quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Na geral




Em qualquer estádio, qualquer campinho de várzea, em qualquer rua... Em qualquer lugar onde haja uma bola rolando, sempre haverá alguém que, mesmo sem jogar, vai estar ali, vidrado, curtindo um dos melhores momentos da vida. Torcedor é assim mesmo, vai onde tenha jogo, pode ser uma pelada com bola de meia ou uma final de Brasileirão.

Nunca se cala! Aliás, fala demais. Mas é permitido, torcer é extravasar, botar para fora suas emoções mais viscerais. É paixão que não tem controle, nem lugar para ser guardada. Por isso que não sentimos vergonha de ostentar o brasão do nosso time do coração em todos os lugares. Vestir o manto sagrado da sua agremiação é uma honra, motivo de orgulho, até de status social. E não interessa se a fase é ruim, se o time não vence.

Torcedor de verdade é aquele que grita, que vibra, que chora pelo seu time, mesmo se ele só perde. Torcedor nunca perde a esperança em dias melhores. As arquibancadas são pequenas para o amor bicolor, tricolor, alvi-negro... Ganhamos cores além da pele, ganhamos uma segunda pele, até terceira, quarta, ou todas. Viram só? No final, torcedor nunca perde.

A não ser que... Ah, quando aqueles caras de amarelo perdem! Quem disse que a Seleção merece a nossa atenção apenas de quatro em quatro anos? Basta sair uma convocação, um amistoso importante, um torneio, uma final, e todo o país se veste de uma cor incomum. As roupas mudam, as casas mudam, todos se reúnem onde haja uma TV, para cornetar e achar. Como torcedor é “achista”!

Para nós, tudo poderia ser melhor. Viramos atacantes mais eficientes, meias mais habilidosos, zagueiros menos “perebas”, até treinadores de futebol todos somos. Às vezes nós temos razão... Muitas vezes nós temos razão, pois enxergamos além dos limites de quem comanda nossos times do coração. Mas o que enxergamos é o que nos conforta, quase sempre. Sim, há quem prefira ser político, comentarista, dizer que “não torce pra time nenhum”. Mas alguma preferência, sim, existe. A grande maioria prefere assumir suas cores.

Dizem que sobre política, religião e futebol não se discute. Quem disse? Futebol é povo, é emoção, é ego. Você deixa que um amigo seu, torcedor do maior rival, tire onda com você depois de uma derrota daquelas no clássico de domingo? Ou rir daquele frangaço do seu goleiro? Rivalidade. Necessária, vital, não há torcedor que viva sem. Agora, que seja saudável. Torcida saudável faz do esporte uma diversão.

Somos privilegiados, somos brasileiros. Vimos nascer grandes estrelas, dos nossos campos de bairro, jogando descalços, brincando de ser craques. Muitos dos meninos que hoje desfilam no tapete verde da realeza nasceram no barro, no asfalto. Isso é coisa nossa! Ir ao estádio, ao lado do pai, numa tarde de domingo, para torcer e vibrar pela mesma emoção. Xingar, gritar, esperar pelo momento sublime do futebol: o gol! O título. O prazer de ser torcedor, testemunha da história.

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Eu não sei ser poeta


Eu não sei ser poeta.

Quantas linhas já escrevi,
Quantas letras já montei.
Linhas, tramas, já construí.
O caminho das rimas, não encontrei.

Eu acho lindo ser poeta.

Manejar com ternura o furor
Da cabeça fervilhante, o fogo alimentar.
Em versos curtos, a beleza mostrar,
Do vento, da vida, do amor.

Eu não consigo ser poeta.

Vejo amigos, talentos brilhantes,
Que montam a poesia com tato e leveza.
As tentativas minhas, tortas, infelizes, inconstantes,
Não se aproximam de tamanha riqueza.

Será que eu quero ser poeta?

Meu lugar no salão das Letras eu já sei,
O dom das minhas palavras tem um caminho.
Talvez me arrisque por atalhos que verei,
E que as idéias nunca me deixem sozinho.


IMAGEM: http://www.paixaoeamor.com/arquivos/fotos/38D33.jpg

sábado, 24 de setembro de 2011

Alcateia



Em uma novela, qual dos personagens ganha mais a simpatia do público? O mocinho, símbolo de boa conduta, portador de bons valores e sem nenhum arranhão em sua imagem polida? Ou o vilão, maquiavélico, dotado de cargas pesadas de cinismo, falsidade e inveja, capazes de tudo para conseguir o que deseja? A resposta é óbvia, e você sabe disso. Mas você sabe o por quê? É fato, o que dá mais audiência, e não apenas em obras de ficção, é o tal do bom malandro, que nos leva na lábia, e de tão encantados, nós, público, esquecemos que eles são vorazes, impiedosos. São maus.

Mas quem se importa? Já nos acostumamos, com absurda passividade, a conviver com a sacanagem, com as falcatruas e os truques de quem passa por cima de tudo e de todos, indistintamente, para conseguir o que quer. Porém, criticar chega a ser hipócrita, não por você ou eu sermos pessoas ruins. Mas é a lei da vida. Thomas Hobbes não mentiu quando disse que somos os lobos de nós mesmos.

