terça-feira, 8 de novembro de 2011

Meu exílio


Aqui faz tanto frio! Não pensei que assim seria este lugar que me pareceu tão quente, acolhedor, com jeito de colo de mãe. Nesta terra, onde eu pensei haver palmeiras e sabiás, hoje só resta o resto de um ledo engano, um devaneio torpe, uma vaga sensação de prazer.

A viagem dos sonhos, o salto pro alto, o ir em frente que só puxou para trás o desejo de crescer. Meus olhos me traçaram um caminho, que eu apaguei com os passos, com as lágrimas, com a saudade. Arriscando todas as fichas, fiquei sem ter o que comer. Pensando nos outros, esqueci de mim. Me alimentei de minhas esperanças, mas o estoque acabou muito antes do fim da jornada.

Meu quarto, minha cama, minha bagunça! Ali sim é o meu canto, aquele que eu deixei virar passado, na tentativa corajosa de mudar. Eu cismo, sozinho, à noite, pensando nos que lá agora vivem. Quem usa as minhas gavetas desde então? Quem esquenta meu travesseiro? Quem escreve a minha vida, neste lugar que eu ousei abandonar?

Olhei para trás, vi minha mãe chorar por mim, meu pai, minha família. Hoje, aqui, nesta terra sem primores, é meu corpo que lacrimeja incessante, buscando criar um rio, um mar, por onde a nau da imaginação me leve, em segurança, de volta à fortaleza de ferro dos meus primeiros passos. A força com que vim, certamente pegou o avião da volta. Eu fiquei.

Eu me exilei do pensamento, do amor, da confiança. Eu fugi do novo, busquei o novo. Caí, levantei, caí de novo, levantei. Conheci o submundo, subi aos céus, bebi o vinho de Baco, segui o canto da Iara, me deixei levar pela loucura de Raul. Quando olhei para baixo, já estava longe demais para voltar. Arrisquei, agora quero voltar. Não sei como, nem se posso. Quero voltar.




Será que ainda o tempo irá me torturar, como faz desde sempre? Quanto mais eu preciso ficar aqui, sob os cúmulos acinzentados da tristeza, torcendo para ver e viver mais um dia, que seja, o meu berço? Fico pensando no meu retorno. Troco festa por presenças, troco pompa por abraços, troco mentiras por ela. Nunca fui daqui, eu fui feito para brincar entre várzeas e flores. Eu quero voltar.




IMAGEM: http://2.bp.blogspot.com/_4ia-lk4EbPM/S87L8Qvgk_I/AAAAAAAAB5I/4oKp6rV0e9E/s1600/13homem-caminhar-mala.jpg



Um comentário:

Robson H. disse...

Sinceramente, eu queria ter escrito esse texto. Poético, com metáforas interessantes, em resumo, excelente. Não há mais o que ser dito. Esse é o meu favorito desde hoje. ^^