sábado, 20 de agosto de 2011

Pela madrugada




São duas e meia da manhã.

Já é sábado.

Eu não consigo dormir.

Acordo e penso, viajo em meus delírios de adolescente. Viajo em um mundo que eu criei, só para fugir da melancolia do mundo que criaram para mim. Como é lindo o meu mundo, meu de fato. Lindo, triste, perfeito do seu jeito. Penso na noite que eu não vivo, que os limites do meu medo não me deixam degustar.

O que eu queria era curtir intensamente, como um homem menino, como um sem destino, jogado à sua própria vontade. Vontades, com “s” maiúsculo. O som dos sons da rua, as luzes, o neon das estrelas, os artifícios do mais puro prazer sensorial. Meus sentidos em um caminho sem sentido, onde nada é o que parece.

A dança das multidões, estar com todos e com ninguém mais, na calada noite preta, eterna escuridão, pincelada com toques divinamente profanos, com o brilho que os meus olhos refletem.  Eu penso nos meus sonhos mais entorpecentes de alegria, recheados de surpresas armadas, de luxúria e penitência. O que é isso, a não ser a própria vida, uma faca de dois gumes, um sorriso encharcado por lágrimas de pena e culpa?

Nada é de graça, muito menos a alegria. Efêmera. Cruel. Traiçoeira. É madrugada, e eu ainda tenho a consciência no lugar. Como eu queria perdê-la, por algumas horas! Eu só queria me perder, pegar as chaves de casa, e embarcar nos meus devaneios de última hora. Em vez dos meus sonhos, meu corpo resolveu me fazer viver por meio de palavras.

Quem ler este texto, talvez não entenda, de primeira, o que eu quero dizer. Justificável, já que eu mesmo não vejo, com clareza, o que meus dedos digitam, e o que minha mente quer. Ah, o controle incontestável das paixões, dos amores e desamores. Tudo o que a rua me reserva, e que meus escrúpulos, talvez meu caráter, não me deixe viver. O sono ainda não vem. Por enquanto, eu imagino acordado, como em um livro de Nelson Rodrigues, a mistura sacana e mortal de romper limites.

Eu sei que esse sábado não me reserva nada além da melancolia rotineira de um pacato cidadão. Pacato. Infeliz pacato, que disfarça seus desagrados com um sorriso burocrático, de quem prefere acreditar em besteiras, como educação, amor, eternidade. Nada é eterno, só o desejo fútil e inútil de o ser. Eu ainda quero ser. Sou hipócrita, por escolha dos astros, por passividade minha, e para o bem de todos.

São três da manhã.

Ainda é sábado.

Eu só quero dormir. E sonhar. E viver.


IMAGEM: http://portugues.torange.biz/photo/1/13/As-luzes-da-noite-com-o-cora%C3%A7%C3%A3o-1236343182_24.jpg

2 comentários:

William Costa disse...

Sonhou alguma coisa?

Mah Jardim disse...

Delicado, porém intenso.
Muito bom (: