sábado, 30 de julho de 2011

Passado Presente - Final


ÚLTIMO CAPÍTULO
Fim

“Juliana encontra Breno em sua casa de praia, em Angra, e decide contar toda a verdade sobre o que aconteceu no seu passado. No início, Breno duvida, maltrata a ex-amada, pois não concebe a idéia de nunca ficar sabendo de nada, e não poder lhe ajudar a superar o trauma. Porém, o amor fala mais alto e, ao fim da discussão, os dois se declaram como nunca antes durante a novela, se abraçam e se beijam, selando o perdão e, consequentemente, o famigerado ‘final feliz’ para o casal”.

Era o que estava escrito no script da última cena da novela. A reconciliação de Breno e Juliana poderia ser a chance de Marina se explicar, de Gabriel perdoar, e do povo respirar aliviado. A tensão daquela gravação era absurda, todos os poucos técnicos, atores e diretores presentes no estúdio sabiam o que estava acontecendo entre o casal real, e a possibilidade irônica de presenciar um falso perdão não tirava ninguém dali, nem por decreto presidencial.

Na cabeça da mocinha, uma interpretação de mentira, carregada de verdade. Na cabeça do herói, nada além de um amargo desamor. Os dois mal se olhavam no set, tamanha vergonha de Marina, tamanha raiva de Gabriel. Mas ainda faltava um requinte de crueldade naquela cena eletrizante: César apareceu de surpresa no estúdio, pronto para assistir o fim majestoso de mais uma criação sua. Ele não esperava, ninguém esperava, que tudo fosse tão diferente.

Tudo pronto. Silêncio no estúdio. Gravando!

Quando Gabriel esquece o personagem, atropela Breno, e despeja toda sua ira em palavras fortes, grosseiras, sinceras demais, todos se assustam. César nada consegue fazer, imóvel fica. O diretor tenta parar a gravação. Neste momento, um elemento de cena não-programado se torna peça fundamental para este desfecho dramático. Uma arma.

Ameaçando qualquer um que se metesse no caminho, o totalmente transtornado Gabriel Vilhena empunhou um revólver carregado, com munição igualmente fatal ao que tinha em seu coração. Ali, agora, eram só ele e Marina, frente a frente. A tensão no olhar de ambos indicava o fim trágico.

Porém, como se não bastasse o risco que todos ali corriam, uma pessoa invade o set, transtornada, aos prantos, implorando para ter sua vida de volta. Era Diana. No auge de seu desespero, gritava para Gabriel, justificando que, agora, não havia mais ninguém entre os dois, e a família poderia voltar a existir. Neste momento, os olhos de Diana se voltaram, vermelhos, a Marina. E num acesso de ódio e morbidez, apontou outra arma contra a atriz.

Ato reflexo. A prova maior de que era amor o que Gabriel sentia por Marina foi a primeira bala disparada. Gabriel matou a ex-mulher, para salvar aquela que lhe traiu. Existe razão? Talvez sim. Melhor não ter, pois a história não pede explicações para os mais inexplicáveis instintos humanos. O corpo no chão, o sangue nas mãos de Marina, tentando salvá-la...

Naquele momento , Gabriel sabia que não tinha mais saída. Era a última parada. A polícia já deveria estar a caminho, todos os técnicos haviam ido embora do estúdio. Apenas César ficou, para ver o Grand Finale da sua segunda obra. A novela já havia terminado. Ali estavam os personagens da trama que ele construiu para destruir duas vidas de verdade.

Nem César, nem ninguém acreditavam no que aconteceu depois. O último tiro, o fim de tudo. Até hoje não saberemos se Gabriel disparou por acidente, ou com intenção de matar Marina. O que importa é que matou. Não havia mais casal, não havia mais novela, não havia mais segunda chance. César, inconformado, ainda tentou acabar com Gabriel. Mas a polícia chegou, levou o ator, e tudo terminou ali.

Com o corpo em seus braços, César chorou. Não foi esse o final escrito em sua cabeça. Sua ficção se misturou com a realidade, que ele não poderia controlar, mas tentou brincar de Deus, mexendo caminhos inalteráveis. Não foi mera coincidência. O escândalo talvez deixe o autor afastado por algum tempo, talvez para sempre, talvez até a poeira baixar. De qualquer forma, César Dumont conseguiu, de novo, escrever mais um campeão de audiência.



