quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nazinha


Lá estava ela, na beira do igarapé, com os pés molhados pela água doce, e o rosto marcado pelo tempo e pelo sorriso que não esmorece, um sorriso de fé infinita. Lava roupa todo dia, sem agonia, canta, os males espanta, um futuro melhor sempre desenha em sua cabeça, sem precisar chorar sempre pelo seu presente. Viver, para ela, já é o maior presente. O seu nome é Maria de Nazaré. Nazinha.

Uma mulher de fibra, mãe de cinco, casou jovem, viuvou há pouco, criou seus rebentos com muita luta e muito trabalho honesto, como feirante na sede do município. Sua casa de madeira é humilde, pequena, sem luxos. Nazinha nunca possuiu ouro, jóias, muito dinheiro. Sua riqueza está em seu coração, no respeito com que sempre encarou a vida, na dignidade que ostenta polida, na esperança de um amanhã mais bonito.

Nazinha acende velas, todas as noites, para sua santa padroeira, a padroeira de um povo inteiro. A santa que lhe deu mais do que o nome; lhe deu a própria vida. Sua mãe sempre lhe contou como se aproximou da Padroeira dos Paraenses. Sua gravidez foi complicada, e quase sua mãe não resiste ao parto. Mas Nazinha nasceu após uma promessa de sua mãe: se aquele bebê vingasse, seria por obra de Nossa Senhora de Nazaré, e além do nome, aquela criança sempre abriria as portas de sua casa para a Santinha entrar.

Já era agosto, e os preparativos para receber a imagem eram dignos de uma visita Real. O dia se aproximava, e todos os vizinhos e amigos estavam convidados. Ela tinha muitos amigos, pelo seu jeito simples e simpático de ser. Seus filhos cortavam o cabelo, vestiam roupa nova, cortavam as unhas e se perfumavam. Ela estava chegando.

A noite da novena era a mais especial do ano para Nazinha. Seus problemas, que problemas? Quando aquela imagem, carregada pela vizinhança, adentrava aquela humilde casinha, com toda a sua grandeza em tão pequenina matéria, sua luz iluminava o que nem escuro estava. Os olhos de D. Maria logo transbordavam em emoção, exaltação, devoção. Era como se as paredes ganhassem cores, as estrelas entoassem o hino, e as nuvens do céu descessem ao firmamento, e banhassem a todos ali presentes, como as águas doces dos igarapés da Amazônia.

Após todo o ritual, o terço, os cantos, as despedidas, era o momento mais especial do dia. Seus filhos iam dormir, e Nazinha ficava frente à frente com Nazinha, sua imagem, sua graça. Ali, em silêncio, aquela simples mulher, que vive em condições difíceis, a beira de um igarapé, na periferia de Belém do Pará, conversava com sua melhor amiga, sua fiel confidente. Era hora de fazer seus pedidos para mais um ano, que para ela começava em outubro. Era hora de agradecer as graças, ou melhor, a graça maior, que era o direito de viver feliz.

No dia seguinte, um clima diferente tomava conta daquele ambiente. A visita estava chegando no fim. As horas passavam lentamente, iam acabando, mas Nazinha não era egoísta, e sabia que outras casas mereciam receber a luz de Nossa Senhora. Quando a noite vencia o desafio do tempo, o momento da partida se aproximava. Escurece, e quem a trouxe, a leva.

Nazinha chora, mas sabe que, dali em diante, a mata que envolve seu terreno será mais verde. Dorme em paz. Ao acordar, volta a viver sua vida. De novo, lá estava ela, na beira do igarapé, com os pés molhados pela água doce, e o rosto marcado pelo tempo e pelo sorriso que não esmorece, um sorriso de fé infinita. Sorriso de quem tem uma certeza: Nazinha esteve ali. Esteve não, está.

FOTO: http://i30.photobucket.com/albums/c308/bicolor2005/51262376_27314c2014.jpg


Um comentário:

filizzolinha disse...

Mãos trêmulas e lágrimas tímidas... Esta sou eu tentando me concentrar na aula de linguística, quando em minha mente passam as imagens do teu escrito.