sexta-feira, 24 de junho de 2011

Arraial da Luz Azul




Uma cidade que qualquer criança consegue descrever com exatidão, a cidade de Três Vilas não tinha lá muita gente, porém era cheia, muito cheia de histórias que eu levaria o ano inteiro para contar. Como as palavras devem encurtar o tempo e aumentar a curiosidade, eu deixo que vocês imaginem o que acontecia por lá. Até porque eu devo (e vou) começar a tentar mostrar a vocês a festa mais aguardada do ano naquele pequeno vilarejo no sertão do Brasil. Bem vindos ao Arraial da Luz Azul.

O Arraial é aquela festa típica de cidade pequena (por mais que Três Vilas exagerasse nesse quesito): a Praça Central ficava lotada de todo tipo de gente, desde as senhoras fofoqueiras de janela, até a família de prefeito. Comes e bebes, muita música e, claro, muitos flertes. Aqui, a estrela era Candinha Bezerra, filha do prefeito Viriato e de Dona Santa. Candinha era a moça mais temida e, ao mesmo tempo, a mais desejada do Arraial (e da cidade). Linda, pequena, olhos cor de mel, com uma doçura de deixar qualquer homem louco. Mas quem iria se atrever?

Apenas um homem seria capaz de tamanha ousadia. Neco, forasteiro recém chegado a Três Vilas. Ninguém conhece seu passado, nem ele prevê seu futuro, apenas deixa a toada seguir. Apaixonou-se por Candinha desde que pisou na cidade pela primeira vez, e não tomou conhecimento de seu pai, quando a pediu em namoro, na casa do prefeito. Foi expulso a tiros de espingarda, mas não desistiu. Foi ao Arraial muito bem disfarçado, com olhos que só Candinha enxergou. Dançaram a noite inteira.

Não tanto quanto Dona Filó, no auge de seus cinqüenta e poucos anos, com fogo de menininha de vinte. Pegou, não se apegou. Desde o rapaz da estalagem, até o Delegado Malheiros, Dona Filó dançou muito, e mais uma vez foi a dona do salão. Até com o padre tentou dançar, porém a força de Deus falou mais alto (mesmo contra a sua vontade).

Voltando ao Delegado Malheiros... Enquanto sua esposa, Dona Laura, cuidava dos quatro filhos antes da quadrilha, o Delegado, digamos, circulava pela festa, conferindo o movimento (dos quadris das belas meninas), como fazia sempre. Com cuidado para escapar dos olhos maldosos das três irmãs mais famosas da cidade, o chamado “Trio das Venenosas”, Clotilde, Inês e Verinha. Sem mais explicações, o Trio estava mais que atento, estava afoito por alguma coisa que alimentasse os burburinhos dos dias seguintes.

E começou a dança mais esperada, a grande Quadrilha, maluca por si só, sem nenhum travestido. Não precisava. Candinha fez par com seu disfarçado Neco, e dele não largou mais. Seu pai, o prefeito Viriato, dançava com a esposa, mesmo querendo outra moça mais jovem. Coincidência ou não, Dona Santa também caçava com os olhos um rapagão. Coincidência ou não, lá estava Dona Filó, de novo com o rapaz da estalagem. Ou com o policial? Já mudou?

Meia-noite, e todos pararam e voltaram os olhos ao céu. A lua se preparava para o espetáculo maior daquela noite. Um fenômeno qualquer, que caberá aos cientistas ou astrônomos investigarem, transformava a Lua, bela, imponente, em uma estrela incomum. A Lua brilhava azul, um azul forte, raro, lindo de se ver. O fenômeno ocorria apenas na noite do Arraial. Arraial da Luz Azul... Alguma dúvida sobre o porquê desse nome?

A festa foi até o sol de São João raiar no sertão, e depois tudo voltou ao normal na pacata Três Vilas. Neco e Candinha continuaram se encontrando as escondidas, enganando o prefeito (não a primeira-dama, que consentia o romance, talvez por nunca ter vivido um igual). Dona Filó dispensou o rapaz da estalagem e voltou a conter seus instintos mais secretos. O Delegado Malheiros continua circulando por aí. E as Venenosas, coitadas, voltam a dormir sozinhas, ensaiando o próximo buchicho da cidade.

Já a Lua foi dormir, cedeu lugar ao Sol forte do nordeste, esperando mais um Arraial, para voltar a brilhar e iluminar Três Vilas e sua quadrilha de todos os dias. Iluminar o balancê de azul. A luz azul do sertão.



IMAGEM: http://www.divulgarecife.com/ImagensDivulgaRecife/2011/05/sao-joao.jpg

Um comentário:

William Costa disse...

Eu fiz uma fogueirinha... tâm - tâm-tâm-tâm...
Esperando o meu amor....