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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Passado Presente - Parte V


PENÚLTIMO CAPÍTULO
Voltamos a apresentar

O amor do casal principal do folhetim, que parecia inabalável, começou a balançar. Dois novos personagens entraram na novela, única e exclusivamente para destruir o que unia Breno e Juliana. Mas o plano ia além das gravações. Os textos vinham carregados de diálogos capazes de despertar sentimentos reais, e ruins. Plantando, ou melhor, regando a sementinha do ciúme nos dois atores, através das constantes brigas dos personagens em cena, César ia destruindo o amor verdadeiro, a partir do amor de mentirinha.

Bia e Márcio, os dois novos personagens de “Passado Presente”, cumpriam bem seus papéis. Ela, tentando seduzir Breno. Ele, fazendo de tudo para conquistar Juliana. Não, os dois não estavam na sinopse original. E naquela fase bem folhetinesca, quando o casal principal se separa durante a novela, as cenas entre os novos pares eram carregadas, principalmente em sensualidade. Justamente para que Marina atingisse Gabriel, e vice versa.

Os dois, inocentemente culpados, caíram lentamente na armadilha do autor, e a paixão entrou em crise. As brigas eram cada vez mais constantes, a harmonia estava deixando de existir, e uma dúvida começava a pairar sobre as cabeças dos dois e do Brasil intero: será que o romance dura até o fim da novela?

O folhetim entrou em suas últimas semanas com o casal duplamente separado, na ficção e fora dela. E, para aumentar ainda mais o clima tenso entre os atores, na véspera da gravação do desfecho, uma foto na internet foi a gota d’água para Gabriel. Marina e César juntos, aos beijos, em uma balada na noite carioca. Não parecia montagem, pois não era.

Por mais que os dois brigassem, no fundo Gabriel ainda acreditava que o sentimento dos dois seria mais forte do que todas as ameaças, todos os maus pensamentos que rodeavam, ameaçando a paz e o futuro deste amor. Mesmo havendo ciúmes, traição nunca foi cogitada. Por tudo isso, ver aquela foto fez o ator sentir uma ira nunca dantes vista. Mais que traído, Gabriel foi humilhado.

Todos sabiam, agora, o que Marina tinha feito. Para César, pouco importava ser vilão ou não desta história. Para Gabriel, a dor de ser trocado só aumentava. As lágrimas do personagem  deram lugar ao choro raivoso do intérprete. As artes, mais uma vez, se confundem com a emoção, e o último capítulo desta novela, destas novelas, seria digno de 100 pontos de audiência.


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terça-feira, 26 de julho de 2011

Passado Presente - Parte IV


Estamos apresentando

Ardente. A vida real de Gabriel e Marina era uma loucura, desde o modo como surgiu até o seu desenrolar. Depois de descobertos, os dois não viam mais motivos para não se mostrarem como um casal de fato. Já andavam de mãos dadas, já eram vistos aos beijos em festas, já estampavam ensaios fotográficos de revistas para noivas.

Mais do que a embalagem ser vistosa, o conteúdo desta paixão era realmente intenso. Não sei se posso, mas continuarei a chamar de amor, pois existia sentimento. Menos sentimentos do que sensações, das mais variadas, das mais inusitadas. Um casal de extremos. Discutiam, é claro. Que casal não discute? Principalmente por ciúmes, por ambas as partes. Gabriel até um pouco mais (mesmo sem saber do caso antigo de Marina).

No ódio e na cama, o final de toda briga, os dois não tinham limites. A vida privada (e limitada) dos dois atores era atração pura, inexplicável até. Os dois se conheceram e, poucas semanas depois, já pensavam em casamento. Fulminante. Nenhuma novidade, já que Gabriel e Marina não eram o primeiro, e muito menos serão o último casal formado por trás das câmeras.

Os Trending Topics eram pouco para a febre em que o casal se transformou. As adolescentes os consideravam ídolos, as vovós achavam os dois o casal perfeito, tanto na novela, quanto nos intervalos. Tudo era lindo, mas toda felicidade é alvo de olhos invejosos. Com eles, não foi diferente.

Diana, inconformada com o fim de seu casamento com Gabriel, começou, em atos desesperados, a atacar o ex, em programas de audiência duvidosa, feitos para difamar e garantir o segundo lugar no Ibope nas tardes da semana. Nas revistas, depoimentos raivosos de uma mulher abandonada, de uma família acabada. De uma pessoa acabada. Todos nós sabemos que uma mulher abandonada é capaz de qualquer coisa. Até que ponto a ira de Diana se transformaria em veneno fatal, para ele ou para ela?

