vitrola pra tocar. Pinducão começa a cantar aquelas palavras mágicas. Você chora.

Se você está estressado com a vida, acabou de levar um zero na prova de Física, e ainda vai de busão lotado pra casa, ao subir você se depara com um indivíduo que não deveria estar neste mundo, ouvindo Vetron no talo. Você chora. Ou mata (nem que seja você mesmo).

É, quase sempre algo marcante na sua vida tem uma trilha sonora. E eu acho que precisa, pois ela nos transporta de volta ao passado, bom ou ruim, do nada, basta que a música toque em alguma rádio de músicas velhas, ou de hits da estação passada. Claro que, em uma dessas, você não está preparado pra reviver alguma coisa, e chora, grita, pula, tenta o suicídio, e por aí vai.

Chega a ser óbvia a relação dos sons com os nossos sentimentos. Mesmo sem querer, a música entra nas nossas cabeças, associadas a recortes felizes (ou não) da nossa história. Sem perceber, seu primeiro beijo pode ser embalado por uma canção do Rei, ou um forrozão do Aviões, e a culpa nem é sua. Você nem queria uma trilha para aquele reencontro com os velhos amigos, mas um carro de som na rua pode fazer o serviço.

Outro detalhe: não se martirize se você não tira aquele funk da cabeça, mesmo que você odeie. O armazenamento não é seletivo, e não faz juízo de gosto. Gruda. Acabamos nos tornando vítimas, reféns de uma canção odiosa para nós, só por calhar com algo entranhado nas nossas lembranças.

Somos guiados pelos sons, nem que sejam os da natureza. A chuva caindo, o vento no rosto, o sorriso de um bebê, o mais inocente, espontâneo. E as palavras? As palavras de despedida, um discurso em sua homenagem, o “eu te amo”, que hoje anda tão banal e sem valor. Ouvir mais o outro. Talvez seja o que anda faltando. Quanta incompreensão! É mais fácil escutar o que queremos, tanto que o necessário não entra, o orgulho não deixa. Ouvidos demais, cabeça de menos.

Não importa quantos decibéis, nem se incomoda ou não o outro. Se te marcou, é porque estas notas ecoaram o suficiente. Sejam quais forem.


IMAGEM: http://www.dicasdiarias.com/wp-content/uploads/2011/01/melhores-musicas-de-2011-2012.jpg

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