Selvageria na primeira página, sangue jorrado por nada. Qualquer espécie de canibal nunca pode ser comparada ao genocídio humano que presenciamos. Justo nós, inteligentes, os donos da razão, acabamos sendo vítimas de nossa própria arrogância. Uma pessoa que mata outra não o faz para sobrevivência, e sim para mostrar que é superior. O fogo das armas engrandece o “vencedor” da batalha. Homicídios que chocam, não chocam mais. E os leões acabam sendo taxados de brutos... Vindo de nós, isto até parece elogio.

O poder vicia, tanto quanto brilha aos olhos da ganância. Quem não quer mandar, sentir o gosto da supremacia, dar a última palavra? Destes, muitos preferem escolher o caminho mais fácil (entenda-se: ilícito) para alcançar o topo. Nesta escalada, cabeças são pisadas, vidas são destruídas, e tudo por uma satisfação egoísta, pelo deleite solitário, pelo sabor torpe da trapaça realizada. Saber que existe o próximo? Pra quê? Se os bombons são bons, ninguém divide. Só querem mais, e mais. E mais. O poder vicia.

Mania de brasileiro, dar um jeitinho para tudo nem sempre serve ao bem. Se o juiz não marca o pênalti que daria o título ao seu time, o que o atacante faz? Simula. As máscaras que iludem, enganam. Enganam a quem? A quem usa? Alguns consideram isso um jeito maroto de ser feliz. Mas tudo isso não passa de eufemismo para a pura esperteza, no pior sentido da palavra. Ser correto é ser otário. Ser correto é raridade, daquelas que arrancam suspiros de surpresa. “Meu Deus, você nunca roubou chocolate no supermercado?”. Difícil acreditar.

Em quem acreditar, nesse lugar onde é mais comum a corrupção do que a lisura? Roubam, matam, mentem. O tragicômico disso tudo é que o homem acaba atingindo a outro, e por tabela, a si mesmo. A mesma raça. E não por necessidades biológicas, e sim por desvios de caráter, falhas de conduta e falta de inteligência. Homo sapiens.  Tanto sabemos, tanto nos destruímos. Guerras que matam milhares, milhões, apenas pelo controle de gente. Apenas para ser mais, para mostrar suas penas, as nações que brigam feito pavões para provar que uma é mais vistosa que a outra. Guerras sem fim.

Um dia todos eram um só, iguais, em suas tribos, buscando apenas viver. Não se machucavam, não se agrediam. Apenas queriam viver. Até chegar a fome. Hoje em dia a fome não é apenas de comida. Ganância, egoísmo, umbigos maiores que o mundo. A nossa fome é de poder, de querer, de conquistar. O lado de lá nunca faz diferença... Mesmo ele sendo o lado de cá. Auto-destrutivos, nós, humanos, insistimos em atacar o sistema em que nós mesmos vivemos. É como quebrar as paredes de nossa própria casa, por dentro. Em resumo, a cada dia eu reforço a certeza de que Hobbes tinha razão. 


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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Um dia ruim




Acontece. Nem sempre o sol te acorda sorrindo, às vezes até machuca a luz que poderia te levantar, te estimular e te fazer abrir os olhos para o que é bom no mundo. Quando nada resolve te ajudar e você não pode fugir dos compromissos, tem que encarar a rotina, mesmo trocando seu reino por apenas um colo, um abraço, uns minutos com você mesmo... É, amigo! Hoje não é, dos seus dias, o melhor.

Aqueles nobres conceitos de alegria, de vida, de amor, nenhum vale muita coisa nessas horas, inevitavelmente. É absurda e normalmente aceitável passar por algo assim, já que máquinas podem ser programadas para sorrir (e não pensar) o tempo todo, e nós não. A humanidade é traiçoeira, não te dá a chance da eterna perfeição. Lembrando que perfeição é só um conceito que criamos para fugir dos nossos medos e fingir que tudo está bem.

Se você é pacifico, alguém resolve te tirar pra uma briga. Se você está tranqüilo, a faculdade te enche de trabalhos repentinos. Se você vive bem com seu amor, eis que surge o maldito ciúme. Se você busca um objetivo, ele voa mais pra cima, mais pra longe de você. O seu dia dura menos do que deveria. O sofrimento também.

Poder prever um dia ruim é legal, te poupa de um montão de dor de cabeça. Agora não teria tanta graça se não fosse inesperado, aquela sensação de que “hoje o dia vai ser longo”, só surgida após os primeiros bocejos espreguiçados da manhã. O “de repente” existe e é cruel. A confiança depositada vira fumaça, a calmaria vira tempestade dentro de você, e o que era certeza não é mais nem sinal de questionamento. Queda.