César também sofria. Um homem trocado não deixa barato, o orgulho não aceita. Vingança é inevitável, e a dele foi cruel. Seu talento e seus vários colaboradores o permitiram, digamos, mudar os rumos do romance de Breno e Juliana na novela. 


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domingo, 24 de julho de 2011

Passado Presente - Parte III


Gravando!

As gravações começaram, e a repercussão dos primeiros capítulos foi, como esperava-se, maravilhosa. A história envolveu o país, e os protagonistas eram sucesso absoluto. O romance de Breno e Juliana, e a luta da mocinha para esquecer Mariano, sua desilusão do passado, o primeiro amor e a maior decepção de sua vida, alcançava recordes de audiência. Nos estúdios, atuações brilhantes. Mas a verdadeira história de novela acontecia nos bastidores.

Os atores começavam a aparecer nos mesmos lugares com mais freqüência, a serem vistos juntos nos corredores da emissora, e bastou isto para que o estopim fosse aceso. Um escândalo começou a se revelar nas capas de revistas, nos sites de fofoca e nas mesas de bar. Bem que os dois tentavam evitar a exposição, mas a fama não perdoa. O contrato não permite liberdade condicional, muito menos o direito de pedir privacidade.

Mas o mundo inteiro tinha razão. Breno e Juliana deram lugar a Gabriel e Marina, e os quatro foram se misturando cada vez mais, e a ficção deixou a realidade entrar sem licença. Os beijos não eram mais técnicos, os olhares não eram mais parte do roteiro. O sentimento saiu do papel, do roteiro e do controle de César.

Como autor, ele sabia que deveria escrever não mais para um casal de atores, mas para dois apaixonados. Porém o texto carregado, mais visceral, tornou-se predominante na trama dos dois. O motivo: César e Marina tiveram, sim, um romance, como os boatos apontavam. Talvez o convite para estrelar a novela tenha sido fruto desta relação tórrida e passageira. Os dois terminaram no começo da novela, e César não entendia o porquê. Agora tudo se esclareceu.

Mais alguém nessa história ligou os pontos e chegou a uma conclusão dolorosa. A esposa de Gabriel, Diana, mãe de seu filho, um bebê, que mal sabia do futuro que sua família teria semanas depois. Gabriel estava cada dia mais ausente, talvez criando coragem para contar à esposa o que a mídia se encarregou de revelar.
Como podia uma mulher destruir a solidez de um amor de anos? Como podia um homem largar tudo por uma paixão?  


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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Passado Presente - Parte II


Mais um campeão de audiência

No que dependesse do talento de César Dumont, autor de várias novelas de grande destaque, “Passado Presente” estava fadada ao sucesso. Um elenco de peso foi convocado para contar a história de Breno e Juliana, um casal que enfrentaria muitos obstáculos para conseguir ficar unido, o maior deles seria a marca do passado na vida de Juliana. Um amor que terminou de forma trágica. Coincidência ou ironia?

Para os papeis principais foram escalados dois famosos atores da geração, com talento e simpatia, prontos para uma novela das 9. Era a primeira vez que Gabriel Vilhena e Marina Aguiar contracenariam juntos, e de cara formaram um par romântico. A idéia seria um par de mentirinha. Mas explica isso para eles!

Gabriel era um homem casado, tinha um filho pequeno, uma família que ele tinha o maior zelo em proteger da fúria dos paparazzi. Ele sempre deixou claro que o único a pagar o alto preço da fama seria ele. Muitas vezes premiado, galã garantido em novelas de sucesso, Gabriel era o modelo de astro. Educado, atencioso, dedicado.

Marina, jovem Marina, ganhava sua primeira protagonista no horário nobre, mas não era novata. Uma boneca de cristal na leveza do rosto, e uma leoa na determinação e no profissionalismo. Cobiçada por muitos, Marina era alvo de muitas especulações dos programas de fofocas, sobre sua vida amorosa. Muitos afirmavam em um caso com César Dumont, o autor da novela. Mas ela sempre negava.

Quando o elenco começou a se reunir, para as primeiras leituras do texto, a química entre os protagonistas não era questão de afinidade, e sim de necessidade, para que o público visse a realidade nos seus olhos, durante a novela. Realidade que foi ganhando cada vez mais espaço entre os dois, a ponto de surpreender o próprio autor. Até demais.


