sábado, 1 de outubro de 2011

Luz, lágrimas e miriti



Que brilho é esse, que inebria, enchendo os olhos do povo paraense com uma luz forte, com lágrimas puras? Uma chama que marca o tempo, justifica esperanças, move pessoas e guia os pensamentos e os esforços físicos de quem se dispõe a viver intensamente o domingo sublime. Ou melhor, aqueles domingos sublimes, que começam no sábado, na sexta, na segunda após a procissão maior.

A vida segue dura por onze longos meses, até que chega outubro. Mudança. As almas das gentes parauaras, que se tornam uma só, sentem a beleza do Círio, em qualquer canto onde o pensamento voe até Nossa Senhora. A imagem, ao contrário, torna se dez, cem, mil, milhões de desenhos próprios da divindade e do poder de tão pequena porção de matéria. O inverso de sua necessidade para nós.

As lágrimas vêm a cada oração, a cada foto, a cada canção que embale os pedidos e o esforço deste povo sofrido, valente, persistente da Amazônia. Uma fé sem limites de cor, sexo, religião. O Círio é cultura paraense, antes de ser um evento católico. Não há exclusão que resista, nem orgulho que se negue a receber aquela luz, que transforma a berlinda em lamparina, iluminando as mentes e os corações de quem a vê, de quem a segue.

Luz de miriti. O talento entra em cena, e um simples barquinho navega em um mar de devoção e simbolismo, onde todos podem passear. Viajar. O que conta mais, para gravar na memória? A singeleza das peças ou a grandiosa demonstração de afeto, carinho, devoção? Seguem pela mata verde e amarela um pedaço de madeira, envolto por vidro, flores e gente, olhos de todo o mundo, mãos de todos nós.

Erguidas, as preces vão aos céus, através daquele andor divino. Levado pela força papa-chibé, sem recusar ajudas estrangeiras. Solidariedade, bondade, ajuda pura e simples, de quem nem se conhece, mas a quem já agradece. O peito que se enche de gratidão, a voz que grita o mais sincero “obrigado” a quem confiou no seu sofrimento e, por um momento, lhe estendeu as mãos. Firmes, mãos que guiam, calejadas, o motivo material de tudo aquilo. Pois o motivo espiritual não se mensura em massa. É sentimento.

Verdade que comove, que cativa, que incentiva. Antes, durante, depois do Círio. Sempre é Círio, no coração dos paraenses. Respiramos fé, transpiramos orações, aspiramos à graça maior da felicidade. Nessa caminhada tão difícil, basta que vejamos aquela luz, a mesma que nos leva às lágrimas em todo mês de outubro. A luz da esperança, a luz de miriti, a luz de Nazaré.


Foto: Ale Amorim (http://farm2.static.flickr.com/1233/1444651543_8010c6cd10.jpg)


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