domingo, 27 de novembro de 2011

Diacronia


De repente, uma vontade incontrolável. Os dois começam a se trocar, os beijos fervem, a saliva banha os corpos de feitiço e pecado. Doce pecado! Se há público, adeus. Mãos, dedos, desejos, tudo misturado em um só caldeirão. Caldeirão das descobertas, do aprendizado, da pedagogia mais sacana. Eles entram sem fazer barulho, gritando por dentro, medindo os passos na escada por fora. Entram no quarto. Chega de pudor! Arrancam as roupas feito papel, tiram a camisinha da gaveta e se deliciam no outro, se bebem, manjar. A transa da vida, que sempre se repete. Joga emoção, medo, tesão, cabum!!!!! Nada de gritos! O papai pode acordar!

De repente, as pernas se roçam sob a mesa. Os olhos incandescem, um código que só eles entendem. A vontade súbita de ir ao banheiro, de ir ali fora, de sair dali. Pronto, inventam uma história e entram no carro. Ele dirige, ela dirige. Guiando o carro e as coxas, chegam ardendo ao apê. Abre a porta. Fecha. Agora o mundo é deles. Vestido no chão da sala, camisa na maçaneta, hormônios por todo o canto. Tudo vira cama, a cama vira de cabeça pra baixo. Eles vêm, vão, vêm, vão, não para. Pra quê parar?

De repente, alianças. Deus já deu a permissão. Reproduzam, filhos meus! Eles obedecem, ora! Muito pano entre os dois, a cor nem tranqüiliza. A noiva pede uns minutos, pro noivo, uma eternidade. Abre-se a porta do paraíso, o que no mundo real chamamos de porta do banheiro. Ele, bela, fera, linda envolta nos panos leves de amor e respeito. Ele aguarda, a recebe, a possui. Com todos os requintes de beleza, o momento pede. Uma hora as pétalas de rosa ficam de lado, e o mel escorre pelos dois, lambuzados. Lua, banha esse embrião de família, doce quanto a luxúria.

De repente, De repente, um bercinho ao lado, um berro. Sim, crianças choram, bebês choram muito. Hora de nanar. Lá vai a mãe, segurar no colo o tesourinho. Dá de mamar, canta pra ele dormir. Algum tempo depois, um anjinho. São duas da madrugada, os pais pedem arrego. Hora do recreio pra eles! Papai, mamãe... Tempo pra criar sempre há, mas rotina pra atrapalhar também há. Quase sempre vence. O jeito é brincar de pira-se esconde nos lençóis, sem gritar. Escondidos, adolescentes outra vez, se tocam, se beijam, se fundem. Nada de gritos!!! O bebê pode acordar!



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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobe som




Se você está sem sono, num sábado à noite, preso em casa, sem saco pra internet ou TV, e resolverem ligar o rádio (hipótese quase extinta ultimamente), com certeza irá escutar algum verso de “Every Breath You Take”, ou o refrão de “Careless Whispers”. Você chora.

Se você acabou de passar no vestibular, depois de muito esforço, abdicação e preces poderosas, sempre aparece alguém que bota a vitrola pra tocar. Pinducão começa a cantar aquelas palavras mágicas. Você chora.

Se você está estressado com a vida, acabou de levar um zero na prova de Física, e ainda vai de busão lotado pra casa, ao subir você se depara com um indivíduo que não deveria estar neste mundo, ouvindo Vetron no talo. Você chora. Ou mata (nem que seja você mesmo).

É, quase sempre algo marcante na sua vida tem uma trilha sonora. E eu acho que precisa, pois ela nos transporta de volta ao passado, bom ou ruim, do nada, basta que a música toque em alguma rádio de músicas velhas, ou de hits da estação passada. Claro que, em uma dessas, você não está preparado pra reviver alguma coisa, e chora, grita, pula, tenta o suicídio, e por aí vai.

