sexta-feira, 8 de julho de 2011

Namorinho de portão



Imaginem só a situação: você começou a namorar uma garota que sempre desejou, depois de muita luta, e quando consegue o privilégio de ir até a casa da amada, para tentar um beijinho, tem que agüentar o sogro fazendo marcação cerrada, sentando no meio de vocês no sofá. Isso se conseguir entrar na sala de estar. É. Agora imaginem essa mesma situação acontecendo ontem. Pois foi isso mesmo que aconteceu comigo. Ou melhor, quase.

Quem foi que disse que não existe namoro de portão no século 21? Eu, leigo, achava que não, que a internet, a liberação feminina e os tempos modernos tinham mudado alguma coisa na cabeça dos pais de hoje. Pelo menos a cabeça dos pais da Manu. Eu juro que sempre tentei entender o zelo que sempre tiveram pelas minhas ex, especialmente pela Manu, que eu teria com motivos – ela é uma jóia de menina. Mas nunca pensei que chegaria a tanto, como chegou.

Tudo começou com um convite. Início de namoro, claro que nós sempre tentamos impressionar, e assim lá fui eu atrás da minha mina, propondo um cineminha. Bom, eu tenho 19 anos, ela tem 17, mas a gente se gosta de verdade mesmo. E eu, mesmo sem conhecer bem meus sogros, decidi colocá-los nesse patamar. E assim mesmo, sem saber direito onde pisava, resolvi fazer o convite. A Manu já tinha contado sobre nós dois para eles, e isso me deixava mais confortável, mais seguro em tentar avançar nosso namoro. Estava tudo lindo, perfeito, irretocável. Mas nem te conto que meninas gostam mesmo é de espalhar, principalmente sobre namorado.

E a Manu, como não é diferente, chamou imprensa, tuitou, mandou scraps, o diabo. Mas a primeira pessoa que soube foi quem? Foi quem? Sogrinha. Abram parênteses: 40 anos, católica fervorosa, beata mesmo, daquelas que recolhe as ofertas na missa. Obviamente ela ficou com o pé atrás, disse que não. Mas, com muita insistência da Manu, ela liberou. Com um detalhe: o cineminha seria na casa dela. No começo eu pensei: “que droga!”, mas com o tempo eu comecei a ver os possíveis lados bons desse negócio... Se é que vocês me entendem...

Fui eu, empolgado, até a casa dela, com o pior filme da minha coleção – Sinais –, esperando uma boa recepção (da Manu). Mas, pra minha surpresa, quem abre a porta é sogrão. Abram parênteses: 45 anos, ex-militar. Só isso basta. E, com um cinismo bem disfarçado, me recebeu com uma frase que, acreditem, é uma sentença de intromissão: “Entra, fica à vontade.”. Ainda tentei não esmorecer, fingi que estava mesmo à vontade – quando a minha vontade mesmo era a de me trancar no banheiro – e fui ao sofá, me sentar ao lado da minha namorada. Deu tempo?

Claro que não. Lá estava o sogrão no meio. Nunca aquele filme me pareceu tão chato. Qualquer tentativa de encostar a mão da Manu era fortemente contida com um olhar fulminante. Saco! Nós dois não conseguimos ficar juntos por mais de meio milésimo de segundo. Depois do cineminha, fingi que estava atrasado e que tinha que ir embora, mas pedi que Manu me deixasse no portão, clamando – com os olhos – por uma despedida digna. Um descuido do pai e ela me puxou até o portão. Finalmente um beijo, finalmente... Mas, o que era aquilo? Era o Seu Aldair. Como? Ele estava simplesmente apontando uma ESPINGARDA para mim, da janela da sala. Nem pedi explicações, saí correndo, com medo de levar chumbo de graça.

Hoje a Manu me explicou tudo. O seu pai estava “apenas limpando a arma favorita dele, que fica como enfeite na sala”. Pra cima de mim? Ora! A cueca que eu perdi ontem, com essa limpeza de espingardas, me fez voltar uns 60 anos no tempo e pensar no perrengue que meu avô passou, até casar com minha vó. Coitado! Hoje eu sei como era ruim namorar de portão.

IMAGEM: http://peregrinacultural.files.wordpress.com/2011/04/namorinho-de-portc3a3o.jpg

2 comentários:

Helena Diniz disse...

HAHAHAHAHAHAHA ADOREEEEI,você se supera a cada texto, não tenho mais dúvidas do ótimo jornalista que serás. Sucesso (:

Berenice disse...

Adoreiii, rsrsrs... sucesso querido, podes ter certeza que não vai demorar muito, vc merece, e podes ter certeza que é de coração...