quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O lado de cá




Foi-se o tempo em que eu queria o mundo. O tempo em que eu desejava o céu e a terra, quando eu tinha sede de vida, vontade de subir mais alto, curiosidade pelo prazer de conseguir. Frente a frente comigo mesmo, agora, eu olho nos meus olhos e percebo que eu já consegui o que, há meses atrás, anos atrás, era apenas prospecção. E agora, José?

É engraçado! A gente imagina sempre uma hora em que nós vamos alcançar os objetivos, e que este momento é muito, muito distante. Nós suamos, pensamos, sofrendo e chorando, brigando e agregando, em prol de algo maior, quando os fins justificavam os meios. O mais excitante da ambição é o caminho que nos leva ao objeto ambicionado. Um pouco mais perto, um pouco mais longe, os dias passam e sempre a tarefa parece estar incompleta demais.

Quando a chegada está próxima, a hora do sprint final, onde tudo se explica, toda a caminhada ganha base, ganha motivo, os olhos se enchem de gana e, mesmo se o corpo fraqueja, a alma se engrandece. Três. Dois. Um. Chegamos! Fogos, luzes, lágrimas de satisfação. Realização. E depois da festa? Depois de limpar a casa, realinhar o foco, parar e pensar, o que fazer?

Hoje eu digo que consegui muito do que desejei nos últimos tempos, sou uma pessoa realizada. Agora eu cruzei a linha, estou do lado de cá, olho para trás e vejo o quanto eu busquei meu lugar, o que eu fiz, o que deixei de fazer. Quantas noites eu perdi, quanto choro eu derramei, tudo para estar onde estou agora. Os motivos me carregaram pela mão, junto com o meu ímpeto. E agora?

A análise do que já é passado, a prova dos nove. Será que valeu mesmo a pena? Será que eu não poderia ter ido além? Será esse o meu limite? Muitas são as dúvidas, a ponto de ofuscar certas alegrias da vitória. A pitada forte de frustração quando nos damos conta de que acabou. O mais legal não existe mais, eu não preciso correr atrás. Sintoma de comodismo? Não necessariamente. Talvez seja apenas uma reação natural de quem não nasceu para ficar parado... E parou.

O ciclo da vida. Querer – conseguir – querer de novo. Neste segundo estágio, o mais importante não é pensar em onde quer chegar, e sim saber administrar o que se tem. O conforto de estar na cadeira desenhada em pensamento é inexplicável. Um novo projeto não.  Até chegar na próxima página, eu não preciso – e nem devo – me esquecer do que eu já li, ou melhor, escrevi até o último parágrafo.

O jeito é continuar incompleto, evitando a plenitude, evitando a estagnação. Que não seja sempre um novo começo, mas uma continuação, por que não um aperfeiçoamento? É bom olhar o mundo daqui, ver pessoas passando pelo mesmo que nós. Sem falar que sempre bate a saudade do lado de lá...


IMAGEM: http://globoesporte.globo.com/platb/files/168/2010/08/drummond.jpg

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