domingo, 9 de outubro de 2011

O promesseiro


FOTO: Gustavo Ferreira

São duas horas da manhã. Acorda José, no frio de uma noite estrelada em Belém do Pará, aquecida apenas pelo fervor dos dias correntes. Beija a testa da esposa, que acorda em seguida. Vai ao quarto dos filhos, ao lado, e os olha com ternura. Ele vai até a cozinha, onde sua mulher prepara um café da manhã reforçado. Hoje o dia vai ser longo, lindo e intenso.

São três da manhã. José mora longe, e por isso precisa sair tão cedo. Ele deixa sua casa humilde, na periferia da cidade e, sob a luz do luar, espera o ônibus que lhe leve até a Cidade Velha. A condução, precária, demora a chegar. A condução chega. José sobe, senta, reza e espera pelo que o sol lhe trará dali a poucas horas.

São quatro e quinze. José chega, em meio a aglomeração de fiéis, à Praça Frei Caetano Brandão. Está em frente à Catedral da Sé, o ponto de partida do seu desafio dominical. Fitas colorem a paisagem divina, montada pela mais pura diversidade. Cores das mais diversas, sons dos mais distintos, que formam um coro uníssono, de fé e esperança. São orações, de todos os cantos, que ecoam nos corações de todos. José começa a fazer parte do Círio de Nazaré.

São seis da manhã. O Arcebispo fala, ora por todos, e José atrela-se ao seu maior porto seguro: a corda. O guia se todos eles, naquela manhã. Para levar Nazinha de volta para casa, a força das promessas, da gratidão e da esperança em um futuro mais digno, em uma vida mais justa. O futuro de José chegou, e ele devia suas lágrimas mais cheias de brilho e alegria. Após um acidente gravíssimo de carro, há meses, José renasceu. Viu a morte de perto, mas não tocou em suas mãos. Voltou. Graças a ELA.

São seis e quarenta da manhã. Começa a luta pela graça de vencer. Quem luta para perder? A vida de José, com certeza, se mistura, se confunde com outras milhares, a partir de então. Não são mais pessoas puxando uma berlinda, são um povo que leva sua Mãe ao seu altar. Com cuidado, com calma, com o coração carregado de emoção, o combustível mais eficiente. Obstinação, raça, determinação, adjetivos que se encaixam em José, mais um na engrenagem nazarena rumo à Nazaré.

São nove e meia. Ele sofre. Os pés do promesseiro perdem proteção, pedem ar, procuram espaço inexistente no chão de dedos que encobre a Presidente Vargas. Como ele sofre. Mas canta e grita, incentiva, é incentivado, se une aos companheiros de direção, todos juntos para um lugar comum. Mas ele sofre. Cansaço, peito apertado, onde não cabe tamanho coração.

São dez para as onze. Castigando com luz forte, o sol não livra nenhum dos milhões de romeiros. O corredor de mangueiras alivia, mas o calor continua severo. Calor térmico, calor humano. José não sente mais o braço esquerdo, preso à corda como que fundidos. Ele resiste pelos outros, pela sua família, pela sua vida, o motivo de estar ali. O corpo não é páreo para a alma forte daquele homem.

São onze e meia. Grande José, que vê seu destino cada vez mais próximo. A Nazaré lhe encanta, o mar de gente que navega o lindo bote do amor e da devoção, e fazer parte daquilo nem lhe parece tão cruel. O que lhe move é a promessa, a fixa idéia de vencer, que nunca lhe abandonou, desde a infância sofrida, quase sem os pais, a quem perdeu ainda menino. A vida nunca lhe foi simpática, mas José fez disso uma arma a seu favor. Enfrentou círios e círios diariamente pela sua felicidade, por dignidade, por um amanhã.

Meio-dia e quinze. Imponente, a Basílica Santuário só não é maior do que sua alegria. Soltou a corda, chegou ao CAN e desabou. Um choro de menino, aquele menino que venceu a vida, a morte, e cumpriu mais um desafio. Suas forças irrisórias se foram ao ver, finalmente, a berlinda florida cruzar seus olhos e entrar na Praça Santuário, rumo à sua redoma. Com as mãos para o céu, aquele promesseiro entoou, junto de todo aquele povo simples, lutador, o canto da vitória, aquela que, graças a Nossa Senhora de Nazaré, nunca lhe abandonou.

E, no que depender de José, nunca abandonará. Nem a ele, nem a sua família.

Segunda-feira, dez de outubro. São quatro da manhã. Mais um ano começa na vida de José...


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