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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Passado Presente - Parte I

Último capítulo

E naquele estúdio, sem teto de luzes, sem paredes de madeira, sem contra-regras ou diretores, lá estava Gabriel, com a arma em punho, e Marina na mira. Quem diria, o casal perfeito, os novos “namoradinhos do Brasil”, em uma cena antagônica, um contra o outro. Um corpo ensangüentado entre os dois só aumentava o clima funesto de uma despedida lacerante.

Gabriel só queria saber o motivo, talvez a única alternativa que teria de ser feliz, na vida real, como era na ficção, com a bela Marina. O brilho nos olhos era falso, truque de televisão, truque feito a armação do destino, cruel, por não dar a chance do casal, finalmente, aproveitar de todos os limites intermináveis de uma história de amor digna dos folhetins dos anos 70.

Seus personagens, mais profundos do que os próprios intérpretes, tanto em sentimentos, quanto em força de vontade, vontade de resistir, persistir, resistir aos não poucos desafios que um amor de verdade enfrenta. E quem irá dizer que o amor dos dois, nos bastidores, não era verdadeiro? Era intenso sim, gigante sim, sincero sim. Tão assim, pequeno demais para um camarim, um corredor, dois minutos de prazer.

Marina, com sangue nas mãos, tentou explicar, tentou falar, não conseguiu. As últimas falas do seu script foram cortadas na edição, e não seriam lá tão belas. Naquele ponto, sua vida não tinha mais vida, e o triste fim seria apenas questão de tempo. Gabriel, o catalisador, não agiu com razão, nem com coração. Ele era apenas um monte, um resto, sem distinções de pensamento, ou mesmo de sentimentos. O ódio e o amor, a perturbação e a clareza, tudo levou, como uma onda fatal, ao fim de tudo.

O gatilho disparou, Marina era o segundo corpo daquela sala, vazio, sem alma. Gabriel cai, incrédulo, feliz, aliviado, arrependido. O público assiste, absolutamente chocado, o fim da história de um casal maior do que a dramaturgia, que nasceu e morreu grandioso. Não poderia ser diferente. Gabriel Vilhena e Marina Aguiar serão, para sempre, o novo Casal 20 da telenovela brasileira.

Fim.

As explicações ficam para o começo.







segunda-feira, 11 de julho de 2011

(Sem título)



E quando a gente quer dizer algo, palavras que precisam ser ditas, e simplesmente a voz não sai? Toda coragem ensaiada some, perante o eterno improviso da vida, impiedoso com quem continua refém do roteiro. Traídos pelo desconhecido. Um vazio retumbante, e de repente o silêncio ecoa, como a única saída para a encruzilhada em que você se encontra. Não se espante! Há momentos em que nos tornamos vítimas do silêncio involuntariamente.

E quanto nós podemos dizer sem falar...  As palavras podem se tornar meros coadjuvantes, quase irrelevantes, se o rosto se molda ao seu discurso, e os olhos fazem de tudo para que o outro saiba o que você quer dizer, como que suplicando: “por favor, me entenda! Não me faça falar!!!”.

Pupilas brilhantes e lágrimas que explicam mais do que sintagmas organizados. O rubor da timidez, comum, bastante comum. Se você é tímido, tome cuidado para não ultrapassar a fronteira da covardia. A raiva colorada, a tensão, o nervosismo. Tudo o que a testa atesta, e a boca sem a boca precisar se abrir.

Pessoas que se entendem pelo olhar. Um simples gesto, silencioso afeto, certeira certeza. Linda proeza é conhecer alguém tão profundamente, que os sons são detalhes, quando se trata de entender o outro. A distância de alguns metros faz os olhos serem a única janela para que o pretendente tente enxergar as intenções, apaixonadas ou não, de alguém. A conquista nos cílios que se encontram, no clichê mais infalível, ao invés do primeiro “oi”.

Atitudes. Um comportamento justifica qualquer frase pronta, e não há quem nunca tenha perdido o direito de falar, quando ousou fazer. As flores de um buquê, a chave do carro novo, o presente de aniversário... Nada substitui o abraço apertado, o beijo de amor, a saudade que extravasa os limites corporais, espirituais, sentimentais, orais. Sentir, ao invés de dizer o que sente. Apenas sentir. Como eu já disse, às vezes a voz simplesmente não sai, nada podemos fazer para evitar. Precisamos sempre tentar evitar o silêncio?

Um escritor, para conseguir descrever um lindo pôr-do-sol, a brisa da manhã, a chuva da tarde, em palavras, ou é muito talentoso, ou não existe. Não existe palavra mais bonita e mais suficiente do que as memórias sensoriais. Ainda bem que o nosso maior poder é o de sentir, antes de falar ou escrever. Experiências tácitas, muitas nem merecem ser reduzidas a meia dúzia de filhos do alfabeto. Palavras podem diminuir seus próprios significados. Quando a emoção não pode ser descrita, não tente.

Dizemos muitas coisas sem falar sequer uma sílaba, e nem nos damos conta disso. Seja um “sim”, um “não”, até mesmo um “talvez”, com um simples aperto de mão, uma simples recusa, um desvio de olhar... Palavras. São lindas, podem encantar, fazer pensar, resolver brigas e nunca, nunca perderão a sua vital importância para a humanidade. Entretanto, são dispensáveis, em momentos da vida quando expressões fazem o papel das cordas vocais. Às vezes, o silêncio soa mais alto do que qualquer palavra.

IMAGEM:http://4.bp.blogspot.com/_n6AnocC7QY0/Scmdk9-VJZI/AAAAAAAAAbc/QKetj2DJ3k4/s400/sem_palavras%5B4%5D111.JPG

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Namorinho de portão



Imaginem só a situação: você começou a namorar uma garota que sempre desejou, depois de muita luta, e quando consegue o privilégio de ir até a casa da amada, para tentar um beijinho, tem que agüentar o sogro fazendo marcação cerrada, sentando no meio de vocês no sofá. Isso se conseguir entrar na sala de estar. É. Agora imaginem essa mesma situação acontecendo ontem. Pois foi isso mesmo que aconteceu comigo. Ou melhor, quase.

Quem foi que disse que não existe namoro de portão no século 21? Eu, leigo, achava que não, que a internet, a liberação feminina e os tempos modernos tinham mudado alguma coisa na cabeça dos pais de hoje. Pelo menos a cabeça dos pais da Manu. Eu juro que sempre tentei entender o zelo que sempre tiveram pelas minhas ex, especialmente pela Manu, que eu teria com motivos – ela é uma jóia de menina. Mas nunca pensei que chegaria a tanto, como chegou.

Tudo começou com um convite. Início de namoro, claro que nós sempre tentamos impressionar, e assim lá fui eu atrás da minha mina, propondo um cineminha. Bom, eu tenho 19 anos, ela tem 17, mas a gente se gosta de verdade mesmo. E eu, mesmo sem conhecer bem meus sogros, decidi colocá-los nesse patamar. E assim mesmo, sem saber direito onde pisava, resolvi fazer o convite. A Manu já tinha contado sobre nós dois para eles, e isso me deixava mais confortável, mais seguro em tentar avançar nosso namoro. Estava tudo lindo, perfeito, irretocável. Mas nem te conto que meninas gostam mesmo é de espalhar, principalmente sobre namorado.

E a Manu, como não é diferente, chamou imprensa, tuitou, mandou scraps, o diabo. Mas a primeira pessoa que soube foi quem? Foi quem? Sogrinha. Abram parênteses: 40 anos, católica fervorosa, beata mesmo, daquelas que recolhe as ofertas na missa. Obviamente ela ficou com o pé atrás, disse que não. Mas, com muita insistência da Manu, ela liberou. Com um detalhe: o cineminha seria na casa dela. No começo eu pensei: “que droga!”, mas com o tempo eu comecei a ver os possíveis lados bons desse negócio... Se é que vocês me entendem...

Fui eu, empolgado, até a casa dela, com o pior filme da minha coleção – Sinais –, esperando uma boa recepção (da Manu). Mas, pra minha surpresa, quem abre a porta é sogrão. Abram parênteses: 45 anos, ex-militar. Só isso basta. E, com um cinismo bem disfarçado, me recebeu com uma frase que, acreditem, é uma sentença de intromissão: “Entra, fica à vontade.”. Ainda tentei não esmorecer, fingi que estava mesmo à vontade – quando a minha vontade mesmo era a de me trancar no banheiro – e fui ao sofá, me sentar ao lado da minha namorada. Deu tempo?