Levanta! Ter maturidade para encarar um dia péssimo não é absoluto entre todos, tem gente que não consegue fazer estes dias virarem passado o mais rápido possível. Alimentam, fazem a bola de neve crescer, e engolir o calendário inteiro, a começar pelo amanhã. Tão promissor! A fuga, a salvação de uma desgraça completa. Se hoje nada vai bem, o que resta é a porta mais próxima, chamada de “o dia seguinte”. Mas se até ele não lhe parecer muito chamativo, o que fazer? Vai chorar, vê se ajuda. Pelo menos evita suicídios. Se não fosse isso, metade da população da Terra já seria pó. Afinal, quem nunca teve um dia ruim?


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domingo, 11 de setembro de 2011

Em setembro


Em setembro eu vejo o quanto nós todos somos nada, o quanto as certezas que nos empunhavam deixam de ser verdades. O que é a verdade? Nada do que foi será... Em setembro a casa vira do avesso, o avesso de tantas vidas cruzadas, como eternas amigas. Ninguém reconhece ninguém, ninguém confia em ninguém. As dúvidas nos fazem pensar, pensar e mudar, mudar o pensar. O que move o mundo, em setembro, são as lembranças. Memória viva, que ainda sangra, que ainda dói, pois são o espelho, o resquício do que fomos e fizemos um dia. As cicatrizes estão em nossas peles, como se fôssemos responsáveis de todas as desgraças por aí. E não somos? A culpa é inerente a nós, sentir esta culpa é ato de humildade, grandeza, perante o que restou de tudo. Réus e vítimas, culpados e inocentes, todos somos, se o sistema faz o que quer. Nós somos o próprio sistema. Quem pode nos defender de nós mesmos? Em setembro, tudo sai do seu lugar, tudo volta a machucar, o que parece deixa de ser. Compreensão, respeito, humanidade, história. O futuro, aquele amigo de infância, passa por nós, diferente demais do que um dia foi. Repetindo os mesmos erros, este setembro pode se repetir a qualquer hora, seja março, outubro ou fevereiro. Enquanto isso, nós voltamos a viver o que temos, do mesmo jeito que vivíamos antes daquele setembro: sem saber o que ainda vem pela frente.  




domingo, 4 de setembro de 2011

Aquele velho almoço de domingo


Meu nome é Alberto Araújo, tenho 35 anos, sou dono de um restaurante conceituado na cidade, e um dos meus maiores prazeres é ver meus clientes satisfeitos, de preferência calados, já que o melhor elogio para um chef é o silêncio de quem prova seus pratos. Eu comecei a trabalhar muito cedo, estudei Gastronomia às custas do meu esforço, me aperfeiçoei, cheguei onde cheguei. E o que me lembro até hoje como primeira inspiração para seguir esse caminho é um hábito que marcou os anos mais tenros da minha vida.

Muito antes de eu ser quem sou hoje, eu ainda era um menino que brincava de carrinhos e bonecos de super-heróis, e morava em uma casa simples, nem pobre, nem rica, mas boa. Éramos eu, meus dois irmãos, um casal, e meus pais, que sempre foram uma família feliz. Comum, até. Nós sempre tivemos regrinhas de conduta, que toda família tem, porém uma dessas nem era uma regra. Era um programa dos mais esperados, onde brigas eram solucionadas, boas notícias eram dadas, e a conversa da semana era posta em dia.

Meu pai era empregado em uma montadora, trabalhava de segunda à sexta, chegava cansado em casa, sem muito tempo para falar com os filhos. Minha mãe, dona-de-casa, sempre foi exemplo de dedicação ao lar e à família. Meus irmãos mais novos, Lucinha e Dudu, faziam da nossa casa uma festa. Vez ou outra nossos parentes apareciam lá em casa para comer aquele churrasquinho, aquela lasanha de mãe, e para falar mal de alguém. Ainda mais se fosse naquele dia da semana, onde todos se reuniam.

O cardápio era maravilhoso, meus pais cozinhavam como ninguém. Minha raiz, minha inspiração. Comecei a vê-los praticando o dom da culinária em casa, sentindo os cheiros e os gostos. Nascia um chef. Comecei fazendo uns bicos como faz-tudo, para conseguir minha primeira grana. Fui professor de português, dava aulas particulares e assim fui me bancando. Hoje, se eu sou um profissional respeitado, se eu consigo ver nos meus clientes aquele Beto, aquele garoto, encantado pelo paladar, pelas descobertas, aquele sorriso de satisfação a cada mordida, a cada gole, se eu sou quem sou, eu devo àquele bendito hábito semanal.

Quando recebo famílias no meu restaurante, aos domingos, para almoçar, eu sorrio involuntariamente. Não apenas pelo faturamento. Aliás, isso nem é tão importante assim. Minha alegria é ver que a tradição não acaba, mesmo com os novos tempos, quando mal se tem tempo para o outro. Sabe, se você que está lendo este texto agora pode, não deixa a chance passar. Porque às vezes, tudo o que você precisa é de mais tempo, de mais família. De mais um velho almoço de domingo. 


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