segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Segundo domingo de sempre


Foto: Gustavo Ferreira


Eu sei que muitos irão questionar, mesmo que não assumam, o porquê deste texto, se ainda estamos em Agosto. Eu também sei que parece um pouco anacrônico escrever sobre isso, se a maior parte das pessoas ainda vivem outro momento, e talvez não se importem tanto. Afinal de contas, estamos ainda distantes de outubro. Porém, além destas já citadas, eu também sei outras coisas...

Eu sei que não precisa ser outubro, muito menos ser domingo, para que lágrimas venham aos olhos ao ouvir uma canção, ao fazer uma oração, ao ouvir o nome Dela, que olha por nós, seu povo da Amazônia, e zela pela nossa terra e por nossas vidas. Vidas que carecem tanto de atenção, de carinho, um carinho que muitos se esquecem de exercitar, nos demais meses do ano. Um carinho que deveria vir dos que mandam, em cada casa erguida, em cada rua asfaltada, em cada posto de saúde. A dignidade de um povo, que se perde a cada falha, a cada omissão.

Eu sei que o fascínio que sua casa, seu altar, em Nazaré, não é casual. É sem igual. Os traços que dispensam conhecimentos arquitetônicos, encantam por se tocarem, formando a redoma, tão forte quanto a vontade de protegê-la. Patrimônio nosso, o Santuário de uma só emoção, de um só povo, fiel, seguidor. Sem ingressos, sem cerimônias, as cerimônias abrem as portas ao turista mais curioso e ao belenense menos surpreso, da mesma forma. E surpreende da mesma forma.

Eu sei que o tacacá não se vende apenas em outubro. É bebida do ano inteiro, faça sol ou faça mais sol ainda. Belém, cidade sem estações. Menos naquele segundo domingo, quando bandeiras indicam que ali a corda se une, unindo dois milhões de romeiros, de guerreiros. Estações que levam, sob o calor da Amazônia, a Santinha de volta para casa. Quantos vão, diariamente, por estas ruas, sem saber se voltarão no dia seguinte? Quantos nela se apóiam, ao ver seus caminhos bifurcando, enrolando, findando?

Eu sei que as cores do Círio na cessam de nos presentear após a procissão. Presentes. Estão presentes no açaí, fruto sagrado desta gente. No verde das mangueiras, que nos vestem com a sombra acalentadora de um abraço. No vermelho da nossa bandeira, o vermelho do sangue de quem faz este estado avançar, suando a camisa, vestindo a camisa com honestidade e paixão. No amarelo alaranjado do pôr-do-sol, refletido nas águas barrentas que nos cercam e banham. Presentes.

E eu também sei que idolatrar imagens é errado, para alguns, segundo a Bíblia. Não me venham dar aulas de religião, aqueles que se achem ultrajados. Sou fiel, sou devoto, não pelo que o homem achou, ou construiu. Nem pelo simbolismo das fitinhas, das velas e da Berlinda. Sou fiel pelo conforto, pelo amparo, pelo respeito, pela fé que deposito em algo que não se explica. Algo que o paraense enxerga nos olhos Dela, e que nenhuma teoria seria capaz de substituir. Algo que, seja pelos sons, pelas imagens, pela memória, sempre nos faz viver um segundo domingo. Ontem, hoje, sempre.




Um comentário:

Renan Mendes disse...

Sabes da minha opção religiosa, né?
Mas acho muito bonito toda essa festa pra demonstrar fé, acho mesmo.
Texto bonito.