Claro que não. Lá estava o sogrão no meio. Nunca aquele filme me pareceu tão chato. Qualquer tentativa de encostar a mão da Manu era fortemente contida com um olhar fulminante. Saco! Nós dois não conseguimos ficar juntos por mais de meio milésimo de segundo. Depois do cineminha, fingi que estava atrasado e que tinha que ir embora, mas pedi que Manu me deixasse no portão, clamando – com os olhos – por uma despedida digna. Um descuido do pai e ela me puxou até o portão. Finalmente um beijo, finalmente... Mas, o que era aquilo? Era o Seu Aldair. Como? Ele estava simplesmente apontando uma ESPINGARDA para mim, da janela da sala. Nem pedi explicações, saí correndo, com medo de levar chumbo de graça.

Hoje a Manu me explicou tudo. O seu pai estava “apenas limpando a arma favorita dele, que fica como enfeite na sala”. Pra cima de mim? Ora! A cueca que eu perdi ontem, com essa limpeza de espingardas, me fez voltar uns 60 anos no tempo e pensar no perrengue que meu avô passou, até casar com minha vó. Coitado! Hoje eu sei como era ruim namorar de portão.

IMAGEM: http://peregrinacultural.files.wordpress.com/2011/04/namorinho-de-portc3a3o.jpg

sábado, 2 de julho de 2011

Longe




“Tudo era apenas uma brincadeira, e foi crescendo, crescendo...”

Quando Peninha escreveu esse verso, nós sabemos que tratava-se de uma história de amor, que começou despretensiosa, pelas beiradas, e o tempo se encarregou de transformá-lo em algo tão grande, maior do que qualquer um poderia imaginar. E, pensando bem, a fórula é a mesma para outras situações, quando nossos projetos, nossos sonhos, nossas vidas se tornam maiores que nós mesmos.

Tudo bem, vamos começar pelo que já começou: o amor. Quantas vezes aquele casinho de festa pode virar casamento? Não são poucos os casos de casais formados do nada, do simples prazer, até mesmo do orgulho de uma ou de ambas as partes, que não aceitam a possibilidade de um compromisso, de se amarrarem a alguém. Sinto dizer, amigo, mas se até o Lázaro Ramos da novela mudou, imagina se você não pode.

Assusta, mexe com tudo, vira de ponta-cabeça, e só te acorda quando não há mais volta. Tá, acho que exagerei, pode ter volta sim, mas afirmar isso tira a beleza da mensagem. Se um parceiro amoroso pode surgir de uma brincadeira, o que dizer de uma relação profissional? Muitas vem de simples recados no Twitter, e vão crescendo, crescendo... Uma mensagem leva a outra, o famoso boca-a-boca (não necessariamente oral). Dá certo.

Com amigos a regra é a mesma. Hoje é muito fácil conquistar seguidores nas 82764539 mídias sociais das quais somos membros, basta um clique ou dois. Pseudo-amigos hoje, por que não amigos de verdade amanhã? Você pode até não conhecer pessoalmente, mas a vida do outro não é segredo para você. E bingo! Vocês já têm assunto para o primeiro encontro. Daí pra frente o tempo, a convivência e a empatia mútua se encarregam do resto.

O tempo, aliás, pode mudar os nossos sonhos também. Tudo começa num simples exercício de imaginação sem perspectiva nenhuma, uma brincadeira de “quero ser”. Acabamos sendo, crescendo, e as crianças sonhadoras se tornam crianças que se esbaldam com o doce sabor do dever cumprido. Realização. Ela vem com esforço, é óbvio. O que não impede a surpresa do parar, pensar e ver que o topo nem era tão distante assim, ou que ele ainda nem tenha chegado.

Parar, pensar, escrever. Os primeiros textos nunca são os melhores, e até que a gente tenha coragem de divulgar o que faz, nenhum outro é. Como divulgar? Hoje é bem mais simples, chega a ser infantil. Talvez por isso que o medo de ser pífio encubra tantos talentos nascentes.  Mas a confiança vem, vem, e de repente um caminho muito bacana foi traçado, e o agora espanta por nunca ter sido imaginado.

O reconhecimento é real, a segurança é conseqüência. Então nem pensa em desistir do seu site, blog, algo assim. Aliás, nunca desista de nada, por menor que pareça. Um dia você vai sorrir ao olhar para trás e vai ter orgulho em dizer: “caramba, como eu cheguei longe”!



E como o Etc chegou longe! Esse é o POST 200 deste blog, que também começou como uma brincadeira, e foi crescendo, crescendo... Obrigado a todos vocês que leram ao menos um destes tantos escritos que fizeram essa história. Mais 200 posts? Pode crer que sim!



IMAGEM: http://www.hq.nasa.gov/office/pao/History/ap11ann/kippsphotos/6550.jpg