sábado, 22 de outubro de 2011

Papo de sarjeta




É, meu amigo! Quem te disse que viver seria fácil? Hoje te vejo assim, encharcado em suas lágrimas, devastado pela tempestade que você mesmo criou, plantou, esperou. A vontade é grande de te dizer “eu te avisei”, meu caro. Me conhecendo como poucos, você sabe que eu não perderia a oportunidade. Talvez eu diga, daqui a pouco, quando estiveres mais seco, em melhores trajes, em menores lamentos.

Larga essa vodca, ou a bebe toda. Afogar mágoas não requer a leveza inicial de um simples mergulho. Você está preparado? Não, vai por mim. Por esse caminho eu já passei, e não saí ileso. Sei que você quer ficar o menos ferido possível, mas isso é possível? Bem que seria conveniente esquecer um trauma batom-carmim se enchendo de álcool. Não, amigo, não é! O máximo que você vai conseguir, depois desse pileque, é mais dor de cabeça. E dessa, acho que já tens demais.

Como se aquela vomitada matinal expurgasse todas as lembranças do seu passado de brigadeiro e neon. Cara, aprende uma coisa: o “pra sempre” sempre acaba, já dizia aquela cantora lá. E muitas vezes, mais vale se conhecer uma letra de música bonitinha, ao tentar entender o mundo.

Ei, vamos lá, essa não foi a primeira e nem vai ser a última vez que tu vais cair de quatro, com a cara no chão, por causa de mulher ou por qualquer outro motivo. Eu acho que é de propósito, há quem diga que “faz parte da vida”. Sim, todos esses obstáculos que Deus, Jesus, Maria, sei lá, colocam na nossa frente fazem parte da nossa vida. Agora, será que temos mesmo que pagar os pecados de dois babacas, por causa de uma maçã?

Desobediência... Balela.  Você, por exemplo, sempre foi um cara bacana, generoso, atencioso – tá certo, agora você nem deve estar me ouvindo, mas acredite: você ainda é – e, mesmo assim, levou uma patada. Meu amigo, nunca conheci alguém mais obediente quanto você, e mesmo assim, a patada. Desobediência não deveria ser pecado, e sim, diversão justificada. Perdestes a casa, a vergonha, até aquela tal dignidade, que nem todos tem, mas vivem dizendo que preservam. Ser digno é ser cult. Ser idiota também é.

Acho que já falei demais, né? Então, já que eu estou aqui, vou te levar pra casa. Carregar um bêbado é divertido, mas carregar um amigo bêbado não parece tão interessante. Tua mãe vai te dar um bom banho, trocar esses farrapos fedendo a uísque e esbórnia. Ela já se acostumou a te ver boêmio, e não vai reclamar de novo. Já são quatro da manhã, e ela nem deve ter forças pra gritar contigo. Além disso, mãe é mãe.

Então, estás entregue. Agora dorme, sei que não vais sonhar, só esperar por aquela bigorna na cabeça. Quer uma dica de quem já passou por isso? Depois de acordar, nada de sair por aí feito um porra louca, achando que a solução pra ressaca de ontem será a ressaca de amanhã. Esquece do mundo. Finge que ele esqueceu de você. Agora só finge, não vai acreditar... E chega por hoje! Me deixa, que essa tua chuva ainda vai me deixar resfriado. Te vejo na faculdade, mas só depois de amanhã. Eu vou dormir.



Texto publicado no jornal FOLHA DE ÓBIDOS, edição de outubro/11.

IMAGEM: http://issoaiounao.zip.net/images/palhaco_bebado083.jpg

Um comentário:

Camila Lima disse...

Ler isso foi muito sinistro porque ontem mesmo eu estava falando em ficar bêbada! Hahahahaha!
Acho que vou repensar minhas atividades!
Muito bem, Gustavo!