Chega a ser óbvia a relação dos sons com os nossos sentimentos. Mesmo sem querer, a música entra nas nossas cabeças, associadas a recortes felizes (ou não) da nossa história. Sem perceber, seu primeiro beijo pode ser embalado por uma canção do Rei, ou um forrozão do Aviões, e a culpa nem é sua. Você nem queria uma trilha para aquele reencontro com os velhos amigos, mas um carro de som na rua pode fazer o serviço.

Outro detalhe: não se martirize se você não tira aquele funk da cabeça, mesmo que você odeie. O armazenamento não é seletivo, e não faz juízo de gosto. Gruda. Acabamos nos tornando vítimas, reféns de uma canção odiosa para nós, só por calhar com algo entranhado nas nossas lembranças.

Somos guiados pelos sons, nem que sejam os da natureza. A chuva caindo, o vento no rosto, o sorriso de um bebê, o mais inocente, espontâneo. E as palavras? As palavras de despedida, um discurso em sua homenagem, o “eu te amo”, que hoje anda tão banal e sem valor. Ouvir mais o outro. Talvez seja o que anda faltando. Quanta incompreensão! É mais fácil escutar o que queremos, tanto que o necessário não entra, o orgulho não deixa. Ouvidos demais, cabeça de menos.

Não importa quantos decibéis, nem se incomoda ou não o outro. Se te marcou, é porque estas notas ecoaram o suficiente. Sejam quais forem.


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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os outros




Olha lá, gente! Isso, olhem! Guardem todas as suas palavras, seus julgamentos todos para os dois. O mais novo casal da escola. Como eles são bonitos, como eles combinam. Que lindos! Uma vida perfeita, sem nenhum problema, afinal de contas, apenas eu sofro, e todo mundo sabe. Eu fiz questão de esconder?

É, gente, vejam isso! O destino é irônico demais. Eu erro, enfio os pés pelas mãos, viro o assunto do momento, quero me enterrar no chão, ou melhor, quero mostrar que estou bem, e justamente agora parece que eu ganhei da vida uma chance de sair dos holofotes. Tudo o que eu quero, preservar minha imagem da visão sentenciosa dos outros, já que não consigo salvar minha reputação de mim mesmo.

Olhem pra eles dois agora! Felizes, feitos um para o outro. Infelizes! Não, eles não podiam, eles não tinham o direito de pisar em mim, como se eu merecesse ser punida pelas burradas que cometi. Mas, já que agora eles são O Casal, nada mais justo do que ganharem a atenção exclusiva da imprensa marrom que cerca a minha vida.

Não olhem mais pra mim! Sei que é sádico pensar nisso, e também pode ser divertido demais. Cutucar o passado alheio dói tão menos, se dói, do que fazer isso com a gente mesmo. Não custa nada colocar lenha, acender a fogueira e queimar a grama verde do vizinho. Eu não consigo acertar com quem devo, não sei lidar com meus próprios sentimentos? Então me deixem brincar um pouquinho, vai.

Comentem, falem, espalhem isso! São eles que devem ter discrição. Eu não ganho nada com isso, só perco. A chance de ter um assunto na roda de amigos, que não seja você, é bem mais instigante. Perder minutos preciosos falando do outro, tentando destruir a estabilidade que tanto invejo, que não consigo criar, destilar o veneno reverso da minha infantilidade, tudo isso me alimenta.

Não é legal olhar pra eles? Diz a verdade, será que há passatempo mais divertido do que espalhar a intriga, jogar no ventilador o que nem existe, trazer pessoas e sentimentos a um ringue imaginário de puro entretenimento gratuito? Showzinhos na internet, indiretas bem diretas, tudo isso e mais confetes, isso aqui tá calmo demais com os outros. Chega de ser o centro, o que eu quero mesmo é ver o circo pegando fogo! Só deixa eu sair antes, pra assistir de camarote.


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sábado, 12 de novembro de 2011

Sem asas


O que tenho? Sofro quando devo sorrir, minhas lágrimas de contemplação se tornam sangue derramado pela distância. Tão perto, tão longe... Um espaço vazio em mim, sem solução nem remédio, um vazio onde ecoa meu conformismo imóvel, meu medo de errar, meu medo de tentar. Um vazio que dói, culpa dos astros, do destino, ou apenas culpa minha.

Eu olho para ela, sigo seus passos com meus olhos, mas não a alcanço. Minhas mãos podem, meu ego não deixa. Seus cabelos, fluindo com a brisa perfumada de seu corpo, em um movimento cafajeste, abençoado, passa por mim, meu corpo treme e as esperanças renascem. O fogo que nunca se apagou, incandesce, floresce o sentimento. Tortura eterna de um apaixonado, refém de si mesmo, acorrentado, enclausurado em seus próprios sonhos.

Eu quero voar, voar alto, subir com ela. Penso em besteiras, na cor de sua roupa, na sua altura, nas alturas da minha imaginação. Fantasio encontros, reencontros, um dia de sol na praia, uma música a dois no violão. As nuvens formam, no céu, a exata perfeição de seu colo, acolhedor, aquecedor. O toque de suas mãos nunca saiu de mim, e eu nunca saí do seu caminho. Raciocino, perco a linha, imagino. Apenas imagino. Eu quero voar com ela, mas onde estão minhas asas?

Pássaro anormal, estranho no ninho social, sem lenço nem documento. Apenas mais um à procura de algo necessário. Apenas alguém que deseja sentir o gosto da felicidade plena, da satisfação, da perfeição, pelo menos uma vez. Sou eu assim, um labirinto de trevas e dor, do qual eu não saio, nem sei se quero sair. Entre comigo, viva a minha vida, você me conhece bem. Identidade é eternidade.

Olha pra mim! Eu estou aqui, sempre estive. Não olha pra mim! Eu não sei te encarar, não saberia te receber. Ainda não estou pronto para ser feliz, nem para te fazer feliz. Eu fujo das pessoas, eu tento escapar dos meus problemas, eu crio problemas. Não sou exemplo de perseverança, apenas sinto algo estranho quando te vejo. Pensar em você, ver você passar, te sentir no ar, é mais vida do que meu próprio sangue.

Minhas veias pulsam. O coração, sempre quieto, acelera, mesmo sem eu perceber. Filmes me lembram você, o mundo gira e eu sei da sua presença. Tão perto, tão longe... Ah, o destino! Cruel, talvez alentador, traçou caminhos opostos, meu bem. Quero ser teu bem, te fazer bem. Vivemos, sim, em paralelas. Um dia, nessa vida ou na próxima, elas se encontrarão. Me espera mais um pouco, espera até eu aprender a voar, para conhecer o céu com você. Seja minhas asas.


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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Meu exílio


Aqui faz tanto frio! Não pensei que assim seria este lugar que me pareceu tão quente, acolhedor, com jeito de colo de mãe. Nesta terra, onde eu pensei haver palmeiras e sabiás, hoje só resta o resto de um ledo engano, um devaneio torpe, uma vaga sensação de prazer.

A viagem dos sonhos, o salto pro alto, o ir em frente que só puxou para trás o desejo de crescer. Meus olhos me traçaram um caminho, que eu apaguei com os passos, com as lágrimas, com a saudade. Arriscando todas as fichas, fiquei sem ter o que comer. Pensando nos outros, esqueci de mim. Me alimentei de minhas esperanças, mas o estoque acabou muito antes do fim da jornada.

Meu quarto, minha cama, minha bagunça! Ali sim é o meu canto, aquele que eu deixei virar passado, na tentativa corajosa de mudar. Eu cismo, sozinho, à noite, pensando nos que lá agora vivem. Quem usa as minhas gavetas desde então? Quem esquenta meu travesseiro? Quem escreve a minha vida, neste lugar que eu ousei abandonar?

