terça-feira, 23 de agosto de 2011

Fome de quê?



Saciedade. Não, eu não escrevi errado. Esse texto fala sobre saciedade, a condição de estar satisfeito com algo. Na verdade, as palavras seguintes mais falarão sobre a falta de saciedade, de satisfação. Do que não temos, do que queremos, até mesmo do que não queremos querer, por preguiça ou auto-sabotagem. Nessa arte, somos craques. Pra falar a verdade, nunca estamos cheios, empanturrados, menos ainda. Eu ainda sinto fome. E você?

Ainda preciso de algo, pra encher o espaço entre meus dentes. Fome de conhecer, lugares e pessoas, como usar a cafeteira e as teorias de Walter Benjamin. Fome de conhecimento. Por favor, não apenas o acadêmico, muito menos o restrito. Quero apenas saber. É pedir demais? Quero pedir mais. Receber em conseqüências, o troco do preço pago pela felicidade que tanto busco.  Perder amigos para ganhar outros, fazer alguém sorrir, mesmo que outros chorem. Eu tenho fome de aprender.

Aprender que o mundo é cheio de gregos e troianos, de remistas e bicolores, petistas e tucanos. Não, que eu nunca passe perto de tentar demagogia barata, ou pacifismo idiota. Mas minha barriga ronca, clamando pela compreensão de algo que incomoda, os dentes e a alma. Por dar demais a alguém, outro ficará sem. Desprezo até a morte os que interpretarem a frase com malícia de criança. Tenho fome de maturidade.

Ora, quando o homem não sente vontade de comer? E a mulher? Antropofagia, mesmo. Ter fome de gente, de comer, de mastigar, de sentir os gostos de cada um. Provar os desejos, até conhecer ao máximo. Ou o suficiente, pura proteção. A fome dos outros pode incomodar. Sugar a atenção, saciar o outro. Um dia consigo controlar meu estômago, ansioso pelo prato do dia. Cardápio livre, de acordo com o nosso querer.

Quero querer. Ainda bem. Querer bem. Sou um eterno insatisfeito, busco alimento, caço, faço, mas ainda insatisfeito. Sentimento, amor, amizade, isso ainda me falta, sempre falta. Sem depressão, apenas constatação. É bom faltar. Temos que guardar espaço, por menor que seja, para novos pratos que a vida te serve. Ah, mas e a congestão? Prepare-se. Há certos temperos que, quando carregados, estragam qualquer refeição.

Muita mentira, muita verdade, muito pecado, muita castidade. Se encher, vomite, suje, devolva à terra o que ela te deu demais. O excesso estraga, mata, destrói o paladar. O único excesso que você não pode deixar de ter, é de fome. Ser insaciável é o melhor alimento. E você? Tem fome de quê?

IMAGEM: http://3.bp.blogspot.com/-Xf5KZf6p2sM/TaSIyeDUI3I/AAAAAAAAAy4/q4eA9J5ItLo/s400/fome.jpg

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