Olhei para trás, vi minha mãe chorar por mim, meu pai, minha família. Hoje, aqui, nesta terra sem primores, é meu corpo que lacrimeja incessante, buscando criar um rio, um mar, por onde a nau da imaginação me leve, em segurança, de volta à fortaleza de ferro dos meus primeiros passos. A força com que vim, certamente pegou o avião da volta. Eu fiquei.

Eu me exilei do pensamento, do amor, da confiança. Eu fugi do novo, busquei o novo. Caí, levantei, caí de novo, levantei. Conheci o submundo, subi aos céus, bebi o vinho de Baco, segui o canto da Iara, me deixei levar pela loucura de Raul. Quando olhei para baixo, já estava longe demais para voltar. Arrisquei, agora quero voltar. Não sei como, nem se posso. Quero voltar.




Será que ainda o tempo irá me torturar, como faz desde sempre? Quanto mais eu preciso ficar aqui, sob os cúmulos acinzentados da tristeza, torcendo para ver e viver mais um dia, que seja, o meu berço? Fico pensando no meu retorno. Troco festa por presenças, troco pompa por abraços, troco mentiras por ela. Nunca fui daqui, eu fui feito para brincar entre várzeas e flores. Eu quero voltar.




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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O lado de cá




Foi-se o tempo em que eu queria o mundo. O tempo em que eu desejava o céu e a terra, quando eu tinha sede de vida, vontade de subir mais alto, curiosidade pelo prazer de conseguir. Frente a frente comigo mesmo, agora, eu olho nos meus olhos e percebo que eu já consegui o que, há meses atrás, anos atrás, era apenas prospecção. E agora, José?

É engraçado! A gente imagina sempre uma hora em que nós vamos alcançar os objetivos, e que este momento é muito, muito distante. Nós suamos, pensamos, sofrendo e chorando, brigando e agregando, em prol de algo maior, quando os fins justificavam os meios. O mais excitante da ambição é o caminho que nos leva ao objeto ambicionado. Um pouco mais perto, um pouco mais longe, os dias passam e sempre a tarefa parece estar incompleta demais.

Quando a chegada está próxima, a hora do sprint final, onde tudo se explica, toda a caminhada ganha base, ganha motivo, os olhos se enchem de gana e, mesmo se o corpo fraqueja, a alma se engrandece. Três. Dois. Um. Chegamos! Fogos, luzes, lágrimas de satisfação. Realização. E depois da festa? Depois de limpar a casa, realinhar o foco, parar e pensar, o que fazer?

Hoje eu digo que consegui muito do que desejei nos últimos tempos, sou uma pessoa realizada. Agora eu cruzei a linha, estou do lado de cá, olho para trás e vejo o quanto eu busquei meu lugar, o que eu fiz, o que deixei de fazer. Quantas noites eu perdi, quanto choro eu derramei, tudo para estar onde estou agora. Os motivos me carregaram pela mão, junto com o meu ímpeto. E agora?

A análise do que já é passado, a prova dos nove. Será que valeu mesmo a pena? Será que eu não poderia ter ido além? Será esse o meu limite? Muitas são as dúvidas, a ponto de ofuscar certas alegrias da vitória. A pitada forte de frustração quando nos damos conta de que acabou. O mais legal não existe mais, eu não preciso correr atrás. Sintoma de comodismo? Não necessariamente. Talvez seja apenas uma reação natural de quem não nasceu para ficar parado... E parou.

O ciclo da vida. Querer – conseguir – querer de novo. Neste segundo estágio, o mais importante não é pensar em onde quer chegar, e sim saber administrar o que se tem. O conforto de estar na cadeira desenhada em pensamento é inexplicável. Um novo projeto não.  Até chegar na próxima página, eu não preciso – e nem devo – me esquecer do que eu já li, ou melhor, escrevi até o último parágrafo.

O jeito é continuar incompleto, evitando a plenitude, evitando a estagnação. Que não seja sempre um novo começo, mas uma continuação, por que não um aperfeiçoamento? É bom olhar o mundo daqui, ver pessoas passando pelo mesmo que nós. Sem falar que sempre bate a saudade do lado de lá...


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